14 de jun. de 2011

As "peladas"do Pátio do Colégio

       Em 1.971 trabalhava como office-boy numa companhia de seguros na Praça Padre Manoel da Nóbrega, perto da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Na hora do almoço, após saborear a excelente refeição preparada com muito esmero por Dona Maria, que era a cozinheira da Cia. onde eu trabalhava, nós office-boys descíamos do vigésimo primeiro andar para dar umas voltas e apreciar o que existia de melhor  naquela época: " A beleza da mulher paulistana".
       Ficávamos sentados num banco existente no pátio do Colégio apreciando todas as meninas que passavam apressadas, vindo não sei de onde e indo para um lugar ignorado por nós, talvez algum banco, loja. Num determinado dia o Artur levou uma bola de futebol carcomida e propôs fazermos uma "pelada" no Pátio do Colégio, inicialmente ficamos um tanto apreensivos, eu os colegas achávamos que poderíamos ser presos, mas aceitamos e dividimos-nos em dois grupos e começamos a dar os primeiros chutes na velha bola de futebol.
        Com o passar dos dias, a "pelada" foi chamando atenção de outros office-boys que passavam apressadamente pelo pátio e pediam para participar, nem que fosse só um pouquinho e todos eram aceitos, a única restrição que fazíamos era que tinha que ser office-boy. Após algumas semanas surrando a bola, sempre no horário do almoço, nossa "pelada" já era conhecida por alguns transeuntes e uma pequena e ruidosa torcida composta de camelôs, engraxates, mendigos e alguns vagabundos que perambulavam pela redondeza que paravam para observar aquele bando de moleques sem juízo correndo em pleno centro da maior cidade da América Latina.
         Dois garotos tiravam "par ou ímpar" e começavam a escolher os "craques" que iriam compor o time, geralmente os garotos com porte físico avantajado tinham a preferência e rapidamente eram os primeiros a serem escolhidos, ficando os "miudinhos" e raquíticos para serem escolhidos no final ou aceitavam o ingrato convite para ser gandula.
         O jogo de futebol era muito divertido, pois tudo era improvisado, desde as traves que poderia ser dois pedaços de pedras subtraídas da construção do metrô da Praça da Sé, que estava sendo construido ou uma maleta 007 de algum office-boy ou mesmo um saco de roupas sujas de qualquer mendigo torcedor.
         Inicialmente não existia juiz, mas com o passar dos dias e aumentando o número de jogadores, aceitamos a sugestão de alguns torcedores e resolvemos "escalar" um juiz. O mais difícil era convencer um garoto office-boy a aceitar ser juiz,. cargo tão decisivo e perigoso, visto que qualquer desentendimento era fácil observar o juiz levando alguns cascudos, pegar sua maleta 007 e sair xingando a todos e ir embora; outro dia voltava, mas não aceitava ser juiz de jeito algum.
         Em toda partida de futebol, escolhe-se o melhor jogador em campo, na nossa "pelada" os torcedores escolhiam o pior jogador do Pátio e era dificílimo a escolha, pois um era pior que o outro, éramos verdadeiros "pernas de pau", mas sempre existia o piorzinho de todos e não envergonho-me de ter sido escolhido algumas vezes, poucas vezes, mas.... Esse garoto que era escolhido " o pior" era zombado em plena rua aos gritos por outros office-boys e mesmo dentro de algum banco da Rua XV de Novembro, enquanto aguardava pacientemente na quilométrica fila podia ouvir-se " E aí pior!". Quando tinha sido escolhido, nem ligava, fazia de conta que não era comigo, mas que dava um "odiozinho" dava.
          Aconteceu uma partida inesquecível em que participaram quarenta e quatro office-boys, vinte e dois de cada lado, acho que todos os office-boys dos escritórios da redondeza estavam lá naquele dia, tinha mais jogadores que torcedores no Pátio,infelizmente neste dia a partida foi interrompida por policiais de trânsito, que vendo aquele bando de garotos atrás de uma bola resolveram parar para observar o que estava acontecendo. Paralisaram nossa partida de futebol e tentamos explicar que era apenas uma "pelada", que não estávamos prejudicando ninguém, a não ser algumas boladas que alguns transeuntes levavam, é claro, que a gente era trabalhador (office-boys), etc, etc. Não houve jeito, confiscaram nossa bola e pediram delicadamente para que voltássemos para nossos escritórios.
           Mas a gente não se  preocupava, pois no outro dia outro colega trazia outra bola e lá  estávamos nós correndo pra lá e pra cá novamente, mas sempre de olho nos policiais de trânsito.
            Estava chegando o final do ano e resolvemos promover um mini campeonato entre nós office-boys dos escritórios da região e decidimos que o mesmo seria realizado em pleno Pátio do Colégio e somente office-boys poderiam participar. Ficou estabelecido entre nós que o campeão ganharia um troféu, uma quantia em dinheiro e seria necessário os times ter camisetas próprias com o nome do escritório. Quando o campeonato começou era muito lindo ver a molecada abandonada dentro de lindas camisetas ostentando o nome do escritório, soubemos mais tarde que até alguns supervisores e gerentes de escritórios patrocimaram algumas camisetas, mas pediam para não serem identificados, pois poderiam ser demitidos pela ilegalidade do campeonato e pelo local ser um espaço público. 
            Faltando alguns dias para o dia do Natal já estava definido os dois times finalistas,os jogos aconteceram em duas semanas, após várias partidas acirradas, no estilo "perdeu, cai fora", o tradicional "mata-mata".  Os dois times finalistas eram o nosso e de um outro escritório pertencente a um banco da rua Boa Vista.
golaço, mandando a bola na Rua General Carneiro, quase acertando a cabeça de um camelô. No segundo tempo novamente o Artur nos presenteou com outro gol maravilhoso. Resultado final, ganhamos  a partida por 2x0. Éramos Campeão! Abraços misturavam-se com gritos de: É Campeão!
            Atravessamos a Rua XV de Novembro aos gritos de "É Campeão!" e fomos comemorar nossa vitória comendo sanduiches de linguiça calabresa com guraraná na Tua do Tesouro. 
             Lá estava nosso troféu em cima do balcão de vidro e a cada mordida em que eu dava no meu sanduiche, olhava para o troféu com um orgulho danado em ter sido Campeão. Campeão da "pelada" do Pátio do Colégio.

Circo na periferia da cidade de São Paulo

            O que poderia existir de mais belo que a chegada de um circo na periferia da cidade de  São Paulo na década de 70? Absolutamente nada era mais belo e emocionante para nós adolescentes moradores no querido bairro Cidade A.E.Carvalho, zona leste da cidade de São Paulo.
             Quando aquelas carretas enormes e multicoloridas passavam na Av.Campanelas e estacionavam em frente à Praça Ana das Dores, "a pracinha", nossos corações disparavam de alegria e os corações de nossas mães disparavam de aflição, pois sabiam que seria quase que impossível segurar seus filhos em casa.
             A molecada chegava sorrateiramente, perscrutando o local e os trabalhadores braçal com perguntas tolas, tais como: Como é o nome do circo? Quando irá estrear? Tem bichos? Qual é o nome do palhaço?
Os trabalhadores bem mal humorados e suando muito restringiam-se a dar respostas curtas, sempre tirando enormes tábuas dos caminhões, empurrando ferros, esticando lonas, sem parar e sem olhar para cara de ninguém. E nós continuávamos "xeretando" aqui e ali e lá estavam os artistas dentro de um enorme trailler lanchando tranquilamente e rindo alto, denunciando que estavam muito feliz. Os dias iam passando e o circo ia sendo montado, dia e noite de trabalho e após dois ou três dias o mesmo já estava montado. Lindo, majestoso, imponente! mudando toda a paisagem da pracinha.
              E eis que chega o grande dia da estreia e nota-se uma enorme placa com os dizeres: Grande estreia! Domingo às 15hs o circo Cigano convida você e sua família para assistir o maior espetáculo da Terra! Acontecia duas sessões, às 15hs e às 20hs e sempre íamos nas duas sessões, sendo que na segunda sempre levávamos nossas namoradinhas.
              Alguns alto-falantes eram esparramados pelo lado externo do circo e tocavam várias músicas orquestradas, Carlos Gonzaga com uma música chamada Diana e várias músicas de  Roberto Carlos. Entre pipoqueiros, vendedores de algodão doce esparramava-se nossa Felicidade.
               Segurando a mão da minha namoradinha comprava os ingressos e um enorme saco de pipocas e entrávamos vagarosamente, prestando atenção em tudo e em todos. Sentávamos na arquibancada feita de madeiras, bem lá no alto e ficávamos aguardando ansiosamente o inicio do espetáculo.
               Várias crianças corriam pra lá e pra cá e várias gargalhadas eram ouvidas dentro do camarim. Repentinamente a música cessava, abria-se as cortinas e entrava o apresentador trajando um "flaker" preto e com uma voz rouca anunciava-se o início do espetáculo, sempre agradecendo nossa presença.
               O apresentador saia do palco, anunciando dois palhaços que entravam dando piruetas e muito tapas, caiam e levantavam-se constantemente, levando o público ao delírio de tanto rir.
               Aplausos e mais aplausos misturavam-se com gargalhadas e alguns assobios. Nossos corações ficavam disparados quando as trapezistas começavam a subir uma escada feita de corda, o silêncio era total até que elas posicionavam-se lá no topo e começavam-se a balançar sem parar até que uma delas lançava-se no ar indo segurar a mão da outra. Sentia as mãos da minha namoradinha toda trêmula e suadas, encostávamos nossos corpos em sinal de apreensão e medo, batíamos palmas nervosamente e ficávamos aliviados quando tudo terminava. E novamente lá estavam os palhaços estapeando-se e risos e gargalhadas ecoavam ao longo do circo. O espetáculo não durava mais que duas horas, mas para nós parecia que eram apenas alguns minutos.Ficávamos muito tristes quando os artistas despediam-se curvando-se elegantemente para agradecer sob muitos aplausos e assobios.
                Fechavam-se as cortinas e nossos corações ficavam pequenininhos, era hora de voltar para casa comentando as principais atrações e combinando voltar no próximo final de semana para assistir o maior espetáculo da Terra. O circo, o circo da Periferia
               

11 de jun. de 2011

Festa Junina.

     A missa de domingo terminava e o padre anunciava que iria começar os preparativos para a tradicional quermesse que acontecia no mês de Junho para homenagear os três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro. Nós garotos ficávamos muito feliz, pois enquanto o padre pensava em arrecadar alguns trocados para a paróquia, nós poderíamos participar da festa em toda sua plenitude e se desse sorte até conhecer novas garotas.
     Éramos os primeiros a dar o nome para participar como voluntários na arrumação das barracas de guloseimas. Tudo era uma grande diversão e aproveitávamos nosso encontro para colocar nossas pífias conversas em dia e mais falávamos do que trabalhávamos e constantemente levávamos "um pito" ( uma advertência) do padre que pedia mais empenho, mais seriedade com relação ao serviço, pois o mesmo lembrava-nos quanto ao prazo estipulado para o início da querrmesse.
      às vezes parávamos de executar um determinado tipo de serviço para conversar com alguma menina conhecida que passava em frente da igreja vindo da feira com a sacola cheia de frutas e verduras e novamente éramos presenteados com uma enérgica bronca do padre, sempre vigilante e presente, entre um beijinho no rosto da menina e um tchauzinho sempre de olho no rosto enfurecido do padre, voltávamos ao serviço, sempre sorridentes.
       No segundo final de semana do mês todas as barracas já estavam montadas e supervisionadas pelo padre que fazia questão de agradecer a todos e esquecendo nossas paqueras.
       O locutor oficial da quermesse era o meu amigo Israel que embora tivesse um gosto musical duvidoso e de muito mal gosto era muito querido e conhecido de todos. Nessa época eu trabalhava numa fábrica de cintos no bairro de Artur Alvim e cursava o primeiro ano do ginásio no Álvares de Azevedo em Itaquera, à noite.Todos os dias meu amigo Israel ia levar uma marmita no almoço que era preparada com muito esmero por mamãe. Dividia meu insignificante salário com o meu amigo Israel e mamãe e o que sobrava guardava para ir à quermesse nos finais de semana.
        No primeiro dia da quermesse eu fazia questão de ir com minha melhor roupa e nesse dia era um dia todo especial. Vestia minha calça boca de sino, que era o estilo da época, era uma calça azul escuro com listras brancas e cintura alta até o estômago, camisa de seda branca, mangas compridas, bem larga e que tinha custado quase um salário mensal. Lustrava os sapatos que tinha um salto enorme chamado de "carrapeta" e colocava um cinto fabricado por mim e tinha uma fivela enorme. Pronto, sentia-me um verdadeiro "toureiro", repartia os cabelos cumpridos ao meio, colocava um perfume comprado na lojinha da dona Matilde e saia erecto em direção a tão aguardada quermesse da igreja.
        Chegava na quermesse e era recebido com alguns assobios dos amigos Israel e Luisão, que eram irmãos, chamando-me de "lindo!, lindo!"Ficava envergonhado e meu rosto ficava mais vermelho do que já era, mas não importava-me e ia em direção a eles pedir para tocar uma música que eu gostava muito, chamada Rock rol lo lo by, cantada por B.J.Thomas, era sucesso na época e todos gostavam. Lá pelas oito da noite a quermesse já tinha pessoas suficiente para iniciar o tradicional bingo e sempre participávamos pagando um insignificante quantia em dinheiro e às vezes ganharmos alguns "bebelôs"de argila que eu trocava por bolinhos caipiras e quentões.Existia o "Correio Elegante" que era um bilhetinho que recebíamos de alguma paquerinha enaltecendo nosso trajar ou nossa obscura beleza de adolescente. Não só recebíamos como mandávamos também para as meninas mais belas da quermesse e nem sempre éramos correspondidos.Mas tudo era festa e nada do Mundo pagava o encanto daquele momento único e maravilhoso. E subitamente éramos interpelados por um grupo de meninas bonitas e falantes, agarrando-nos pelo braço e dizendo que estávamos presos. Lá estávamos dentro de uma cadeia feita de bambu que eu ajudara a construir e claro que  não apresentava resistência alguma diante de braços tão meigos e fazíamos questão de ficarmos presos e com um olhar de piedade pedir para as meninas libertar-nos que elas ganhariam um beijo. às vezes éramos atendidos, mas às vezes ficávamos vários minutos no cárcere,humilde e escutando a voz rouca do amigo Israel no alto-falante pedindo que alguém tivesse piedade e fosse soltar-nos. Aquilo doía na alma e assim que saia da prisão ia até o meu amigo pedir explicações e ele sorria largamente e oferecia-me outra música, dessa vez..Roberto Carlos. Anunciava os bolinhos caipiras, os quentões, a maçã do Amor, a barraca da linguiça e outras e convocavam-nos para assistir a apresentação da quadrilha que era composta de várias crianças do bairro, trajando como caipirinhas. Era divertidíssimo e muito engraçado.às 23 horas anunciava-se o final da quermesse e todos iam retirando-se  e nós ficávamos para ajudar as senhoras a recolher panelas, fogões e outros utensílios.Desligava-se o som, fechava-se as portas do salão paroquial e era hora e voltar para casa, transpirando muita felicidade e alegria e aguardar o próximo final de semana para participar da quermesse da Igreja da Cidade A.E.Carvalho.
        







   
  

10 de jun. de 2011

Bolo de Natal


Bolo de Natal

     Papai adorava ler Karl Marx e mamãe encantava-se com a leitura de Allan Kardec. Eu, aos oito anos de idade, sem entender absolutamente nada do conteúdo daqueles “estranhos” livros, relia minha cartilha escolar do curso primário, chamada Caminho Suave e alguns gibis do Zorro e do Fantasma que eram sutilmente  escondidos entre as páginas da cartilha para não serem vistos por mamãe e evitar uma boa surra de vara de marmelo.

    Na véspera do Natal de 1.963, papai saiu de casa, no pacato bairro Parada Inglesa-SP para participar de uma importante reunião no Sindicato de Brinquedos e Instrumentos Musicais, que ficava na Av.Celso Garcia, no Brás-Sp e prometeu a mamãe que voltaria para a confraternização natalina.

    No início da noite mamãe começou a fazer um bolo de morango e quando terminou, colocou o bolo cuidadosamente sobre a mesa e disse enfaticamente que só comeríamos o bolo quando papai chegasse.

    Desolado, sentei-me diante do bolo e com as mãos no queixo e os cotovelos sobre a mesa, comecei a sussurrar uma oração para Jesus pedindo o retorno de papai o mais breve possível.

    O repetitivo “tic-tac” do relógio cuco que ficava na cozinha e alguns estampidos de fogos que iluminavam o céu, anunciavam a proximidade do dia do nascimento de Jesus e deixava-me inquieto e entre uma olhada de soslaio para mamãe e outra para a porta da cozinha para ver se papai estava chegando, colocava o dedo indicador no bolo e levava-o rapidamente até a boca.

    Faltando alguns minutos para meia-noite, papai chegou com um embrulho embaixo do braço e eu iluminei toda a cozinha com um inefável sorriso de Felicidade. Iria comer o bolo!

    Papai deu-me o embrulho acompanhado de um carinhoso beijo na testa e quando eu o abri, meus olhos marejaram diante de uma linda bola de capotão número cinco com um delicioso cheiro de couro cru. Retribuí o presente com um forte abraço e vários beijos no seu rosto.

    Posicionamo-nos ao redor da mesa e demos as mãos e mamãe iniciou uma “interminável” prece agradecendo a tudo e a todos e quando terminou, abraçamo-nos desejando Feliz Natal.

     O bolo de morango com vários furinhos produzidos pelos meus ágeis dedinhos finalmente foi cortado e servido a todos.
     Adormeci num sofá velho, na varanda, todo lambuzado de bolo, abraçado a bola de capotão, escutando o suave “tic-tac” do relógio cuco e o barulho de alguns pingos de chuva que começara a cair... Era Natal!
  

Engraxate da periferia

Todos os dias era um sacrifício danado para conseguir comida para todos, afinal, éramos cinco irmãos e tínhamos uma fome de leão e papai ganhava apenas o suficiente para não passarmos fome. Eu tinha nove anos de idade e resolvi ajudar minha família no orçamento, subitamente tive uma idéia maravilhosa... Iria ser engraxate. Mas como? Não sabia nada sobre a nova atividade e não tinha dinheiro para comprar uma caixa de engraxar, resolvi pedir ajuda para o senhor Heitor, que era um velhinho ex-combatente de guerra que todas as crianças do bairro amavam. Procurei-o e contei-lhe o meu plano de ser engraxate. Ele riu muito e se propôs a me ajudar. Começamos imediatamente a construir minha ferramenta de trabalho, a caixa de engraxar. Após algumas horas, lá estava ela prontinha para ser usada.
Corri pra mostrar para papai e ele perguntou onde eu pretendia engraxar, eu disse que iria engraxar os sapatos de todos os trabalhadores da periferia e iria montar a mesma em frente de casa. Ele meneou a cabeça e sorriu, passou a mão na minha cabeça e pediu-me que fosse me deitar, pois ainda estava escuro e afinal não tinha escova nem graxa para iniciar o meu trabalho. Pedi-lhe alguns trocados e ele imediatamente deu-me algumas moedas para comprar graxa e escova. Rasguei uma calça velha da minha irmãzinha, escondido de mamãe, é claro, e, no outro dia, sob chuva, armei minha caixa de engraxar em frente de casa, fazia parte da instalação um guarda-chuva carcomido pelo tempo e uma velha cadeira.
Esperei o primeiro freguês e as horas foram passando. Eram trabalhadores que iam para seus trabalhos, apressados e com os sapatos cheios de barro, pois a rua em que morávamos não era asfaltada, ninguém parava, não respondiam ao meu bom-dia. Toda a manhã passou e mamãe chamou-me para ir à escola. Foi uma frustração total, mas esperaria outro dia... Foi a semana toda chovendo e eu armando e desarmando a caixa e ninguém parando para engraxar. Sábado amanheceu um dia maravilhoso e enchi-me de alegria e entusiasmo para engraxar meu primeiro para de sapatos. Nada... O Sol já estava se pondo e com ele toda a minha esperança, o coração foi ficando pequenininho, uma profunda tristeza invadiu minha alma... Estava derrotado, não consegui engraxar um único par de calçados. Entrei, coloquei minha caixa de engraxar ao lado do fogão e comecei a folhear um gibi, morrendo de vergonha de não conseguir engraxar absolutamente nada... Eis que batem palmas e minha mãe vai ao portão, um senhor perguntou sobre o menino engraxate e minha mãe chamou-me, e ele disse: Parabéns, garoto! Toda a semana montando e desmontando a caixa! Quantos sapatos você engraxou? Disse-lhe que não tinha engraxado nenhum. Abriu o porta-malas da Brasília e mostrou-me vinte e seis pares de sapatos para serem engraxados. Não me contive e deixei correr algumas lágrimas sobre o meu rosto, de felicidade, de alegria, de persistência. Até hoje me lembro com muita ternura dessa passagem da minha vida.

Pastéis de feira da periferia.

O verdadeiro pastel de feira é o pastel de feira da periferia. Para comer um pastel de feira da periferia existe todo um ritual: há a necessidade, quase que uma obrigação, de ir acompanhado da “patroa”, entenda-se como esposa, companheira, amante ou mesmo a namorada. Mas tem que ir acompanhado(a) para que o prazer da degustação seja a dois.
Pode-se comer o pastel de feira logo quando se chega à feira ou ao terminar as compras, geralmente sempre pechinchando em outras bancas que é pra comer sempre mais um.
Pede-se licença, estaciona-se o carrinho de feira próximo à banca, que dependendo da hora já deve estar lotada de carrinhos. Se der muita sorte pode sentar num dos banquinhos carcomidos, que são reservados para os velhinhos e velhinhas, mas depois do meio-dia a chances são bem remotas de encontrar algum vazio.
Dependendo da periferia, o pessoal está todo uniformizado e consta até o nome da banca. E lá no fundo está um homem com os olhos puxadinhos, denunciando que é oriundo do Oriente, sempre sorridente e jamais desgrudando da escumadeira, sempre apontando aqui e alí para anunciar um freguês mais faminto e/ou apressado.
Em todas as feiras da periferia existem uma ou mais bancas de caldo de cana, a gostosa garapa, que geralmente fica ao lado da banca de pastel. Acredito que deva existir até uma parceria entre as duas bancas, mas até agora ninguém provou isso, então deixamos pra lá e vamos pedir os pastéis.
Entre várias pessoas, ergue-se o dedo indicador e pede-se com um rosto aflito: Um pastel de carne e um de frango com catupiri! Geralmente enquanto o Oriental frita os pastéis pede-se a garapa, que invariavelmente o dono pergunta se quer com limão ao abacaxi. O barulho do motor é ensurdecedor, mas o caldo é delicioso.
Nas manhãs de sábado, na Vila Maria Alta ou nas manhãs de domingo em Itaquera dava vontade de pedir “garapa com engove”, tamanha a ressaca do porre da noite anterior.
Quando os pastéis estão fritos jamais esquecer de colocar aquele tradicional vinagrete que pela sua aparência denota um sabor indiscutível e uma fatia de limão acompanha muito bem se for de carne o pastel.
Pastéis comidos e garapas bebidas, pede-se para embrulhar mais alguns pra ir comendo enquanto a “patroa” prepara o almoço de sábado ou domingo, que geralmente são mais demorados. Pode-se também levar a massa do pastel pra fazer alguns para serem comidos com uma boa cerveja gelada à noite.
Saciado, cheio e feliz paga-se e despede-se prometendo voltar na semana seguinte. Novamente pede-se licença para tirar o carrinho de feira e retorna-se para casa empurrando ou puxando o carrinho abarrotado de frutas e hortaliças dependuradas por toda a parte e tomando o maior cuidado para não amassar a “massinha”. Então é só aguardar mais uma semana para comer os tão deliciosos pastéis de feira da periferia.

9 de jun. de 2011

Pipas no ar nas manhãs de sábados

Em 1970, éramos adolescentes e morávamos no bairro da Cidade A. E. Carvalho e o nosso passatempo favorito era confeccionar e empinar pipas nas manhãs de sábados.
Nosso encontro acontecia nas manhãs de sábados na área de entrada da casa do meu amigo Israel.
O ritual alegre era acompanhado pela garotada da periferia que tentava descobrir como fazer belas e multicoloridas pipas.
Tudo era feito com muita descontração e alegria, desde o preparo da cola feita com farinha de trigo que eu levava de casa e que exigia muito esmero para não sujar o belíssimo fogão da dona Ondina, mãe do meu colega Israel.
As folhas de papel de seda eram adquiridas na lojinha da dona Matilde, escolhidas cuidadosamente entre as diversas cores dispostas na prateleira.
Existia um momento que exigia grande concentração, era quando começávamos a “afinar” as varetas que eram retiradas do bambu do varal de roupas da dona Ondina. Nesse momento, até que adquirisse destreza com a afiadíssima faca dialogávamos sobre as novas namoradinhas, os estudos no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, que localizava-se em Itaquera e sobre o serviço como Office-boy numa Cia. de Seguros no centro de São Paulo.
O grande prazer completava-se por estar ao lado do amigo que não via há uma semana e poder detalhar o perfil da nova namorada que trocávamos assim como éramos trocados freqüentemente.
Às vezes éramos obrigados a abandonar nossa área de lazer momentaneamente, pois dona Ondina queria varrer a mesma, o que ocasionava um tempo de espera encostados no velho carro Ford semi-desmontado pelo Sr. Luis, pai do meu amigo, que era mecânico. Nesse momento passava o Zé Roque, irmão do meu amigo e parava na nossa frente com algumas peças de televisão na mão, pois o mesmo tinha uma oficina de conserto no quintal, e ficava zombando da nossa capacidade de confeccionar pipas. Gargalhadas espalhadas pelo ar entrecortadas pelos raios de Sol da bela manhã de sábado completava a nossa felicidade com a chegada do Lalá que com seu tradicional assobio chamando sua namorada que era a irmã do Israel. Saia toda perfumada, sorrindo e pisando cuidadosamente sobre os pipas para não amassá-las. Abraçavam-se carinhosamente e nós abaixávamos a cabeça concentrados na confecção da nossa namorada, que era a pipa.
Constantemente olhávamos o céu azul e a nossa maior preocupação era com o vento e entre a confecção das pipas e a eterna paciência em fazer aquelas “rabiolas” quilométricas, molhávamos o dedo com saliva e expunha-o ao vento para saber qual a direção que o mesmo soprava e qual era a sua intensidade. Dessa maneira tínhamos uma vaga noção por onde nossas pipas e nossos pensamentos voariam.
O vento da periferia sempre era bondoso conosco e jamais deixava de soprar aos sábados de manhã e às vezes trazia o aroma agradabilíssimo do café coado pela dona Ondina que era servido em xícaras de porcelana pelo Lalá e sua linda namorada. Sempre sorrindo e desejando-nos bons ventos.
Talvez por não existirem prédios, o vento soprava uma agradável brisa, na quantidade exata às nossas expectativas e aos nossos sonhos de adolescente, e soprava em quase todas as direções.
Fazíamos as pipas com perfeição e elas raramente deixavam de voar.
Tínhamos uma brincadeira maravilhosa que consistia em dar nomes às nossas pipas e geralmente ganhavam nomes da última namorada e assim que o mesmo ganhava o céu ficávamos imaginando subir junto com eles e ficarmos olhando lá de cima tudo o que tinha acontecido, acontecia ou iria acontecer no nosso querido bairro Cidade A. E. Carvalho.
Havia sábados em que o vento soprava em direção ao bairro de Itaquera e nesses sábados nossos pensamentos avistavam cenas e situações indescritíveis. Lá de cima podíamos avistar a padaria com sua enorme máquina de assar frangos, pessoas saindo com saquinhos de pães, carros com o volume do rádio um pouco acima do normal tocando músicas de Roberto Carlos, Caetano Veloso, Os Beatles e Morris Albert cantando “Fellings”. Olhando atentamente poderia observar minha caixa de engraxar sapatos que outrora colocava em frente à padaria e ficava aguardando pacientemente os fregueses.
O ponto de ônibus em frente à padaria, e motoristas e cobradores sorrindo entre um gole de café, uma coxinha comida e um cigarro aceso. Pessoas entrando pela porta traseira e o ônibus saindo vagarosamente com motoristas com óculos escuros acenando aos companheiros com destino à Praça Clovis Bevilaqua. Viagem longa que nossas pipas não conseguiam acompanhar.
Observava crianças correndo alegremente, pelo pátio da escola Milton Cruzeiro durante o recreio e o ônibus Mogi-Parque D.Pedro II que passava em alta velocidade deixando-nos atônitos.
O vento mudava um pouco a direção e de lá de cima enxergava minha mãe e outras mães do bairro lavando roupas na mina e conversando sobre o sofrido cotidiano. Enquanto as roupas eram “quaradas” pelo tempo de trocar uma receita de bolo ou reclamar do custo de vida que já naquela época fazia-se presente.
Eis que a pipa e os nossos pensamentos pairavam sobre a igreja do bairro e podíamos deliciar-nos com a tradicional quermesse onde recebia as meninas com seus cabelos cortados “à chanel”, devidamente arrumados com “laquê” e trajando lindos vestidos rodados coloridos e os meninos trajando calças “boca de sino” com cintura alta, parecendo um toureiro da periferia, e suas inconfundíveis camisetas “volta ao mundo” ou “gola olímpica”.
Sentia o aroma dos bolinhos caipiras preparados pelas mães do bairro e avistava barracas coloridas, que ajudávamos a montar, que abrigavam diversos jogos e vendas de guloseimas. As meninas eram vigiadas constantemente pelas mães ou irmãos que não permitiam beijos ou abraços, o máximo era uma piscada bem longe dos olhos severos dos pais de antigamente.
O alto-falante sussurrando uma inaudível música de Nelson Ned entrecortada pela voz rouca do amigo Israel que era o locutor oficial da quermesse, anunciando o início do jogo de bingo que jamais conseguira ganhar, completava a paisagem.
O barulho estridente do trem que fazia o trajeto Brás-Mogi das Cruzes afastava os namorados que trocavam presentes na véspera do Natal.
O vento começava a parar de soprar e era hora de recolher as pipas, nossas imaginações e nossos sonhos e retornar às nossas casas, depois de um abraço e um aperto de mão. Estávamos novamente na terra e ficávamos torcendo para que a semana passasse rápido e o vento mudasse de direção para que pudéssemos nos encontrar e avistar novos lugares e acontecimentos do pacato bairro da Cidade A. E. Carvalho.
Um passado não muito distante que ganhara as alturas através da nossa criatividade e amizade sincera e que deixou muitas saudades de um tempo em que dávamos vazão a nossa imaginação de adolescente, através de uma pipa, uma pipa nas manhãs de sábados.
Esta é uma pequena homenagem ao meu amigo Israel Brienzo que faz exatamente uns trinta anos que não vejo. Soube que anda morando lá pelas “bandas” do Norte do Paraná. Abraços, amigo, e saiba que até hoje me lembro das lindas namoradas e pipas que tanto empinamos juntos.