10 de mai. de 2014

UMA VISITA INESPERADA

Ai tudo começou a ficar um pouco mais lento na minha vida e senti necessidade de dar uma acelerada no cotidiano e juntar somente aquilo que seria mais importante nesta fugaz vidinha.
       Preparei o local com muito esmero, abri todas as janelas e deixei entrar uma suave brisa vindo de ventos muito distantes, abri as cortinas e esparramei todos os meus arquivos pelo chão da sala.
       A alegria em ver tudo esparramado pelo chão fez os olhos da minha querida netinha brilharem de tanta felicidade e imediatamente ela disse:
- Nossa, quanta coisa, que lindo! Posso ajudar?
Coloquei a mão não queixo e dei algumas voltas ao redor da pequena mesa colocada no meio da sala e disse:
Claro querida, desde que você mostre aquilo que você quer jogar fora para eu poder dizer se é possível ou não.
       A bagunça era enorme e eu não sabia por onde começar, desviei meu olhar para o céu azul e foi quando a minha querida netinha gritou:
- Vovô, que foto linda é esta?
- É a foto da minha mãe quando ela tinha apenas 50 anos de idade.
- Mas ela é linda! Conta sobre ela para eu saber quem foi a minha querida avó?
- Claro querida, com todo o prazer, mas ela não é sua avó e sim sua bisavó!
- Mas eu quero clamá-la de avó, pode? Perguntou minha neta com ar de surpresa.
       Peguei a foto carinhosamente e algumas lágrimas correram sobre a minha face e entre o passar das mãos no rosto para enxugar as insistentes lágrimas que não queriam cessar passei a descrever quem era minha querida mãe Thereza Miranda da Silva.
       Sabe querida Mellyssa, minha mãe era uma pessoa muito boa e era espírita e ajudava todas as pessoas que necessitavam de alguma ajuda.
- Nossa que legal, então se ela fosse viva ela poderia até a ajudar nas minhas lições da escola? Disse minha neta.
- Claro querida, embora ela não tivesse muito estudo mas existia uma alegria muito grande em ajudar a todos e com certeza ajudaria você com suas lições de casa e até iria ao parquinho com você.
       Senti um vento entrando pela porta da sala e esparramando alguns papéis escritos fazia muito tempo e naquele exato momento pude ter a certeza que minha mãe estava presente entre nós observando nossa despretensiosa conversa entre neta e avô.
       Tentei mudar de assunto mostrando para minha neta os meus diplomas do curso de inglês que eu tinha feito há muitos anos e surpreendentemente ela disse:
- Nossa vovô, está na hora da gente regar nossas plantinhas!
Saímos da sala vagarosamente e fomos encher o regador e enquanto estávamos regando os pezinhos de alface que tínhamos acabado de plantar pousou um sabiá laranjeira em um pé de limão e lá ficou a cantar até terminarmos de molhar todas as plantas.
       Voltamos para a sala para terminarmos a arrumação da minha vida e minha netinha abraçou-se carinhosamente a uma bonequinha chamada Neneca e ficou olhando eu arrumar toda a bagunça e disse:
- Não chora não vovô, ela nos ama muito e está olhando por nós!

       Querida mãe Thereza Miranda da Silva, esteja onde a senhora estiver aceite um enorme abraço deste filho que jamais irá esquece-la e obrigado pela visita. Feliz dia das Mães!

27 de abr. de 2014

COPA DO MUNDO

E a copa do mundo já estava em andamento em 2002 e eu resolvi fazer uma visita a minha irmã no bairro da Vila Maria Alta em São Paulo, Brasil.
         E lá estava eu sentado confortavelmente no sofá da casa da minha irmã Sônia conversando sobre tudo com o meu cunhado Antelmo e o meu querido sobrinho Evandro fez-me um pedido:
- Tio, que tal a gente fazer alguns desenhos e pintar a rua Santa Fé do Sul?
         Aprumei-me e fiquei pensando se poderia ajuda-lo e questionei se já existia infraestrutura para começarmos a pintar a rua e foi quando ele disse:
- Ora tio não há necessidade de nada, queremos apenas que o senhor desenhe a bandeira do Brasil e alguns desenhos na rua e amanhã eu vou de casa em casa solicitando ajuda para comprarmos as tintas necessárias para pintarmos os desenhos.
         Olhei para relógio e os ponteiros assinalavam 18h30min, levantei-me e disse: Posso desenhar a rua toda mas necessito beber algumas cervejas, é possível? O meu sobrinho disse: Claro tio, dinheiro para comprar as cervejas nós temos.
         Imediatamente subi vagarosamente as escadas da casa da minha irmã com alguns giz nas mãos e resolvi iniciar o desenho da bandeira do Brasil bem em frente da casa da minha irmã e vários garotos moradores da rua e os meus sobrinhos começaram a ajudar a esticar o barbante que serviria para começar a esboçar os primeiros traços da nossa querida bandeira nacional.
         Passados alguns minutos a bandeira já estava totalmente desenhada e foi quando eu disse:
- Mas onde está a cerveja que vocês prometeram? Não existe cerveja, não existe desenho e resolvi abandonar tudo e voltar a sentar no sofá da sala da minha irmã.
         Meu sobrinho apareceu na porta da sala e pediu para eu ir até a rua e ver a surpresa que eles tinham preparado para mim e foi quando eu cheguei no portão e avistei uma enorme mesa de madeira colocada bem no meio da rua e ao lado uma imensa caixa de isopor lotada de garrafas de cervejas nadando em gelos e eu disse: Os desenhos continuam e por favor enche o primeiro copo de cerveja e arrumem uma maneira de interditar a rua para podermos trabalhar com mais segurança.
         Comecei a desenhar o piu piu chutando uma bola de futebol e quando eu estava concentrado no desenho e a rua já estava totalmente interditada com um carro do meu irmão em uma ponta e outro carro na outra ponta apareceu um garoto e questionou-me:
- O senhor é desenhista? Faz grafite? E eu agachado levantei-me e disse:
- Eu não sou nada, apenas aprendi alguns traços rudimentares de desenho e atendendo ao pedido do meu sobrinho resolvi traçar estas pífias linhas no asfalto.
         O garoto sorriu e disse se eu aceitava uma ajuda para desenhar a rua e eu imediatamente disse que qualquer traço seria bem-vindo. Sentei-me sobre a mesa e enchi meu copo de cerveja e fiquei a apreciar a habilidade daquele pequeno garoto que em apenas alguns minutos desenhou vários desenhos sobre o asfalto.
         Calmamente aproximei-me do nosso recém chegado desenhista e disse: rapaz, quanto talento! Onde aprendeu tudo isto? O jovem sorriu e disse: Trabalho como desenhista em uma agência de publicidade e vendo toda esta alegria e todo o esforço do senhor resolvi ajudar.
         A partir daquele momento eu era apenas um mero coadjuvante do desenhista que tinha chegado sorrateiramente e estava colocando todo o talento sobre o asfalto.

         Terminamos de desenhar já passava das quatro horas da manhã e o mais lindo era observar a felicidade estampada no rosto dos garotos da rua que reunidos agradeceram a nós e foram dormir prometendo que no dia seguinte todos os desenhos seriam pintados.

23 de abr. de 2014

MISSA NA ROÇA

A missa acontecia no último domingo de cada mês na pequena igreja do bairro do Ripiado em Salesópolis, estado de São Paulo.
         A simplicidade das poucas casas de pau a pique ao redor da igreja era herança dos tropeiros que cortavam estreitos caminhos carregando vários tipos de mercadorias em lombos de mulas para serem negociadas no litoral paulista.
         Neste dia todo o povoado aguardava ansiosamente a chegada do padre que vinha a cavalo abrindo e fechando porteiras e quando o mesmo chegava na vila todos reverenciavam desejando boas-vindas com muita alegria.
         Aos poucos os cavalos iam sendo amarrados ao redor do grande casarão e após a missa era servido café com vários biscoitos preparados por senhoras moradoras na roça.
         A igrejinha ficava no alto de um morro e as pessoas iam chegando lentamente e cumprimentando-se e passados alguns minutos a missa começava com o padre agradecendo a presença de todos e abrindo a bíblia pedia silêncio e ficava a orar caladamente.
         Algumas moças olhavam para o lado e para trás para poder avistar algum moço de outras vilas e serem notadas para uma posterior paquera após a missa.
         A presença de um moço morador da capital paulista chamava atenção da jovem Thereza Miranda da Silva que neste domingo tinha levado o irmão Evaristo Miranda para poder assistir à missa e assim que o moço José da Silva entrou na igreja e sentou-se ao lado daquela jovem e lá ficaram entreolhando-se entre uma oração e outra o pequeno Evaristo queria sair do banco para observar o padre mais de perto.
         Terminada a missa a jovem deixou o garoto Evaristo em frente a um altar com algumas velas na mão e disse que esperasse um pouco que iria conversar com o jovem José da Silva e assim saiu para uma conversa e possíveis paqueras entre os mesmos.
         Passados alguns minutos a jovem Thereza voltou para dentro da igrejinha para pegar o garoto Evaristo para irem beber o café com biscoitos que já estavam sendo servidos no casarão e ficou muito surpresa quando perguntou sobre as velas e soube que o garoto tinha comido todas as velas. A jovem ficou um pouco zangada com o irmão e pediu para o mesmo limpar a boca e lá seguiram para o delicioso café com biscoitos que estavam sendo servidos entre animadas conversas entre os moradores da roça.
         O padre após servir-se de alguns copos de café e comer alguns biscoitos acenava pedindo muita paz para todos e ainda teve tempo de ouvir a história das velas comidas pelo pequeno garoto.

         Aos poucos todos iam desamarrando os cavalos e cumprimentavam-se pois era chegada a hora de retornar para suas casas e aguardar a próxima missa e assim a jovem Thereza seguia para casa segurando a mão do garoto comedor de velas e assim que chegaram em casa os seus pais perguntaram se tinha tudo corrido bem e ela dizia que tudo estava ótimo e ouviu a garoto dizer: Os biscoitos estavam ótimos, mas gostei mesmo foi das velas! Entre sorrisos ia deitar-se apaixonadamente pensando na próxima missa na roça e reencontrar o querido namorado José da Silva.

15 de abr. de 2014

FELIZ ANIVERSÁRIO!

   












                                                            
                                                                  O dia estava terminando e  o  Sol ia   desaparecendo   mansamente    no horizonte atrás de grandes montanhas existentes  em  um  distante  bairro da querida cidade   de Guarulhos.
         Sentei-me em um tronco de madeira que estava embaixo de uma frondosa árvore e fiquei a admirar aquele espetáculo maravilhoso da natureza
         O Sol tinha desaparecido atrás das montanhas deixando meus olhos um pouco embaraçados e resolvi conferir se todas as pesquisas estavam feitas naquele bairro e notei que faltava apenas uma casa para ser pesquisada e pelo mapa a casa ficava na rua paralela a que eu estava.
         Desci a estreita viela e ao longe eu podia ouvir gritos e risadas de crianças que pareciam muito felizes. Parei em frente da casa e observei várias crianças correndo em todas as direções, bati palmas e logo fui atendido por um grupo de crianças que perguntaram o que eu queria.
         Esbocei um sorriso de boas-vindas e pedi para falar com o dono da casa e imediatamente um garotinho gordinho abriu a tramela do portão corroído pelo tempo, pegou minha mão e disse:
- Pode entrar moço para participar do meu aniversário, meu nome é Francisco e o pessoal me chama de Chiquinho e o nome do senhor como é?
Tentei explicar para o garotinho que eu tinha ido fazer uma pesquisa naquela residência e ele não entendeu absolutamente nada e levou-me até um banco de madeira posicionado ao lado de uma pequena mesa totalmente enfeitada e pediu para eu sentar que ele iria chamar o papai.
         O tempo foi passando e eu lá aguardando o proprietário da residência aparecer e todos que passavam  cumprimentavam-me alegremente e foi quando apareceu uma garota com uma bandeja lotada de deliciosos salgadinhos e vários copos de refrigerantes e ofereceu educadamente os salgadinhos tentei recusar mas a fome era maior e aceitei alguns salgadinhos e um copo de refrigerante.
         Passados alguns minutos apareceu uma senhora muito gorda e depositou delicadamente um enorme bolo de chocolate em cima da enfeitada mesinha e advertiu a garotada que não era para “beliscar”” e nem furar o bolo com os dedinhos inquietos até a hora que o mesmo fosse servido e ainda pediu educadamente para eu ficar vigiando a criançada para que o bolo não fosse mexido.
         Sem entender nada do ocorrido fiquei a admirar a alegria contagiante das crianças correndo por todos os cantos da casa entre gritos estridentes, bexigas estouradas e sorrisos altos.
         Algumas senhoras começaram a chamar todas as crianças existentes na casa e posicioná-las ao redor da mesa, a luz foi apagada e começaram a cantar o “Parabéns” entre alguns cliques de uma máquina fotográfica. Fui servido com uma generosa fatia de bolo e após os ânimos estarem um pouco menos acirrados fui perguntar pelo proprietário da casa que sorridente disse:
- Pois é senhor, este nome que o senhor está procurando não mora nesta casa e sim ao lado, come mais um pedaço de bolo!
         Desejei um Feliz Aniversário para o Chiquinho e lá fui eu para a casa vizinha fazer minha pesquisa.

         

6 de dez. de 2013

A ARQUITETA

        E desde que a pequena Caroline foi abandona pelos pais que a deixaram com a avó chamada Alice o grande sofrimento fez-se presente em todos os momentos da menina Carol que passou a viver sempre ao lado da querida e protetora avó.
        No pequeno quartinho alugado nos fundos de um grande cortiço, o exíguo dinheiro de uma pensão da vó Alice, uma boneca e duas camas separavam o grande sonho de Carol e sua avó: Morar em uma residência digna e sempre a garotinha de apenas seis anos dizia:
- Olha vó Alice, quando eu crescer, vou ser uma construtora de casas e construirei uma linda casa pra gente morar!
Vó Alice passava as mãos pelos lindos cabelos negros da netinha Carol e dizia:
- Dorme minha querida e sonha, porque sonhar é necessário e faz bem pra alma.
     No outro dia lá estava a vó Alice arrumando, limpando uma residência para ganhar o sustento para amparar as necessidades do cotidiano, e como diarista sempre levava a pequena Carol que ficava a admirar os pequenos livros comprados em sebos da periferia e quando abria uma página do livro e aparecia uma casa muito bonita ela saia correndo e ia mostrar para a vó Alice e dizia:
- Olha Vó, nossa casa!
Vovó Alice balançava a cabeça, sorria e dizia:
- Linda muito linda, começa a ler outra história minha querida, esta casa é muito luxuosa pra ser da gente!
- Carol encolhia-se num cantinho da sala que estava sendo limpa e pensava que um dia seria muito inteligente para construir uma linda casa como aquela que estava no livro.
        O tempo foi passando e Carol começou a estudar em uma escola do bairro e sempre seu maior interesse foi desenhar casas e sempre que a professora perguntava o porquê tanto interesse por casas, Carol respondia:
- Porque não temos casa para morar e vou construir uma casa para minha avó Alice!
        O ensino fundamental foi completado com grande êxito e os elogios dos professores sempre enaltecendo a grande facilidade em desenhos da pequena Carol deixavam vó Alice muito feliz.
        O Ensino médio foi totalmente estudado em uma escola Federal na área de Edificações e finalmente após grandes projetos e profundos estudos começou a trabalhar em uma grande Construtora da cidade de São Paulo.
        A vida de cursinho a noite após o trabalho visando fazer uma excelente Faculdade de Arquitetura fez despertar o interesse pela aquela inteligente menina do dono da Construtora que fez uma proposta para Carol.
- Olha garota, por esta construtora já passaram vários estudantes de arquitetura, edificações, engenheiros e peões, mas sua obstinação nos surpreende muito e a melhor coisa que temos que fazer é financiar os seus estudos e a partir de amanhã você não necessita mais vir trabalhar, está despedida!
Os olhos de Carol lacrimejaram e quando ela foi saindo entre soluços o dono da Construtora pediu que ela não ficasse triste, pois a empresa ajudaria naquilo que fosse necessário. Uma bolsa de estudo até o término da Faculdade de Arquitetura e não haveria mais a necessidade de trabalhar todos os dias, apenas quando necessitassem de algum apoio.
        Carol prestou o vestibular e passou em primeiro lugar e começou o curso em uma Faculdade de Arquitetura de primeira linha na cidade de São Paulo e durante os anos que foram passando conheceu Paulo, também estudante de Arquitetura e oriundo de uma família muito rica da cidade de São Paulo e entre as maquetes construídas sempre sobrava tempo para uma boa conversa entre os dois.
        Ao término do terceiro ano do curso já estavam namorando e arquitetando grandes e mirabolantes planos para o futuro e foi quando Paulo fez um pedido para Carol:
- Carol, que tal ao final do nosso curso irmos morar nos Estados Unidos, em Los Angeles?
Carol riu e disse: Sim poderemos ir, após casarmos e construirmos uma linda casa para minha vó Alice!
O tempo foi passando e Carol e Paulo se formaram com grande pompa, grandes méritos e vários elogios dos grandes mestres de arquitetura por terem sidos maravilhosos alunos que tanto ajudaram em grandes projetos de pequenas moradias popular.
        O casamento entre Carol e Paulo aconteceu e o grande sonho de Carol começou a ser construído em um bairro da cidade de São Paulo, uma linda casa para avó Alice e após a casa estar totalmente construída e entregue a querida vó Alice a mesma disse:
- Olha Carol, muito obrigado pela linda casa construída, mas meu maior sonho mesmo é passar meus últimos dias ao seu lado em qualquer parte deste planeta, pois eu te amo muito!
Partiram para Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos e montaram uma enorme construtora de piscinas em Beverly Hills, hoje Carol deve ter seus quarenta anos e Paulo uns trinta e sete anos, apenas um filhinho chamado John e a linda e caridosa avó Alice seus oitenta e sete anos que todas as manhãs senta-se em frente da grande mansão em que moram e diz:
- Carol, onde está aquele livrinho que comprei pra você num sebo, para eu mostrar para o John?

Entre abraços e beijos são servidos pelos empregados da mansão enquanto aguardam os empregados da grande construtora chegarem para mais um dia de trabalho.

24 de nov. de 2013

MARIA DA CARIDADE

A minha vida andava muito tranquila, afinal eu tinha conseguido um emprego numa padaria como balconista e ganhava o suficiente para manter os meus gastos do cotidiano.
Entre eu atender um freguês e outro ainda existia inspiração para cantarolar alguma canção do querido cantor Roberto Carlos e a cada dia que passava o meu carisma foi esparramado pelos quatro cantos da pacata cidade do interior.
Naquela Sexta-feira entrei na padaria e entre um abraço e outro nas minhas colegas de serviço antes de começar a servir os primeiros fregueses fui chamada pelo dono da padaria para atender um telefonema.
- Alô, é a senhora Maria da Caridade? E eu respondi um pouco apreensiva.
- Sim, sou eu mesmo, em que posso ser útil?
- Olha dona Maria, aqui quem fala é o diretor do abrigo de menores e tenho uma proposta para a senhora em acolher algumas crianças adolescentes que a senhora tanto conhece.
Um pouco espantada eu disse:
- Olha moço, o senhor deve estar enganado, afinal eu não conheço nenhuma criança! E desliguei o telefone e fui lavar as louças que estavam sobre a pia da padaria e enquanto a água da torneira deslizava pelo ralo, o barulho de copos e pratos sendo colocados no escorredor fiquei pensando o que aquele senhor queria comigo e imediatamente fui convocada para atender um novo telefonema e para a minha surpresa do outro lado estava a mesma voz suplicando a minha presença no abrigo.
Desliguei o telefone e pedi para o dono da padaria para ir até o abrigo e assim caminhei até o mesmo e lá chegando fui recebido por uma senhora muito simpática que levou-me até uma sala onde estava o diretor do abrigo.
- Olá dona Maria da Caridade, pode sentar que tenho uma proposta maravilhosa para a senhora.
Um lindo quadro da Santa Ceia estava na parede e enquanto o diretor do abrigo falava dos menores eu ficava imaginando ao lado de todas crianças desamparadas do Mundo e foi quando o diretor pediu para a bondosa senhora do abrigo para ir buscar as duas crianças para eu vê-las e passados alguns minutos dois adolescentes entraram e ficaram na minha frente com as cabecinhas abaixadas e um olhar de abandono.
Levantei-me e fui até os adolescentes e dei um demorado abraço repleto de carinho nos dois e deixei rolar algumas lágrimas pelo meu rosto e aceitei a adoção não só dos dois e disse laconicamente que aceitaria adotá-los se pudesse adotar também os irmãozinhos dos mesmos.
O diretor cofiou a longa barba, abriu alguns papéis e ficou de dar a resposta no dia posterior.
Cheguei na padaria e recomecei o meu trabalho de balconista e enquanto eu estava atendendo um freguês o telefone tocou novamente e eu fui atender e escutei a mesma voz do diretor do abrigo:
- Dona Maria da Caridade, aqui quem fala é o diretor do abrigo e a decisão já está tomada, pode passar aqui no abrigo e levar todas as crianças solicitadas para a sua residência enquanto a senhora aguarda o processo de adoção. Felicidades e muito obrigado por este nobre gesto de caridade.
No dia seguinte lá fui eu até o abrigo no horário marcado pegar as crianças para conduzir até minha residência e dar todo o meu carinho para todos.
A alegria estava no rosto de todos e as crianças que no total eram oito estavam perfiladas e cada qual com uma malinha na mão e quando eu estava colocando todas as crianças numa Kombi para conduzir para minha casa o diretor aproximou-se de mim e disse:
- Dona Maria da Caridade, esta criança é a mais novinha, tem apenas quatro meses e necessita de muita atenção e depositou a pequenininha nos meus braços.
O motor da velha perua roncou, o motorista engatou a primeira marcha e alguns pingos de chuva começaram a cair e eu fiquei olhando para as crianças e deixei novamente meu rosto ser molhado por mais algumas lágrimas de felicidade e foi quando eu escutei:
- Obrigado mamãe! Deus abençoe a senhora!
Chegamos na minha casa e eu fiquei pensando como faria para abrigar tanta criança no exíguo espaço existente na minha propriedade, como faria naquele dia para abrigar a todos, onde dormiriam, como alimentá-las e foi quando escutei a campainha tocar e quando fui atender quase tive um enfarte.
Um enorme caminhão estava parado em frente à minha casa e alguns homens começaram a descarregar beliches, colchões, cobertores, mantimentos e após tudo ser colocado no devido lugar ouvi um Muito Obrigado do motorista do caminhão e ainda recebi um enorme abraço do diretor do abrigo que deixou um número de telefone disponibilizando vinte e quatro horas por dia para qualquer necessidade.
Pedi para minha filha ficar com todas as crianças e entrei silenciosamente no meu quarto, ajoelhei-me diante de Nossa Senhora da Aparecida e fiz uma oração para que me desse muita força, saúde e perseverança em criar aquelas lindas crianças até tornarem-se adultas e pudessem seguir o próprio caminho.

Acabei saindo da padaria para cuidar das crianças em tempo integral e a partir daquele dia a minha vida se transformou em uma alegria inefável e hoje quando estou sozinha fico pensando naquele dia em que fui abraçada por aquelas mãozinhas  e não resisto e deixo rolar algumas lágrimas de Felicidade e fecho os meus olhos e digo tartamudeando: Obrigado Senhor por dar-me tanta força e alegria ao lado dos meus anjinhos!

19 de out. de 2013

MAPPIN

     


     E assim que desembarcou na antiga rodoviária da estação da Luz, dentro do ônibus observou uma grande movimentação de pessoas que passavam rapidamente com enormes malas pra lá e pra cá.
        O motorista abriu o grande compartimento que ficava na parte debaixo do ônibus, colocou as enormes malas do Senhor João no chão, conferiu o bilhete e fechou rispidamente o enorme “maleiro” e disse:
- Felicidades e muito sucesso nesta grande metrópole!
O senhor João, sua esposa Maria e os seis filhos pequenos pegaram as enormes malas e saíram silenciosamente pelas ruas da redondeza da rodoviária sem destino, entraram num pequeno boteco e pediram alguns pastéis e duas tubaínas e lá ficaram a degustar os pastéis e olhando toda aquela movimentação da rua com muito receio da grande metrópole chamada São Paulo.
        Após saciarem a enorme fome de todos, saíram silenciosamente olhando para o chão enquanto as crianças admiravam com muita alegria e ansiedade tudo e todos.
        Embarcaram em um ônibus lotadíssimo com destino a zona Leste de São Paulo onde poderiam rever um compadre que tinha vindo para a cidade há muitos anos e prontificou-se a recebe-los até que arranjassem um pequeno cômodo por lá mesmo, um emprego e a vida pudesse ganhar o seu rumo na grande cidade.
        Durante o café da manhã o compadre disse ao senhor João:
- Olha compadre, vocês podem ficar aqui na nossa humilde casa morando conosco até “aprumarem” e depois que conseguirem um pequeno cômodo por aqui mesmo. Tenho um pequeno serviço para o senhor!
O senhor João olhou para o compadre e foi logo perguntando:
- Mas que tipo de serviço eu poderia fazer se só sei capinar roçado, cuidar de gado e cortar lenha?
O compadre foi logo explicando que conhecia um senhor que trabalhava numa agência de publicidade e sempre estava precisando de pessoas para carregar algumas placas com propagandas pelo centro de São Paulo.
O senhor João um pouco receoso perguntou:
- Mas, Compadre, será que eu sirvo pra este tipo de serviço? Afinal nem ler e escrever eu sei!
- Ora compadre, é só carregar a placa pra lá e pra cá e ficar orientando o pessoal para ir até a loja, muito fácil o serviço e nem é necessário ser “letrado”.
        No outro dia lá estavam os compadres descendo do ônibus no centro da capital paulista e entrando numa agencia de publicidade e o senhor João foi apresentado para um obeso senhor que fez algumas perguntas para o senhor João e alguns minutos depois lá estava o Senhor João em frente a uma grande loja de departamentos chamada Mappin.
        Após algumas orientações do senhor obeso o senhor João foi “abandonado” em frente ao Mappin com uma enorme placa que cobria todo o seu esquelético corpo e seguiu entrando pela rua Sete de Abril com destino a Praça da República.
        O senhor João muito apreensivo andava pela praça toda e sempre o seu olhar parava naquela enorme loja de departamentos chamada Mappin e então ele ficava imaginando o que poderia ser encontrado naquela linda e majestosa loja com um enorme relógio, muitas letras que ele não conseguia identificar por não saber ler.
        Pessoas passavam apressadas e a maioria nem parava para observar a insignificante presença do senhor João e no finalzinho da tarde quando uma enorme chuva fez todos encostarem embaixo de enormes toldos o senhor João coçou a enorme barba e ficou com muita vontade de entrar naquela linda loja.
        O senhor obeso apareceu e depositou uma quantia em dinheiro na mãos do senhor João desejou uma boa noite e pediu que na manhã seguinte apresentasse no mesmo lugar em que estivera naquela manhã e saiu apressado pelo viaduto do Chá.
        O senhor João parou em frente a grande loja e decidiu entrar e vagarosamente atravessou o andar térreo repleta de pessoas olhando tudo e ficou a imaginar na grandiosidade daquela cidade e foi andando entre alguns esbarrões parou diante de uma enorme vitrine que vendia brinquedos e humildemente perguntou quanto custava aquela pequena bonequinha com um lacinho na cabeça, a vendedora muito atenciosa disse o preço, o senhor João enfiou a mão no bolso da carcomida calça e retirou a quantia exata para adquirir aquela linda bonequinha para levar para sua filhinha caçula.
        Chegou em casa após duas horas dentro do sufocante ônibus, entrou sorrateiramente e depositou a bonequinha ao lado da filhinha que já estava dormindo, tomou um banho e foi dormir ao lado da esposa e ainda teve tempo de dizer sobre o presentinho que tinha comprado na grande loja chamada Mappin.

        Adormeceu muito feliz com a imagem da grande loja de departamentos na cabeça e o rostinho de felicidade da filhinha no dia posterior quando iria ganhar a linda bonequinha comprada no Mappin.