24 de fev. de 2012

O PODER DAS PALAVRAS


          Entrei na lanchonete e sentei-me num enorme balcão repleto de lindas meninas pré-universitárias. Levantei a mão e imediatamente o atendente veio ver o que eu queria e eu disse:
- Quero um lanche de pernil, uma cerveja bem gelada e se sobrar algum tempinho pede para aquela linda morena vir falar comigo!
O atendente riu e saiu apressado para preparar o meu pedido e eu fiquei esperando pacientemente com os olhos vidrados naquela linda menina toda vestida de branco, cabelos longos e pretos, um corpo escultural e uns olhos verdes maravilhosos.
O atendente chegou com meu pedido e eu imediatamente disse a ele que o pedido estava incompleto e ele sorriu e saiu sem dizer nada.
          Todos os dias eu passava naquela lanchonete e sempre encontrava a linda garota dos olhos verdes que já tinha notado meu interesse por ela através dos meus olhares diretos e freqüentes piscadas. Às vezes ela esboçava algum sorriso e virava o rosto sempre passando as mãos pelos lindos cabelos. 
         Numa sexta-feira a lanchonete estava repleta de lindas garotas e lá estava minha musa sentada no mesmo banquinho de sempre e resolvi arriscar todo o meu insignificante poder de persuasão e além da cerveja pedi ao atendente uma boa dose de conhaque para animar meus ânimos e criar coragem suficiente para abordar aquela oitava maravilha do Mundo. Após ingerir a dose de conhaque, levantei-me discretamente e dirigi-me calmamente até a linda garota e pedi gentilmente se podia conhecê-la e quando já estava esperando um surpreendente e fatídico “Não” ela disse “Sim”. Quase tive um enfarto e minha garganta secou e engasguei e consegui com muito esforço apresentar-me e dizer que estuda..... e ela imediatamente disse:
- Você faz Medicina?  Fiquei vermelho e perguntei a ela como tinha adivinhado e ela apontou uma linda jaqueta branca que eu estava usando e tinha emprestado do meu amigo Takeo que fazia Medicina na USP.
Rapidamente disse que sim e ela disse:
- Que legal eu também quero ser médica, estou estudando muito no cursinho para prestar o Vestibular para Santa Casa. Ela perguntou-me onde eu estava indo e eu disse que iria estudar na casa de um amigo da Faculdade, foi então que ela disse:
- Minhas aulas terminam às 23 horas, você não quer passar aqui no cursinho para a gente se conhecer melhor?
“Já tinha mentido sobre o que eu fazia e resolvi sustentar a “mentira” para conseguir namorar aquele “monumento” e pensava:” Caramba, a menina além de linda ainda é inteligente! Vou ficar milionário e nunca mais serei humilhado pelo meu colega Israel em falar que eu só conseguia namorar com garotas feias. 
          Cabulei as aulas do curso Colegial e fiquei sentado numa praça pensando profundamente o quê iria dizer aquela linda garota, fazia um verdadeiro teatro mental.
          Faltando alguns minutos para as 23 horas lá estava eu esperando a garota descer os degraus do cursinho e finalmente ela apareceu no topo da escada sorridente e enviando-me um beijinho entre as colegas que desciam discutindo os assuntos abordados na sala de aula.
          A garota chegou e abraçou minha cintura e deu-me um carinhoso beijinho no meu rosto e falou:
- Pronto, aqui estou, você poderia levar-me até minha casa?
A resposta demorou a sair e disse imediatamente que sim e seguimos pelas escuras ruas do bairro trocando informações pessoais, até o momento que ela começou a fazer várias perguntas sobre o curso de Medicina e eu não sabia responder e resolvi falar a verdade e disse:
- Olha querida, sou apenas um pobre garoto da periferia e estudante do curso colegial e esta jaqueta que estou vestindo é de um amigo que realmente faz Medicina na USP... mas....Esperei alguns segundos e já estava preparado para o tradicional pontapé no traseiro quando surpreendentemente ela disse:
- Sabe Luiz, adorei sua “cantada” e até que você saiu-se muito bem neste seu maravilhoso teatro da mentira, ainda bem que você redimiu-se e admitiu sua ignorância. E riu mostrando uns dentes alvos e brilhantes, mas mesmo assim gostaria de namorar você! 
          Com as mãos trêmulas e suadas e morrendo de vergonha abracei-a e dei um “saboroso” beijo nos seus lábios carnudos.
Despedimo-nos e prometi que na outra semana a gente se encontrava, pois assim que saísse da aula passaria no cursinho e levaria ela para casa.
          Os minutos, os dias foram passando-se e eu consegui apaixonar-me perdidamente pela linda garota até que num determinado dia ela pediu que fosse buscá-la mais cedo que tinha algo muito importante para falar comigo. Já estava preparado, daquele dia não passaria, iria acontecer o fim do nosso relacionamento e quando nos encontramos as palavras foram bem claras:
- Olha Luiz, você é um “cara” muito lindo, mas não há como continuarmos a namorar, pois existe um abismo cultural muito grande entre nós e fica a dica: Procure estudar e quem sabe daqui uns 10 ou 20 anos a gente consegue conversar algo em comum.
          Confesso que algumas lágrimas esboçaram em cair, os olhos marejaram e sai perambulando pelas ruas sem destino, com o coração despedaçado e muito humilhado e segui pra casa com um único objetivo: A partir daquele dia começaria a estudar muito e tornar-me-ia alguém muito inteligente ou no mínimo equiparar-se-ia aquela garota que mudou o destino da minha vida.
          Contei o acontecido ao meu pai e ele riu muito e disse que queria conhecer a garota, pois ela realmente estava falando a verdade. Nova humilhação e passados alguns meses vim morar em Jacareí com apenas um propósito na minha vida. Estudar, estudar e estudar. 
          Estes são os poderes das palavras que quando proferidas por alguém que a gente ama pode transformar nossas vidas.
          Obrigado linda garota por tão sinceras e transformadoras palavras que até hoje ecoam na minha mente. Vamos estudar!

VENDEDORES DE VASSOURAS

          E novamente encontrava-me sem vínculo empregatício e via-me obrigado a encarar os “bicos da vida” para poder dar algum dinheiro para minha irmã Sônia, visto que morava em sua residência e tinha uma vergonha danada em dormir, comer e não contribuir com absolutamente nada.
          Num determinado dia convidei meu querido sobrinho Evandro para irmos até uma fábrica de vassouras e comprar algumas vassouras e rodos e sairmos pelas ruas vendendo de casa em casa.
          Imediatamente ele aceitou e lá fomos nós até a fábrica fazer a aquisição das tais vassouras que seriam vendidas no dia seguinte. Compramos uma dúzia de vassoura e uma dúzia de rodo, cada um de nós pagamos a metade do valor e combinamos que enquanto não vendêssemos todas as vassouras e rodos não voltaríamos para casa.
          No dia seguinte, bem pela manhã separamos as vassouras e os rodos e saímos batendo de porta em porta oferecendo nossos produtos para a população da Vila Maria Alta, zona norte de São Paulo.
          Inicialmente nossas vendas não estavam sendo aceitas, pois era um sábado chuvoso, aquele sábado que todos adoram dormir até um pouco  mais tarde e quando batíamos palmas ou tocávamos a campainha de alguma casa, alguns diziam palavras impróprias e de baixo calão. Mas não desistimos e continuamos oferecendo nossos higiênicos produtos e lá pelas dez horas da manhã uma moradora do bairro aceitou comprar a primeira vassoura, vendida pelo meu sobrinho Evandro.
          Meus ombros já estavam doendo muito e sentia uma vontade enorme de jogar todas aquelas vassouras e rodos no lixo e voltar para casa, mas não podia fazer nada daquilo que meu pensamento queria, pois metade do dinheiro da aquisição pertencia ao meu sobrinho.
          Sobe rua, desce rua, aperta campainha, ninguém atende e às vezes, balbuciando praguejávamos alguns moradores que nem sequer abria a porta para falar: Não obrigado, não quero!
          O relógio apontava duas horas da tarde, algumas vassouras e rodos já tinham sido vendidos e a fome aumentava, foi quando decidimos entrar num boteco para comer um lanche.  Colocamos humildemente as vassouras e os rodos em pé perto da porta do boteco e entramos para lanchar. Pedimos alguns salgadinhos, o Evandro pediu um refrigerante e eu solicitei uma cerveja bem gelada e o proprietário atendeu-nos prontamente. Conversa vai, conversa vem, oferecemos nossas vassouras para o dono do boteco que acabou ficando com uma e descontamos no pagamento da nossa conta.
          Vila Maria tornou-se pequena para nosso negócio e partimos para Vila Medeiros e os ombros latejavam de tanta dor, fomos e voltamos e conseguimos vender apenas três dos nossos produtos.
          Num determinado instante o Evandro parou perto de um Posto de gasolina, na Estrada da Conceição e anunciou que precisava retornar pra casa, pois tinha que ir viajar com sua tia e precisava da metade do lucro dos produtos.
          Tentei explicar para ele que precisávamos vender tudo para poder dividir o lucro e ele iradamente disse:
- Se o Senhor não der minha parte agora, irei denunciá-lo no Programa do Ratinho. Ri e disse calmamente a ele:
- Olha aqui garoto, não vou dar absolutamente nada pra você enquanto não vendermos todos os rodos e vassouras, ainda faltam seis unidades, e tá falado. Bóra andando que começou a garoar de novo!
          Os olhos do meu sobrinho marejaram, não sei se era de dor nas costas ou minhas ríspidas palavras que tinham ferido sua alma e então ele saiu na frente pisando duro e entrou num “cortiço” com as seis unidades dos nossos produtos. Fiquei aguardando o seu retorno e eis que o meu sobrinho subiu as escadas, sem nenhum produto e contando alegremente o dinheiro que tinha arrecadado com a venda.
          Dividimos o lucro das vendas e pedi explicações de como ele tinha vendido tão rapidamente os produtos e ele calmamente disse-me:
- Sabe tio, precisava viajar, então ofereci de porta em porta no cortiço e falava que o Senhor era muito bravo e se eu voltasse com alguma unidade quando chegasse em casa levava uma surra enorme.
          Sorri e agradeci meu sobrinho passei a mão na sua cabeça e algumas lágrimas brotaram nos meus olhos.  Ele partiu alegremente para sua viagem e eu fui beber algumas cervejas no bar, após dar uma parte do dinheiro ganho para minha irmã. Eta vidinha difícil! rsrsrsrsrs

23 de fev. de 2012

PASTELARIA DA PENHA


          Andava empinando minhas pipas sossegadamente num enorme terreno baldio perto de casa, chegava em casa todo suado, colocava a lata com a linha e as pipas “aparadas” num enorme prego e ia tomar um banho para em seguida jantar e ir para o Ginásio.
          Uma vida ociosa, pois estudava no período noturno e tinha o dia todo para desfrutar das delícias do “não fazer nada” e não fazia o mínimo esforço em recolocar-me no mercado de trabalho, ainda adolescente achava que trabalhar era para adultos e não para garotos como eu.
          Em um determinado dia cheguei em casa e mamãe deu-me a triste notícia:
- Luiz, você começa a trabalhar amanhã! E meu coração disparou e eu disse:
- Mas mamãe, não estou preparado psicologicamente, necessito de um tempo para digerir notícia tão ruim! Ela sorriu e perguntou:
- Sabe Luiz, gostaria de saber em qual Faculdade você graduou-se para ser tão vagabundo! Aquela colocação feriu meus brios e resolvi perguntar medrosamente onde era que ia trabalhar e perguntei tartamudeando onde seria o local da tortura e ela disse secamente:
- Você irá trabalhar numa Pastelaria na Penha, o Senhor Machado conseguiu este nobre serviço de balconista pra você.
          Não sabia se ria ou chorava, optei em calar-me e aceitar humildemente o novo emprego conseguido pelo nosso vizinho motorista de ônibus, o Senhor Machado, embora naquele exato momento odiei o Senhor Machado com todas as forças do meu coração.
          No dia posterior ao anúncio do emprego, levantei-me bem cedinho e fiquei esperando o Senhor Machado passar com o ônibus que ele dirigia, pois o mesmo iria apresentar-me ao meu futuro patrão.
          A Pastelaria ficava no ponto final da linha de ônibus ao qual o Senhor machado dirigia e lá chegando entramos na Pastelaria e eu um tanto amedrontado e muito desconfiado fui apresentado ao proprietário que não era muito de conversas, ele estendeu a mãos educadamente e pediu para entrar na Pastelaria, ou seja, do lado de dentro do balcão. Eu Olhava tudo e aos poucos ele foi passando qual seria minha nova atividade e em seguida, após uma breve apresentação da Pastelaria pediu que eu o acompanhasse até um escuro quartinho onde estava umas quinhentas canas para serem descascadas e logo em seguida iriam ser moídas para fazer a tal da garapa, o caldo de cana.
          Depositou um enorme facão na minha mão e pediu para eu começar a descascar, raspar a casca das canas e saiu. Peguei o facão e novamente odiei o Senhor Machado, fiquei alguns minutos observando o obscuro e nojento quartinho e contra a minha vontade comecei lentamente a descascar as primeiras canas. Era um serviço muito simples, consistia em colocar a cana em pé e raspá-la até não enxergar nenhuma casca e colocá-la em pé num outro monte que estava formando-se.
          Nenhum EPI (Equipamento de Proteção Individual) foi fornecido e quando eu já tinha descascado umas 50 canas algumas bolhas já se faziam presente nas minhas frágeis mãos, o suor descia pelo rosto e a camiseta já estava toda suada e nada do proprietário pedir para eu parar com toda aquela tortura, até que num determinado momento, imensamente irado, levantei-me do carcomido caixote de madeira e dirigi-me ao proprietário e apresentei meu pedido de demissão e ele surpreso aceitou e pediu para eu ir embora, pois achava que eu não gostava muito de trabalhar.
- Mas eu quero receber pelas horas trabalhadas! Respondi e ele com um sorriso de piedade disse:
- Mas você não trabalhou quase nada, não recebe. Mostrei minhas mãos cheias de bolhas e insisti que eu deveria receber pelo menos alguns “trocados”. Não teve acordo e ele pediu para eu sair da Pastelaria e ir embora.
          Calmamente, sai de trás do balcão e disse que estava com fome e queria comer alguns pastéis com caldo de cana e fui prontamente atendido. Enquanto comia os pastéis ficava observando os ônibus que encostavam na frente da Pastelaria e após comer todos os pastéis e beber todo o caldo de cana, vi que um motorista tinha entrado no ônibus e o mesmo tinha ligado o motor do mesmo, saí numa tremenda disparada e entrei correndo para o interior do coletivo que imediatamente partiu e o dono das canas correu para receber os pasteis e o caldo de cana, aos gritos de paga, paga. Coloquei o rosto para fora do ônibus e disse sorrindo e fazendo uma careta para ele: Na outra encarnação eu te pago! Um abraço amigo! E mostrava as minhas mãos toda cheia de calos. Até hoje não sei se ele recebeu posteriormente do Senhor Machado, só sei que até hoje quando entro numa pastelaria e vejo alguém servindo caldo de cana, minhas mãos começam a doer e lembro-me carinhosamente desta passagem maravilhosa da minha vida. Caldo de Cana? Sim. Descascar canas? Jamais!
        Atualmente o interessante é que minha netinha adora caldo de cana, e vira e mexe estamos no Mercadão Municipal da cidade bebendo alguns caldos de cana e sempre minha mente volta a este acontecimento e quando escuto o barulho da máquina de moer cana esboço um sorriso e lembro desta passagem sofrida da minha vida, porém muito engraçada.

SENHOR VICENTE - (O GARÇOM)

          Quem teve o Sr. Vicente como garçom, não precisa de mais nada nesta vida! O Sr. Vicente quando nasceu já estava predestinado a servir a todos os clientes que aparecessem na Rua 24 de Maio, no Centro de São Paulo.
          O bar foi apresentado por minha irmã Selma e como eu adorava fazer um happy-hour nos finais da tarde, adorava beber alguns chopes e desfazer as complicações do cotidiano, aceitei em conhecer o tal do bar do Sr.Vicente.
          Cheguei um pouco desconfiado, afinal o bar estava instalado numa galeria, minúsculo, sem opções de ver a rua, a Avenida Paulista, o que aquele bar poderia oferecer a um bom bebedor de chopes?
           Fui apresentado ao Sr.Vicente e imediatamente ele curvou-se elegantemente diante da minha insignificante pessoa, apertou minha mão e disse:
- Estamos aqui para servi-los, fique a vontade, a casa é toda sua!
            A cordialidade do Sr.Vicente encantou meu coração, era um senhor já idoso, lá pela casa dos 60 anos, carregava sempre um sorriso estampado no rosto e nunca ficava parado, sempre estava carregando uma bandeja lotadíssima de chopes, porções para nos servir.
             Confesso que eu era um pouco “chato” e fazia questão de ser sempre o último freguês a sair do bar do Senhor Vicente, sempre tendo que arregaçar as calças, pois a casa já estava fechando, e ele jamais reclamava, apenas pedia gentilmente para que eu erguesse os pés, pois iria começar a lavar a casa e dizia que sempre havia tempo para beber mais um chope.
             A sexta-feira era o tradicional dia em que conseguíamos reunir a maioria do pessoal e chegávamos sempre alegres e imediatamente o Sr.Vicente reunia várias mesas na parte inferior do bar (subsolo) sempre conversando conosco, perguntando de fulano, cicrano e até da nossa família. Encantador aquele momento, as mesas eram colocadas uma ao lado da outra e geralmente ajudávamos para podermos iniciar nossos primeiros goles e degustarmos nossas primeiras porções.
               Eu trabalhava na Barra Funda, pegava o metro e descia na Estação República, caminhava pela Rua 24 de Maio e lá estava eu na frente do Bar do Sr.Vicente que eu considerava um verdadeiro Oasis no meio daquele transito infernal, barulho de buzinas, afinal estávamos vivendo na Metrópole onde tudo era possível.
               Existiu uma época que todos os dias à tarde nós encontrávamos para bebermos nossos chopes e conversarmos sobre o cotidiano e nossa turma era composta por pessoas muito legais: A minha querida irmã Selma, O Jair, Cilene, Sérgio, eu e alguns conhecidos que apareciam esporadicamente como convidados para juntar-se a nós e poder passar alguns momentos de plena felicidade.
               Uma bela recordação que tenho até hoje é que quando ficávamos até o inicio da madrugada, isto geralmente acontecia na sexta-feira o senhor Vicente fazia questão em acompanhar-nos até o ponto de ônibus que ficava na Praça do Correio e dizia que aquele gesto visava proteger-nos dos possíveis assaltos que acontecia na região. Já tinha freqüentado várias outras casas noturnas, bares, mas nunca tinha visto nada igual: O garçom acompanhar o freguês até o seu destino. Lindo, maravilhoso!  E assim o Sr.Vicente ia conquistando nossos corações e os nossos paladares e quando tínhamos que nos reunir para um happy-hour logo alguém da turma dizia: Bar do Sr.Vicente! Pronto lá estávamos nós sempre alegre e feliz ao lado do melhor garçom do Mundo: Senhor Vicente.
          Obrigado Senhor Vicente por momentos de tanta Felicidade e por ter participado em vários momentos da nossa existência sempre alegre e uma cordialidade incomparável.

22 de fev. de 2012

CHOPES NO RIO DE JANEIRO

Em 1.990 trabalhava numa indústria de informática em São Paulo, desempenhado o cargo de Técnico em Controle de Qualidade e constantemente viajava para vários lugares do Estado de São Paulo e às vezes para o Rio de Janeiro.
          Morava na casa da minha mãe na Vila Maria Alta, bairro da zona norte da cidade de São Paulo e tinha alguns hábitos maravilhosos  que era ler jornais todos os dias, beber chopes no bar do Sr.Vicente, na Rua 24 de Maio, no centro de São Paulo.
          Num determinado sábado, levantei-me bem cedo e fui comprar o jornal da Tarde, o jornal que eu lia diariamente e alguns pães na padaria perto do escadão e vim dando uma “espiada”no jornal enquanto retornava para a casa da minha mãe. Chegando em casa, depositei os pães sobre a mesa e sentei-me numa pequena poltrona e comecei a folhear o jornal despreocupadamente, até que uma página chamou-me atenção: A foto de uma chopperia na Avenida  Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. A matéria era excelente, feito por um jornalista que devia “amar” beber chop, dava detalhes do armazenamento do chop, data da fundação da choperia, quantidade de pessoas que a casa suportava, fotos da choperia entre outros detalhes que todo amante da degustação de chop espera.
            Fiquei lendo a matéria e a boca foi enchendo de água, melhor se fosse de chop e assim ao terminar de ler a maravilhosa reportagem decidi que iria experimentar aquele divino chop naquele dia.
            Consultei meu saldo bancário e vi que era suficiente para ir até o Rio, beber vários chopes e voltar naquele mesmo dia. Esperei mamãe acordar e disse a ela que iria até o Rio, ela sorriu e disse-me que talvez fosse mais econômico e rápido beber alguns por aqui mesmo, ou seja em São Paulo.
           Estava decidido a comprovar a veracidade da reportagem e da credibilidade do Jornal, além da minha voraz sede, pois era um amante contumaz de chopes e adorava viajar de avião.
            Liguei para um taxi e embarquei com destino ao Aeroporto de Congonhas pegar uma Ponte aérea com destino ao Rio de Janeiro para degustar o melhor chop do Rio de Janeiro, segundo a reportagem.
            Vôo rápido, desci no Aeroporto Santos Dumont e mostrei a reportagem para um motorista de taxi dizendo que precisava chegar o mais rápido aquela choperia e ele brincando disse: Pelo visto você deve gostar muito de chop, para vir de São Paulo até o Rio somente para beber alguns chopes! Sorri prazerosamente e em alguns minutos estávamos na frente da choperia. Paguei o motorista de taxi e entrei como um rei na choperia.
          Sentei-me numa confortavelmente numa cadeira e imediatamente fui atendido por um atencioso garçom que me mostrou um cardápio variado. Estendi o jornal e disse que vinha de São Paulo por causa da reportagem e estava decidido a beber vários chopes, ele sorriu e disse que eu estava na casa certa e realmente era o melhor chop do Rio de Janeiro.
          Após várias canecas ingeridas, pedi uma porção de camarão e assim fiquei eterno minutos certificando da veracidade da reportagem, até que deu “meio segundo”, levantei-me apressadamente como todo bom Paulistano, paguei a conta, agradeci a todos e fiz o percurso de volta a São Paulo.
          Cheguei com a alma lavada, o gostinho de chop na boca, o ronco do avião na cabeça e Feliz muito Feliz em poder degustar um delicioso chop na cidade Maravilhosa.
          Dinheiro foi feito pra isto, momentos de prazeres, não interessando a distância e sim a vontade do momento. Agora? Sou pobre e tomo algumas cervejas nos botecos da vida.rsrsrsrs

GALINHAS

      Hoje é muito fácil comprar galinhas e mais fácil ainda prepará-las, é só chegar ao Supermercado apontar as “penosas”, pesar e pronto. Algumas galinhas já vêm cortadas e temperadas o que facilita enormemente a vida de qualquer dona de casa.
                    Existiu uma época, isto lá pelos anos 60 que tal facilidade não existia, então a maioria das famílias, principalmente aquelas de origem do interior, compravam as galinhas vivas para serem abatidas em casa.
                   Eu com meus sete anos de idade ficava horrorizado com tal atrocidade diante das queridas penosas indo para um enorme tacho com água escaldante para serem depenadas e decepadas diante de tanta crueldade e ficava imaginando: “Como pôde! mamãe é tão boazinha conosco e faz isto com as pobres galinhas” Mas quando as mesmas chegavam ao meu prato, abandonava toda a minha piedade e compreendia perfeitamente o tal sacrifício.
                    Minha mamãe Thereza e meu papai José sempre compravam as galinhas vivas para serem preparadas nos finais de semana e meu sofrimento antecipado começava quando papai pedia para mamãe comprar as galinhas numa granja perto da nossa residência.
                    No dia 23 de dezembro de 1.962, papai pediu para mamãe ir até a granja e comprar três galinhas bem gordas. Mamãe resolveu levar-me até a granja e saímos de casa sob uma tênue garoa característica da época e chegamos à granja onde mamãe escolheu cautelosamente três enormes galinhas e pediu para pesar. Era muito engraçado ver as galinhas querendo fugir do prato, esperneando e gritando e eu torcendo para as mesmas voarem e saírem da granja, mas sempre acabavam sendo dominadas pelas mãos hábeis do granjeiro que pesava, amarrava uma cordinha nos pés das mesmas e dava para mamãe.
                    Tinha um plano maravilhoso para dar liberdade para as queridas galinhas e pedi quase que suplicando se podia levar as mesmas puxando pela cordinha e mamãe foi lacônica diante de um sonoro não. Insisti e ela concordou em me deixar levar apenas uma galinha o que já amenizou meu coração. Iria soltar a cordinha na primeira esquina e deixar a mesma fugir.
                    Era muito engraçado, eu puxando a cordinha, a galinha não obedecendo meus comandos e mamãe sorrindo e pedindo que eu fosse atrás da galinha e espantasse, mas não poderia soltar a cordinha, senão a mesma iria para a rua. Tentei, tentei e a galinha empacou, aí espantei a galinha e soltei a cordinha e a mesma foi para o meio da rua onde um carro atropelou e matou a galinha.
                  Fiquei muito espantado com o fim trágico dos meus planos e comecei a chorar e mamãe calmamente passou a mão na minha cabeça, sorriu e seguimos para casa e eu entre muitos soluços encoberto de tanta culpa pela morte da galinha.
                  Chegamos em casa e mamãe soltou as duas galinhas num cercadinho num pequeno quintal de terra onde não existia muro e ficava no alto, pois morávamos num sobrado que fazia divisa com uma enorme casa em construção.
                  As galinhas até pareciam felizes, pois ciscavam pra cá e pra lá, e eu observando atentamente e fazendo planos mirabolantes para libertar aquelas duas infelizes “penosas” que em breve iriam para o tacho fervente.
                  A idéia era a seguinte: iria pedir pra mamãe para dar milho pras galinhas e iria espantá-las, assim evitaria o sofrimento cruel das galinhas. Cheguei com um ar de súplica para mamãe e pedi se podia dar alguns milhos para as galinhas e a resposta foi um prudente “Não”, insisti choramingando e ela disse:
- Não Luiz! Está chovendo e você pode cair! Insisti, quase que ajoelhando aos pés de mamãe.
- Mas mamãe....deixa-me dar apenas alguns “milhinhos” eu tomo muito cuidado!
- Não e pronto! Falou mamãe um tanto contrariada.
                   Fiquei alguns minutos com um punhado de grãos de milho na mão e resolvi contrariar mamãe e entrei sorrateiramente no cercadinho para “alimentar” (soltar) as galinhas. Repentinamente escorreguei na terra molhada e fui parar lá embaixo sobre um monte de areia. Fiquei alguns minutos gemendo e gritando por socorro. Quando mamãe ouviu-me, desceu as escadas correndo e chegou assustadíssima. Subi as escadas gemendo de dor, com várias escoriações e um braço quebrado. Seguimos para o hospital onde radiografaram meu braço, fizeram vários curativos e enquanto os enfermeiros engessavam o meu braço imitavam uma galinha, sempre sorrindo.
                    Mãe tem sempre razão, portando jamais contrarie sua mamãe, nem que for por apenas algumas galinhas! (rsrsrsrsrsrs)

21 de fev. de 2012

CARNAVAL EM 1.970


     Em 1.970 o desfile das escolas de samba acontecia na Av. São João, no centro da cidade de São Paulo e grandes escolas de São Paulo por lá apresentavam seus componentes em maravilhosas evoluções.
      O único canal de TV que falava algo sobre o desfile era a TV Cultura e algumas emissoras de rádios, e nós assistíamos com muita curiosidade na nossa TV Videobel em preto e branco.      Existia uma brincadeira que nós adorávamos que consistia em jogar água nas pessoas através de multicoloridas bisnagas de plástico e nem sempre era compreendida por alguns adultos e lembro-me de surras memoráveis que mamãe aplicava com suas temidas varas de marmelo porque algum vizinho não adepto da brincadeira vinha reclamar que estava todo molhado e eu tinha sido o autor da brincadeira. Apanhava e voltava a espirrar água nos vizinhos e corria gargalhando, afinal era Carnaval e valia tudo, até duas ou três surras no mesmo dia.      Após o desfile das escolas de samba o resultado era anunciado sempre sobre grandes protestos das escolas rivais e os Jornais estampavam a Escola Campeã sempre dando grande destaque aos minúsculos trajes de belas passistas.      Nós garotos da época adorávamos as fotos e ficávamos vários minutos em frente da banca de jornal do nosso bairro apreciando os jornais a beleza que era o Carnaval e imaginando: Que Maravilha que é este nosso País! Quantas mulheres lindas e seminuas, até que o jornaleiro acabava com nossa curiosidade, recolhendo o jornal e pedindo gentilmente para irmos embora.      No sábado posterior ao Carnaval nós moradores da zona leste da cidade de São Paulo ganhávamos um maravilhoso presente que era um desfile da escola de samba Nenê de Vila Matilde pelas ruas do bairro da Vila Matilde somente para os moradores e curiosos.       Neste dia, Lalá que morava na Vila Esperança fazia questão de levar-nos, para assistir o desfile do muro da sua residência. Era lindo ver todos os muros das residências repletos de pessoas com confetes e serpentinas para arremessar nos integrantes da escola de samba.       Os primeiros tambores, tamborins, cuícas, reco-recos, eram ouvidos, era hora de ajeitar-se o mais confortavelmente em cima do muro e ficar olhando o final da rua onde a Comissão de frente já ensaiava os primeiros passos e lá vinha a fantástica e imponente Escola de Samba Nenê da Vila Matilde, que naquele ano tinha sido campeã do Carnaval Paulistano      O coração disparava e imediatamente colocava todos as serpentinas e confetes ao lado para arremessar nos componentes da escola.        Os olhares encantadores, os passos perfeitos do Mestre Sala e da Porta-Bandeira emocionava a todos e os primeiros confetes e serpentinas eram arremessados e sempre eram agradecidos com gestos dos integrantes de abaixar a cabeça e curvar o corpo para frente. Um bailar encantador, maravilhoso, sublime.        As alas iam apresentando-se com perfeita harmonia e víamos bem pertinho mulheres maravilhosas em minúsculos trajes e homens em cima de enormes carros alegóricos, Ala das baianas e nossa alma ia enchendo-se de Felicidade. Muitos gritos eram ouvidos e saudações e palmas misturavam-se com o maravilhoso som da bateria da Nenê.         O Senhor Nenê, que era presidente da escola fazia questão de colocar todos os componentes da escola de samba pelas ruas estreitas da Vila Matilde e vinha sempre na frente agradecendo a todos a nossa presença com gestos, curvando o corpo para frente e tirando o chapéu em agradecimento. Gesto maravilhoso e inesquecível.         A apresentação da passagem da Escola de Samba pela rua da casa do Lalá, na Vila Matilde foi o que guardei e ainda guardo com tanto carinho de todos os Carnavais já vividos ao longo dos meus 56 anos de idade. Viva o Carnaval! Salve todas as Escolas de Samba! Em especial a Nenê da Vila Matilde. Obrigado a todos por proporcionar grandes momentos na minha vida! Muito lindo! Belas recordações do carnavais Paulistano de outrora.