8 de jul. de 2011

PIRULITOS


Sempre que alguém da nossa família ficava gripado, mamãe imediatamente preparava um xarope de Guaco para aliviar nosso sofrimento.
         Num determinado dia minha irmãzinha ficou muito gripada e imediatamente mamãe correu para cozinha para começar a preparar o tal xarope. Adorava observar mamãe cozinhar, nem tanto para aprender e sim para dar umas “beliscadas” nas delicias que sempre ela fazia.
         Mamãe mexia aquele caldo com uma paciência de Buda e eu observando pedi para ela fazer um pirulito com aquele caldo. Imediatamente fiz um canudinho de papel em formato de cone e pedi para ela encher com o melaço,  coloquei um palito de madeira e passados alguns minutos o mesmo já estava pronto para ser chupado.
        Enquanto degustava o pirulito surgiu uma ideia sensacional: Pedi para mamãe fazer alguns pirulitos com o açúcar derretido pois eu iria vender e arrecadar um “dinheirinho” para comprar mistura.
      Mamãe sorriu cândidamente e aceitou o convite, mas lembrou-me que eu tinha apenas nove anos e não poderia sair da frente de casa, pois havia algumas pessoas de má índole circulando pelo bairro onde morávamos e poderiam mexer comigo.
        De tanto insistir,  mamãe concordou em fazer os pirulitos, mas enfatizou que deveria ficar próximo de casa.
         Alegremente dirige-me a casa do Sr.Heitor, um senhor idoso que todos nós adorávamos e pedi para ele construir um tabuleiro para colocar os pirulitos. Sorriu amigavelmente,  pegou uma tábua,  uma furadeira e pôs-se a fazer o furos, após algum tempo o tabuleiro já estava pronto. Sr. Heitor colocou uma alça no tabuleiro e enroscou-o no meu pescoço, afagou minha cabeça e desejou-me muita boa sorte no meu novo empreendimento.
         Mensurar a Felicidade de um garoto de nove anos diante da possibilidade de tornar-se um novo milionário vendendo pirulitos era uma grande piada escondida na minha tola cabecinha. Coisa de criança!
        Cheguei em casa eufórico e pedi para mamãe começar a fazer os pirulitos e ela disse que só faria os mesmos a noite e que eu iria vendê-los somente no dia seguinte. Um tanto frustrado acatei mamãe e não via a hora de chegar o momento de preparar os pirulitos.
        A grande panela foi colocada no fogo, em seguida o açúcar e eu xeretando ao redor, até que ela pediu para eu ir fazendo os canudinhos e colocando-os no tabuleiro. Após dispor todos os canudinhos no tabuleiro,  mamãe colocou a calda,  esperou um pouquinho e colocamos os palitos. Pronto os cinquenta pirulitos já estavam prontos, era só aguardar outro dia e sair para vendê-los.
           Quando o  Sol apareceu , coloquei o tabuleiro no pescoço e sai sem fazer nenhum barulho e fiquei em frente de casa oferecendo os pirulitos para os trabalhadores.  Nem olhavam para minha cara,  estavam apressados e seis horas da manhã não era um horário apropriado para chupar pirulito.
           Lá pelas nove horas da manhã entrei em casa sem vender nenhum pirulito e pedi para mamãe se podia dar umas voltas pelo quarteirão e ela concordou, mas insistiu que deveria retornar logo.
           Batia palmas em algumas casas e oferecia os pirulitos, alguns compravam de dó da minha pessoa, outros balançavam a cabeça negativamente e nem me atendiam. De casa em casa consegui vender quase todos os pirulitos e voltei pra casa antes do meio dia com o espírito envolvido num manto de vitória. Tinha conseguido!
          Vendia os pirulitos de segunda-feira à sábado, às vezes sobrava alguns e eu e minhas irmãzinhas chupávamos. Com o lucro das vendas dos pirulitos ajudava mamãe comprar mistura, açúcar e sempre sobrava algum trocado para comprar a Caixinha da Sorte e alguns doces de abóbora que tanto amava.
         Passado algum tempo, mudei de atividade e fui ser Engraxate. Engraxate da Periferia.

2 de jul. de 2011

O TEMPO

  Eram raros os momentos em que eu ficava ao lado de papai. Estes momentos restringiam-se a alguns domingos ensolarados em que papai levava-me a um enorme jardim existente em frente da nossa casa que ficava na Rua Mangalot, no bairro Parada Inglesa, zona norte de São Paulo.
Nestes momentos tentava aproveitar cada segundo ao lado de papai da melhor maneira possível, quando jogávamos bola, adorava driblar papai, pois minha mobilidade corporal às vezes deixava papai na grama, ele levantava-se vagarosamente, sempre com um sorriso de satisfação e eu pulava nas suas costas simulando um cavalo, após simular alguns trotes, jogava-me no chão e dava um chute forte na bola e pedia carinhosamente para eu ir buscar a bola, este era o momento de papai tomar algum ar, recuperar o fôlego e convidar-me para irmos embora para casa. Meu semblante franzia-se e meu olhar de frustração aparecia ao lado de um balanço de cabeça, mas sempre obedeciam às ordens de papai, pulava no seu colo e dava-lhe um beijo carinhoso no seu rosto e saíamos em direção ao nosso lar.
Inúmeras vezes desejei mentalmente que papai perdesse o emprego, pois só assim poderíamos ficar mais tempo juntos chutando a bola de capotão que tanto eu adorava, mas sabia perfeitamente que se papai perdesse o emprego nossa família passaria por grande necessidade financeira e todos nós iríamos ficar muito tristes e com a barriga vazia, então me redimia dos meus nefastos desejos e pedia perdão a Deus por tamanha crueldade.
Estava no início do primeiro ano do curso primário, iniciando a alfabetização e estava disposto a qualquer sacrifício para conseguir ficar mais algum tempo ao lado de papai e mirabolantemente arquitetei um infalível plano: Disse para papai que estava sentindo uma enorme dificuldade em fazer cópias da Cartilha Caminho Suave e precisava urgentemente da sua ajuda. Sabia que ele jamais iria negar em ajudar-me. O seu sereno e calmo rosto ficou sério e atrás de toda sisudez do momento disse que iria ajudar-me e que eu fosse dormir cedo, pois no outro dia teríamos que acordar às 5 horas da manhã para começarmos os estudos. Não conseguia entender a sua disposição e fiquei muito arrependido em ter dito que não conseguia fazer cópias da Cartilha, mas não havia retorno e imediatamente lancei-me para baixo dos cobertores.
No outro dia, pontualmente às 5 da manhã papai balançou-me na cama e pediu que me colocasse em pé. Com os olhos inchados de tanto sono, iniciamos as primeiras lições. Papai fazia uma cópia da Cartilha e eu copiava olhando suas escritas. Foram várias vezes que “peguei-me” arrependendo e envergonhando-me por estar subtraindo tão precioso tempo de papai, mas afinal era a única maneira de poder ficar um pouco mais durante a semana com papai, poder sentir seu cheiro, sua paciência, sua dedicação e todo seu carinho de pai e seus gestos tranqüilos era um bálsamo para minha alma.
Assim que terminávamos a cópia da lição, papai ia beber café com pão e após alimentar-se despedia de mamãe com um beijo e outro beijo no meu rosto e saia apressado em direção ao trabalho. Acompanhava papai até um enorme muro e ficava acenando para ele e pedindo o seu retorno o mais breve possível, sempre dizendo: Vai com Deus!
Regressava para a mesinha onde estudávamos, colocava os braços sobre ela e repousava o rosto sobre os braços em profundos devaneios que só eram interrompidos por mamãe trazendo-me de volta ao mundo porque estava na hora de ir para escola. No caminho para escola ainda ecoava a voz doce de papai aos meus ouvidos que desapareciam com a voz pausada e rouca da professora fazendo a chamada.

1 de jul. de 2011

Lápis de cor



Naquela manhã do rigoroso inverno de 1.961 parecia que o mundo ia acabar, o céu estava muito escuro, prenunciando um enorme temporal. A luz da cozinha foi acesa, ouvi  barulho de água da torneira enchendo uma chaleira e o barulho de alguns fósforos sendo acesos, era mamãe que sempre levantava bem mais cedo do que todos nós para fazer os preparativos para o café matinal.
         O barulho incessante do vento assoprando ruidosamente lá fora, fazia-me encolher na cama e sentir um pouco de medo do fim do mundo, que naquela época já existia alguns profetas anunciando que iria chegar. Pensava que aquele dia seria realmente o final e tudo estaria acabado. Nunca mais poderia jogar a minha querida bola de capotão com papai que ganhara  no Natal , não poderia mais brincar com meus coleguinhas de “mão na mula”, bolinha de gude, rodar pião, pega-pega e outras brincadeiras da época, sentia-me muito triste em ter que partir não sabendo pra onde, realmente não estava preparado para o fim do mundo.
          O passarinho do relógio cuco anunciou seis cantos, eram seis horas. Papai  levantou e dirigiu-se ao banheiro para sua ablução matinal, eu encolhi-me na cama um  pouco mais e fiquei esperando ser chamado por mamãe para ir à escola.
           O cheiro agradabilíssimo de café coado por mamãe invadia todos os cômodos da casa e coloquei-me de pé rapidamente. Assim que papai saiu do banheiro eu entrei para tomar banho e fiquei imaginando irmos para escola sob aquele temporal que não demoraria muito a desabar. Mamãe apressou-me com alguns toques na porta, saí e sentei-me preocupadíssimo a mesa para tomar café com rabanadas que papai tanto apreciava. Naquele dia eu estava muito introspectivo, calado, sério e todos notaram, mas continuaram a falar do cotidiano sem fazer comentários a meu respeito.
           Papai deu um beijo na mamãe, um beijo na minha testa e saiu apressado para o trabalho debaixo de alguns pingos que começara a cair. Logo em seguida eu e mamãe saímos para a escola. Iria ter aula de desenho e a professora Judite deixou bem claro que quem não trouxesse lápis de cor não entraria na sala.
         Chegamos na escola sob um forte temporal que começara a cair e mamãe abriu minha mochila para ver se tudo estava certo, se não faltava nenhum material escolar e repentinamente franziu a testa e fez uma cara de espanto e disse que eu tinha esquecido a caixa de lápis de cor. Minha reação também foi de espanto, pois tinha colocado os lápis na minha mochila e não sabia quem tinha tirado de lá. Comecei a chorar baixinho e mamãe acalmou-me passando a mão no meu rosto e dizendo que iria pegar os lápis em casa e voltaria rapidamente.
         Entrei no pátio da escola, procurei os alunos da minha classe, entrei na fila, cantamos o Hino Nacional e dirigimo-nos a sala de aula sob a supervisão da professora. Sentamos todos educadamente,  a professora fez a chamada e logo em seguida distribuiu os desenhos que seriam pintados naquela aula. Quando  ela percebeu que eu não tinha lápis de cor, pediu gentilmente que eu aguardasse mamãe do lado de fora da sala de aula.
          Saí morrendo de vergonha e fiquei perto da porta aguardando eternos minutos o retorno de mamãe. Foram momentos de angustia, perplexidade e medo. Às vezes colocava o rosto numa pequena janelinha da porta e via todos os alunos pintando alegremente e eu ali do lado de fora aguardando o lápis de cor. O vento gélido no corredor, o barulho do trovão e os raios apavoravam-me e eu comecei a rezar baixinho  para que aquele momento cessasse o mais breve possível.
            Avistei mamãe no final do corredor e corri até ela com os olhos marejados, mamãe entregou-me a caixa de lápis de cor, beijou meu rosto e pediu carinhosamente que eu entrasse na sala de aula rapidamente.
             Pedi licença para professora para entrar na sala e amaldiçoei-a mentalmente até chegar na “carteira escolar”. Sentia-me culpado por ter feito mamãe ficar toda molhada e eu comecei a pintar o desenho que acabou todo borrado por alguns pingos de lágrimas de arrependimento e só então descobri o verdadeiro amor que uma mãe nutre por um filho em todas as fases da vida.
            Naquele dia chegando em casa dei um apertadíssimo abraço em mamãe e pedi a ela “mil desculpas” e vários perdões. Ela sorriu angelicalmente e disse que não fizera mais que uma obrigação de mãe. Não me contive novamente e deixei rolar algumas lágrimas pela face. Deixei a mochila no sofá e fui almoçar, refletindo muito sobre o ocorrido e prometendo que quando soubesse escrever contaria esta “História”. Passaram-se somente cinqüenta e cinco anos e o sonho acaba de concretizar-se , consegui escrever. Tá escrito. Lápis de Cor.

28 de jun. de 2011

FAZENDO E VENDENDO COXINHAS

Estávamos no início de 2.008, a ideia de fazer coxinhas tinha vindo depois de uma longa viagem à Ubatuba. Depois de várias tentativas de fazer uma coxinha diferente de todas aquelas já existente, conseguimos fazer uma que era diferente de todas as outras. Fizemos um verdadeiro “laboratório experimental” com temperos, recheios e o sabor foi ficando cada vez mais afinado com o paladar de todos.
      Após um período de dois meses em Ubatuba na casa da tia Ana, onde testamos várias receitas, chegamos a uma que colocamos o nome de Coxinha Caiçara e era esta receita que apresentei para minha filha e disse que a partir daquele momento iríamos viver de fazer as tais coxinhas e vendê-las pelo comércio local da Vila Maria Alta em São Paulo-SP e redondeza.
      Minha filha ficou estupefata com a ideia, mas como não tinha outra opção, pois morávamos numa pequena casa de aluguel, eu minha filha e minha netinha. Abraçou a ideia para não passarmos necessidades e assim começamos nossa atividade de salgadeiros, especificamente fazendo a tal da coxinha caiçara.
      Fazer as coxinhas não era problema, pois já tinha dado certo no litoral e não tinha como dar errado na capital, já que o sabor era deliciosíssimo, a textura surpreendente, sequinha. Combinamos um preço bem razoável, fizemos as primeiras quarenta unidades e saí pelo comércio local em busca de nossos novos clientes. A dificuldade foi enorme no início, pois ninguém conhecia nossas coxinhas e todos se mostravam cépticos em relação ao nosso produto. Foi uma grande batalha no início para provar para todos os novos clientes que estávamos vendendo um produto de qualidade, muito delicioso e que todos deveriam provar.
      Trabalhar por conta própria é muito bom, mas exige um esforço enorme. Levantava-me às 6 horas da manhã e ia comprar os ingredientes num mercado próximo de casa, preparava tudo, desde colocar o frango para cozinhar, até os temperos para podermos fazer a noite.
      Lá pelas 8 horas da manhã começava a fritar vinte coxinhas e ia vendê-las pela redondeza, vender salgados de manhã não é lá tarefa muito fácil, mas precisávamos e não tinha para onde correr e lá ia eu com minha caixa de isopor, uma garrafa de café que oferecia de brinde aos meus clientes. Quando estava próximo do meio-dia já tinha vendido todas as coxinhas e aí retornava para casa, almoçava e ficava esperando dar 2 horas da tarde para fritar mais vinte coxinhas e sair à tarde.
     Os clientes já estavam conquistados, tinha em média uns vinte clientes fiéis que adoravam nossas coxinhas, o restante era conquistado dia a dia, andando muito, tomando muita chuva, entrando em quase todos os estabelecimentos comerciais e esbanjando carisma, bom humor e sempre enaltecendo a grande diferença das nossas coxinhas e das outras encontradas pelos bares e padarias do bairro.
      Todos os dias era uma grande batalha, pois dependíamos de vender as quarenta coxinhas todos os dias e o dinheiro arrecadado era para pagar o aluguel, água, luz, comprar fraldas e leite para a netinha e um pouco de comida para nós.
      Foram oito meses vendendo todos os dias em média quarenta coxinhas e algumas histórias interessantes aconteceram neste período. Num sábado quando minha filha estava fritando as coxinhas o gás acabou e ela desabou a chorar dizendo que estava cansada de ser pobre, soltei um grande sorriso e disse que também estava cansado, mas não era de ser pobre e sim de andar como um burro pelas ruas do bairro, ela sorriu entre algumas lágrimas e foi comprar o gás fiado.
       O secretário de uma escola estadual pediu para vendermos as coxinhas num sábado à tarde na escola, pois alguns alunos estariam na escola para aulas de recuperação. Fizemos cinquenta coxinhas e fomos até a escola e chegando lá, simplesmente não havia ninguém, as aulas foram adiadas. Ficamos aflitos, sentamos na beira da guia e ficamos imaginando o que faríamos, até que escutamos barulho de instrumentos musicais vindo do clube  Thomas Mazzoni, fomos correndo até lá, onde estava acontecendo uma final de campeonato de time de futebol, tinha muita gente, subi as arquibancadas e fui vendendo, vendendo e após uma hora já tinha vendido todas as coxinhas, fomos embora muito feliz e com grande alívio , tínhamos garantido nossa próxima remessa de coxinhas, naquele dia compramos até uma pizza para comemorar nossas vendas.
         Numa sexta feira a tarde apareceu meu sobrinho Leandro e seu filho Diego comprou toda a “carga” de coxinhas, ele ainda trouxe várias latas de cervejas, onde bebemos e comemos todas as coxinhas. Raras vezes isto acontecia, mas de vez em quando acontecia. 
         Às vezes, a tarde, convidávamos minha irmã Silvinha e meu sobrinho John Lennon para tomar café com coxinhas em casa, ficávamos muito feliz com a presença da minha irmã na nossa humilde casa, inesquecíveis aqueles momentos.
         Muitas passagens aconteceram, umas tristes outras alegres e aprendemos uma lição maravilhosa que jamais passaremos fome neste País, desde que estejamos propensos a “meter a mão na massa”, suar a camisa e queimar a barriga no fogão. Conseguimos sobreviver! Vai uma coxinha aí?

23 de jun. de 2011

BUCHA FRITA


BUCHA FRITA

Lá pelo final do ano de 2.002, morava num “cortiço” em Guarulhos, mas era um cortiço muito elegante, bem organizadinho. Acabei caindo por lá sem querer. Trabalhava num Instituto de pesquisa, como pesquisador e morava na casa da minha tia Terezinha e quando cheguei na casa desta minha tia ela foi bem enfática em dizer: Após Hum ano de residência por aqui você tem que cair fora, arrumar outro lugar. Passados os doze meses ela disse-me: E aí querido sobrinho já arrumou um novo lar? Este que você está venceu o contratado...Um abraço! Entrei em desespero e o primeiro buraco habitável que encontrei e entrei.  Uma chuva fininha acompanhava-me numa caminhonete do vizinho que além de alguns bons livros, um colchão velho e uma mesinha para escrever pífias crônicas jamais lidas por ninguém. Deixou-me na porta do cortiço, desejou-me boa sorte e saiu em disparada. Sentei-me no colchão, embaixo daquela chuva fininha e não sabia se chorava ou lia alguns dos livros de Dostoievski, tipo Humilhados e ofendidos ou memórias do subsolo, qualquer dos dois seriam ótimos diante da situação daquele momento. Optei em resignar-me, abaixar a cabeça e descer as escadas com aquele colchão velho e uma caixa cheia de livros, alguns já lidos outros ainda dentro do envelope. Apreensão e estado total de alerta fazia-me sentir-me um cão acuado dentro de um cubículo de quatro metros quadrados. Armei a cama, a pequena mesinha, dispus os livros sobre ela e saí para comprar um lanche e beber uma pinga para esquecer tanto sofrimento em tão pouco espaço de tempo. Cheguei e pensei estar noutro ambiente, pois o som saia de um dos quartos, era um Rap  sendo tocado enfatizando o estado social do povo brasileiro. Medo era pouco o que sentia naquele momento, até que escutei uma voz familiar, enchi-me de coragem etílica e saí para dar um grande abraço num primo que fazia anos que não o via. Sentí-me um pouco mais aliviado. Fui apresentado para outros rapazes e fui deitar com a alma mais leve.
     Tudo estava correndo absolutamente normal, levantava-me bem cedo, arrumava-me e ia comer no restaurante de Hum real, fazia algumas pesquisas e regressava para meu minúsculo quarto ao anoitecer e alcolizava-me diariamente.
     Passados alguns meses que estava morando no cortiço, telefonei para meu irmão Robson, morador na Vila Maria Alta e convidei-o para fazermos um peixe frito, regados a inúmeras cervejas, ele prontificou-se a levar as cervejas. Lembro-me perfeitamente que fui até um grande atacadista e comprei uma enorme tainha e deixei-a sob a pia e fiquei pacientemente esperando meu irmão chegar com as cervejas, não demorou muito ele apareceu com várias caixas de cervejas e pediu para colocarmos na geladeira, ir temperando o peixe que iria trabalhar e voltaria pra saborear o peixe e as cervejas. Fiquei esperando ele até às treze horas e nada de aparecer, então comecei a limpar o peixe e beber cervejas, eu e o primo Levi, lá pelas 3 da tarde já estávamos bêbados, pois tínhamos bebidos várias caipirinhas também e comecei a limpar o peixe. Papo vai e papo vem, limpei todo o peixe, lavei-o e coloquei os pedaços numa tigela, empanei e comecei a fritar. Meu primo Levi começou a reclamar de um cheiro muito forte de plástico queimado e eu dizia: Também com tantas indústrias aqui em Guarulhos poluindo nosso ar, tem mais é que cheirar plástico queimado mesmo! Fritei todos os pedaços de peixe e convidei outro colega chamado Arilson para participar da degustação da tainha. Cervejas eram bebidas e pedaços de peixe eram comidos, até que meu primo cutucou um pedaço de peixe, levantou-o, deu uma mordida e começou a rir alegremente. Perguntei a ele qual o motivo de tanta risada, ele simplesmente disse: Pô primo, já comi de quase tudo nesta vida, mas bucha frita é a primeira vez! Peguei o pedaço de bucha frita, analisei com aquele ar de entendido em polímeros de grande indústria química e disse: Pois é primo, desculpe-me, acabei empanando a buchinha de lavar louça junto com os pedaços de peixes e fritei-a..Mas ...Rimos largamente e abraçamo-nos pelo desequilíbrio etílico. Grande momento, inesquecível! Bucha frita! Horrível! Aca!

22 de jun. de 2011

Convite

Convite 

Eis a chave do meu coração, pode entrar que a casa é toda sua, não repare na bagunça, é resquício do meu último relacionamento. Veja como as paredes estão marcadas com sentimentos de saudades. Neste mesmo espaço, sob uma imensa escuridão já aconteceu grandes festas, festas iluminadas com sentimentos de alegria e paixão que às vezes ficava um longo período iluminado e os olhos transmitiam toda esta emoção. Houve um período que ninguém entrava, embora algumas pessoas pedissem autorização. Ele estava magoado com as vicissitudes do cotidiano, estava de luto. Hoje está resplandecente com uma nova alegria que iluminou tudo e toda a minha vida: O nascimento da minha netinha, chamada Mellyssa. Felicidade existe sim!

21 de jun. de 2011

Filho de Comunista

Quantas e quantas vezes fui proibido de falar da nossa miserável "vidinha". Desde moleque era proibido fazer qualquer alusão ao nosso cotidiano. Entrar calado e sair mudo, esta era a ordem de papai. Não converse com ninguém, não olhe pra ninguém, vá e volte em poucos minutos! Não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo ao nosso redor, com a nossa família. Quantas reuniões sigilosas aconteciam em casa sob meu olhar curioso de criança. Posicionava-me entre aqueles homens que dialogavam continuamente e jogavam baralho e fumavam muito e às vezes a discussão ficava um pouco mais acirrada e alguns chegavam a dar alguns murros na mesa. Corria deitar com mamãe e ficava perguntando um pouco amedrontado se aqueles homens poderiam brigar. Mamãe acariciava-me e dizia que estavam apenas conversando sobre trabalho. As reuniões terminavam sempre muito tarde, isto quando não amanheciam conversando sobre isto e aquilo, citavam muito uma palavra que até hoje guardo na minha mente, chamava-se "Tupamaro", MR-8, Luiz Carlos Prestes, Lamarca e outros que não me lembro mais, sempre citando países como Rússia e China..às vezes faziam-se calados e eu imaginava que eles estavam brincando de "vaca amarela". Pura tolice e ingenualidade de criança. Alguns fatos marcaram profundamente minha infância, como um dia em que papai iria participar de uma grande paralisação de uma fábrica ao qual o sindicato ao qual papai era filiado tinha dado ordens pra todos os trabalhadores paralisaram suas atividades. Levantou-se muito cedo e preparava-se como se fosse para guerra, mas o que mais me chamou atenção foi a grande quantidade de bolinhas de gude que ele iria levar. Pensei, caramba, quanta bolinha de gude! Será que eles vão participar de algum torneio? Pô, e ele não vai dar nenhuma pra mim? Partiu, depois de dar um beijo carinhoso em mamãe. Muito tempo depois soube o porquê de tanta bolinha de gude. Outro fato foi que muito antes de sindicalizar-se levava um livro dentro de uma grande marmita e constantemente estava lendo,lendo, lendo e eu ficava imaginando que talvez ele não estivesse entendendo absolutamente nada do livro "O Capital" de Karl Marx. mas...E assim íamos levando nossa vida de "esconde- esconde". Lutava-se por um País de igualdades, sem pobres, sem ricos. Utopia? Talvez.
Só sei dizer que sofremos muito, muito, muito e todo o meu caráter formou-se baseado nestes fatos e situações maravilhosas. Graças a Deus nunca roubei nada de ninguém, respeitava e ainda respeito todos e sempre reparto meu "pífio" pedaço de pão com o desgraçado e com o rico. Sempre tive vontade de escrever algo como estou escrevendo, mas sempre ficava com medo de ser advertido, não compreendido, hoje com 56 anos de idade criei um pouco, talvez 1% da que aqueles camaradas tinham e resolvi escrever. Fiz mal, fiz bem? O que papai falaria se lesse este texto? Talvez, parasse e refletisse um pouco e falaria: Filho, eu disse pra você que não era pra dizer nada pra ninguém! Pediria perdão e falaria: Pô papai, releve isto, estou apenas contribuindo com a história e sua bisneta ficará muito feliz em saber que o Senhor foi um bravo que tentou ajudar este País...mas....continuamos nossa vidinha.