7 de dez. de 2017

ANJOS DO BEM X "ANJOS" DO MAL



          







             E lá estava eu vendendo minhas empadas de bacalhau pelas ruas da Vila Maria Baixa, zona norte da cidade de São Paulo embaixo de um escaldante Sol de quarenta graus centigrados.
         As vendas estavam acontecendo de uma maneira..digamos fácil, devido a proximidade da época natalina e a maioria das pessoas providas de uma “graninha” a mais pela aquisição do tão almejado décimo terceiro salário e outros benefícios do sofrido cidadão assalariado que tanto espera este momento.
         Entra em loja, sai de loja oferecendo as empadas e esvaziando minha “malinha” de “nãos” e entre um sim e outro abro a caixa de isopor e noto que sobraram apenas duas unidades das empadas.
         As dores no corpo faziam-se presentes naquele momento e procurei algum lugar para sentar e avistei um barzinho repleto de jovens animados e entre várias gargalhadas e apenas uma mesa com algumas cadeiras vazias sentei-me pesadamente para recompor minhas energias e seguir em frente e imediatamente fui abordado pelo gentil garçom:
- Pois não senhor deseja alguma “coisa”?
Levantei a cabeça e disse que não queria absolutamente nada e estava sentado ali por alguns minutos somente para recuperar o fôlego e as energias para seguir em frente com as vendas das minhas empadas.
         O garçom sorriu e disse:
- Fique bem a vontade senhor até chegar o próximo cliente.
         Abri a carteira e contei o dinheiro ganho até aquele momento e vi que existia uma quantia suficiente para degustar uma boa porção de qualquer petisco e beber uma boa cerveja.
         A mente viajava entre um “sim” e um “não” e imediatamente vi me rodeado por uma legião de “anjos” do mal sussurrando entre eles e apenas um aproximou da mesa e disse:
- Pois é querido, vai pedir a cerveja estupidamente gelada e uma porção ou vai esperar o primeiro ataque cardíaco ou Aneurisma Vascular Cerebral te pegar e te jogar em uma cama?
Olhei do outro lado da praça com a boca salivando e avistei outra legião de anjos do bem acenando e vindo em minha direção e posicionaram a minha direita apenas escutando o monólogo entre os “anjos” do mal e um anjo do bem aproximou e disse sussurrando no meu ouvido:
- Sabe Luiz, não bebe não, levanta daí e vai até aquela doceria do outro lado da avenida e compra o doce que você mais gosta, pega um ônibus e vai embora.
Várias gargalhadas ouvi dos “anjos” do mal, zombando e pulando gritavam: Doces! Não acreditamos que vai trocar várias cervejas por apenas um insignificante doce. Deixa de dar ouvidos para estes anjos corretos e alimente-se com estes momentos de prazer que estamos te propiciando.
O suor descia abundantemente pelo rosto e os jovens sorriam alegremente entre uma tulipa de cerveja gelada e outra, a visão da doceria parecia distante e entre várias hesitações ergui a mão acenando para o garçom para que viesse até minha mesa.
Toda a legião dos anjos do bem posicionaram ao redor da minha mesa fazendo uma barreira para que o garçom não aproximasse da minha mesa.
         Olhei ao redor e ouvi de um anjo do bem:
- Então quer dizer que você quer dormir na praça novamente, quer continuar a beber vários Corotes e que todos o humilhem, te pisem, te chamem de “Bêbado” dos infernos e oprimem sua alma, sua mente?
Outro “anjo” do mal interceptou dizendo:
- Manda este anjo fdp dormir no inferno, se te quer tão bem porque não o protegeu quando você estava naquele “aperreio”? Manda ver, pede logo uma Maria mole e várias cervejas para poder sentir e gozar este maravilhoso momento.
Senti minha cabeça doer e ao longe fui chamado para vender uma empada, levantei-me e fui atender uma velha senhora que comprou as duas “derradeiras” empadas e após pagar seguimos para a doceria comprar alguns doces.
         Atravessei a rua e ouvi os “anjos” do mal dizendo:
- Desta vez perdemos...mas a gente pega ele em breve.
Entramos na doceria, comprei vários doces e peguei um ônibus com destino a minha casa e ainda sobrou tempo para ver a alegria dos anjos do bem sorrindo e zombando os “anjos” do mal.
         O ônibus fechou a porta e olhei pela janela a legião dos anjos do bem acenando para mim e desejando um feliz regresso.



27 de mai. de 2017

O vendedor de empadas



       Desde que chegara da ilha as portas e os horizontes pareciam muito distantes e os primeiros trocados sumiram dos bolsos da surrada calça jeans. Após longa pesquisa em mal dormidas noites aquele senhor grisalho,  resolveu fazer e vender empadas pelo comércio local da pacata cidade de Jacareí.
       As primeiras empadas não saíram muito boas devido à falta de experiência e entre um tropeção e outro na massa começaram a aparecer os primeiros clientes que até solicitavam algumas encomendas ao longo da semana.
       O tempo foi passando e o senhor atingiu a perfeição na arte de fazer empadas de todos os sabores e assim ia seguindo a vida entre frango com catupiry, palmito, camarão, bacalhau e outros sabores. Decidiu mudar de cidade e acabou optando por Guarulhos e seguiu fazendo e vendendo as empadas pelo comércio local da cidade.
       As novas amizades começaram a aparecer e situações inusitadas eram constantes no cotidiano do vendedor de empadas que seguia em frente com sua caixinha de isopor no ombro e um sorriso no rosto em busca de novos clientes.
       Em um determinado dia após vender seis empadas para uma simpática senhora a mesma disse que não tinha onde armazenar para levar para casa e após alguns minutos abriu uma bolsa e pegou seis porta dentadura e colocou as empadas cuidadosamente e seguiu para casa toda sorridente e feliz.
       As histórias continuavam a surgir constantemente e um senhor dono de uma papelaria comprava as empadas porque lembrava da mãe que fazia empadas e o pai ia vender no comércio local.
       De porta em porta as empadas eram comercializadas diariamente e os fregueses começaram a aumentar até que um rico comerciante ofereceu um local para que as empadas fossem comercializadas sem o sacrifício de ficar andando e andando pelas ruas da cidade.
       Hoje o comércio de empadas na cidade tornou-se uma referência e lá está aquele senhor fazendo e vendendo as melhores empadas de Guarulhos.

6 de mai. de 2017

Inspiração

             E todas às vezes em que eu necessitava galgar mais um degrau da minha existência, aportava em uma “residência” que tanto inspirava-me em estudar e progredir em todos os aspectos da minha existência.
        As mágoas de outrora transformavam em fonte de inspiração, o papel em branco, a mente vagava entre um aceno e outro eu deixava rolar uma lágrima do fundo da alma, empunhava a caneta e escrevia pensamentos do momento que nem sempre eram profícuos.
        Entre um trago e outro no cigarro paraguaio, goles de cerveja de quinta categoria tentava encontrar soluções inatingíveis para o caos do momento. Alguns cachorros latiam no quintal da residência e meu pensamento transportava-me para uma infância bem distante em que os cachorros anunciavam bons presságios.
        Foram inúmeras as vezes em que levantei da cadeira para buscar inspiração para o meu novo texto, o barulho do vento e a chuva traziam um pouco de tristeza, lembranças ecoavam na minha alma vazia naquele momento.
        Felizmente após alguns momentos de reflexão e um pequeno acesso à internet a luz apareceu através de um edital de um Concurso Público para o cargo de Monitor de Creche, de uma Prefeitura do interior do Estado de São Paulo, analisei o edital, o número de vagas, a banca e resolvi investir no cargo e a partir daquele momento o tempo ocioso eram gastos com intensas leituras de matérias específicas.
        Quanto a prova objetiva o medo parecia distante, mas existia a prova prática e o receio de ter desaprendido a trocar uma fralda e preparar uma mamadeira permeavam minha mente.
        As alegrias e o entusiasmo em poder voltar a um passado bem distante quando ajudava minha patroa com estas atividades quando meus filhos eram crianças deram-me forças em lançar-me de corpo e alma em busca daquele cargo público.
        O sono, o cansaço e as horas de estudos às vezes faziam minha inspiração jazer em algum canto da residência em busca de novos ares, novas amizades e assim prosseguia com muita perseverança em busca desta nova etapa da minha vida.
        O tempo foi passando e meu grau de confiança foi aumentando e eis que chega o grande dia da prova. Rodoviária do Tietê sentido interior..

        Entre o vaivém dos pensamentos volto as apostilas em busca de mais um entusiasmo e uma boa dose de inspiração.

19 de jan. de 2016

TIA NINA

...Bati palmas no portão, alguns cachorros vieram me recepcionar e em seguida apareceu a querida tia Nina com um sorriso maravilhoso estampado no rosto. Tia Nina sempre foi e ainda é muito risonha e quando recebia visitas em sua casa ficava muito feliz.Caminhou lentamente até o portão, abriu-o e deu-me um carinhoso abraço e desejou-me uma boa estadia na sua residência.Pedi a benção e beijei a mão da tia Nina  que imediatamente começou a perguntar sobre meus pais, minhas irmãs, se todos estavam bem de saúde. Carregamos a pequena mala até um quarto e ela apresentou minha cama, o guarda-roupa e disse que eu iria dividir o mesmo com dois primos: O Edson e o Evanildo. Eu já tinha conversado com tia Nina sobre o meu objetivo em morar em Jacareí, pois ficava perto de São José dos Campos onde estava a ETEP, escola onde eu iria estudar.O tempo foi passando e tia Nina sempre alegre nos acolhia na sua residência e no seu coração. Comecei a trabalhar em uma construtora para poder manter me e meu único objetivo era estudar muito para tornar-me engenheiro e assim o tempo foi passando e minha juventude na casa da tia Nina foi maravilhosa. Sonhos e realidades misturavam-se cotidianamente e minha mente vagava entre o presente e um futuro cheio de alegria ao lado de pessoas maravilhosas. Como eu trabalhava perto da casa da tia Nina todos os dias eu ia almoçar em casa e entre o embarcar no velho ônibus preto do DNER e descer na Avenida Siqueira Campos e subir a rua Santa Cecília até o bairro do Avareí avistava muitos conhecidos. Na hora do almoço ligava meu radinho de pilha Philco e ficava ouvindo um programa na rádio Bandeirantes com o comunicador Hélio Ribeiro que traduzia lindas músicas que tanto acalentava meu coração.Nos finais de semana sempre acontecia partidas de ping-pong e entre um café e outro ainda sobrava tempo para paquerar lindas meninas que frequentava a casa da tia Nina.Fiquei hospedado na casa da tia Nina durante aproximadamente uns dois anos e foi muito gratificante e prazeroso aquele tempo que ainda trago na minha memória época de plena felicidade..Muito obrigado tia Nina por poder proporcionar época tão linda na minha vida.

31 de ago. de 2015

A DESPEDIDA

             Após quatro meses morando na casa do meu querido primo José Siqueira Junior em Guarulhos, São Paulo, Brasil, chegou a hora de partir. Tinha feito concurso público para trabalhar na Prefeitura de Ilhabela e me chamaram para assumir o cargo e foi em um domingo de fevereiro de 2015 que entre abraços e beijos  coloquei minha surrada barraca de camping nas costas e segui rumo a Ilha...Ilhabela.
               Eu estava muito feliz com a minha convocação e ao mesmo tempo bastante triste em ter que partir e deixar a linda família Siqueira. A despedida foi breve e assim que fechei o portão da casa e comecei a descer a rua sem saída algumas lágrimas brotaram nos meus olhos, respirei fundo, aprumei a barraca de camping no ombro e cheguei no ponto de ônibus da avenida Guarulhos. A mente vagava entre o movimentado trânsito  da avenida, encolhi minha alma, respirei fundo e peguei o ônibus para a rodoviária do Tietê. Ainda na avenida Guarulhos lembrava dos dias ensolarados em que eu vendia sorvetes para o comércio local e quando o ônibus entrou na via Dutra ainda coube a doce lembrança da querida Ednéia, proprietária da sorveteria e que tanto me ajudou. A escassez financeira assustava minha alma e planos mirabolantes movimentavam meus carcomidos neurônios em busca de soluções em como manter me em uma ilha com apenas alguns míseros trocados.
                 A movimentada rodoviária do Tietê estava repleta de pessoas chegando e partindo, num vai e vem frenético como pulsa a veia da querida cidade de São Paulo. Abraços de chegadas e lágrimas de partidas misturavam-se com gritos e alegria de algumas crianças que corriam  pelo imenso corredor da plataforma de embarque. Fechei os olhos e fiz mentalmente uma oração a todos que me ajudaram e me acolheram, persignei-me e entrei calado no ônibus com destino a São Sebastião. Sentei na poltrona dezesseis, abri meu livro e comecei a ler e quando percebi já estávamos na estrada. Alguns sorrisos de felicidade eram interrompidos  por algumas brecadas do motorista do ônibus ...a viagem prosseguia. Na região de Jacareí até São José dos Campos fechei as cortinas da janela do ônibus para apagar algumas lembranças  de pessoas, lugares..mas nada adiantou...As pessoas que tanto amei bailavam na minha mente  e algumas lágrimas de plantão apareceram nos meus olhos durante este trajeto. Na descida da Tamoios consegui cochilar e quando acordei já estávamos em São Sebastião..Ilhabela.

23 de jan. de 2015

O GUARDA-CHUVA




         



           Todas as vezes que chove em me lembro de você e ainda tenho aquele lindo guarda-chuva cor de rosa que você me deu naquele dia que sai de casa em busca de um abrigo. O tempo passou e fiz questão de guardar o guarda-chuva no meu velho guarda-roupa do meu quarto e todas às vezes que abro a porta do mesmo sinto uma saudade imensa de você.
           O tempo passou e hoje estou internado em um asilo, sozinho, rodeado de muitas árvores e muita solidão a espera de uma visita sua, todos os dias ao entardecer fico horas na frente do portão esperando sua presença que nunca acontece. 
         Outro dia começou a chover e eu retirei carinhosamente o guarda-chuva do guarda-roupa e fui até o portão esperá-la e como chovia muito o enfermeiro veio e perguntou quem eu estava esperando e quando eu disse que era você, ele sorriu carinhosamente, passou o braço sobre o meu ombro e pediu que eu entrasse pois ninguem viria visitar-me naquele dia tão chuvoso.                 Entrei silenciosamente e fui direto para o meu quarto e fiquei olhando a sua foto que fiz questão de colocá-la na parede para lembrar dos momentos felizes que passamos juntos .Talvez hoje você até esteja casada morando em outro país, muito feliz ao lado de seu marido e lindos filhos e até tenha esquecido da minha pessoa, mas saiba que jamais esqueci você.
           As pessoas por aqui são muito atenciosas comigo e na hora do almoço quando a comida é servida  faço questão de amassar todos os grãos de feijão e levar a colher a boca vagarosamente assim como fazia para alimentá-la quando você era apenas uma garotinha.
           Outro dia eu estava sentado em um banco do jardim do asilo quando avistei uma garotinha andando de bicicleta pela calçada na frente do asilo e imediatamente veio a doce lembrança de quando a ensinei a andar de bicicleta no Parque Brasil, lembra-se? 
            As alegrias por aqui resumem-se em folhear meus livros que escrevi diversas crônicas relatando os sublimes momentos vividos ao seu lado, fico horas lendo as crônicas embaixo de uma frondosa árvore, fecho-o, algumas lágrimas correm pelo meu enrugado rosto e entro para jantar e juntar-se com minha amiga solidão. Fecho os olhos e sonho com você e repentinamente sou acordado pelo enfermeiro dizendo que tenho uma visita e quando abro os olhos vejo você a minha frente sorridente trazendo um lindo buquê de flores. Entre abraços e lágrimas fecho novamente meus olhos e volto a dormir o sono eterno.




19 de dez. de 2014

A FORMATURA

   


   
 A chuva no dia da minha formatura começou cedo, muito cedo e entre abraços e beijos entrei no carro do meu irmão Robson entre alguns pingos que insistiam em molhar meu lindo vestido de formatura.
      A primeira marcha foi engatada e entre vários faróis vermelhos e verdes minha alma estava muita branda e meus olhos um pouco lacrimejados de emoção pelo momento único da minha vida. 
    Sentei-me delicadamente no banco traseiro do carro, abri minha bolsinha e retirei um terço e comecei a rezar agradecendo a longa caminhada e toda a minha felicidade não cabia na grande metrópole.Ah...como eu estava feliz! Gostaria que todos estivessem presentes naquele momento...mas nem todos estavam presentes, algumas pessoas não estariam lá, pois já tinham partido para outro mundo
     .O carro parou em frente a uma linda faculdade e ouvi a voz do meu irmão: Podem descer e desçam rápido pois terei que estacionar o carro um pouco mais na frente. Paramos e ainda faltavam mais algumas orações para serem rezadas e entre alguns pingos de chuva corremos para dentro da grande festa de formatura.  
     Entramos e logo avistei várias colegas de classe com um brilho nos olhos e entre abraços e beijos fiquei humildemente parada em frente a uma grande janela  observando os pingos da chuva que escorriam pela grande janela.
     Alguns raios e trovões faziam-se presentes e logo fiz uma comparação com aqueles dias de provas difíceis, as saídas rápidas de casa para não perder a aula. Abaixei a cabeça e pensei nos meus pais: José da Silva e Thereza Miranda da Silva e um pouco trémula balbuciei algumas palavras entre algumas lágrimas que desciam pelo meu rosto.
    Repentinamente uma colega de classe tocou o meu braço e disse: Você está feliz Silvinha? Abracei-a e agradeci a todos por estarem presentes naquele momento.
      Entre fotos e lágrimas a chuva continuou a cair e entre abraços e beijos senti-me plenamente feliz e novamente agradeci ao Senhor. Formei-me! Obrigada Senhor! Obrigada a todos que passaram por aquele momento todo especial.Nossa formatura.

28 de set. de 2014

SER FELIZ

      

       Ás vezes não é necessário caminhar muito para ser feliz, basta abrir a janela e observar o nascer do Sol e os primeiros raios solares invadindo seu quarto sem pedir licença e então aprumarmos a alma, despir-nos do pijama e sentar-se ao redor da mesa para degustarmos o nosso café matinal.
        Os sonhos que tivemos durante toda a noite aos poucos vão se diluindo entre a fumaça do aromático café preparado com muito carinho por mamãe que já estava de pé há vários minutos a espera do sorriso dos filhos que entram na cozinha e pedem a benção e sentam-se ao redor da mesa de madeira.
        Após servir o café para todos os filhos pequenos e vê-los comendo o apetitoso pedaço de pão quentinho que tinha acabado de sair do forno encosta o flácido corpo na parede e deixa rolar algumas lágrimas de satisfação e felicidade em ver todos os pequenos serem alimentados.
        Ainda estava faltando alguém ao redor da farta mesa e quando se escuta a porta da cozinha abrindo sorrateiramente surge papai que com o seu sorriso encantador dizendo o alto e sonoro: Bom dia!

        A gurizada se assanha e todos recebem um carinhoso beijo na testa e entre algumas observações sobre a dura semana passada sempre surgia alguma piadinha enaltecendo as alegrias e frustrações do cotidiano. Todos riam e cobriam-se com o manto da Felicidade de um domingo. Domingo de manhã!

20 de set. de 2014

ZEZINHO - O VENDEDOR DE CAFEZINHO



    
    Todos os dias Zezinho acordava bem cedinho e enquanto tomava um banho sentia o aroma agradável de café que sua mãe estava coando no pequeno cômodo de um barraco onde residia com a mãe e mais três irmãos pequenos.

        As dificuldades eram enormes para conseguir alimentos para a pobre família, a mãe era diarista em algumas casas na zona leste e o pequeno Zezinho vendia café na Rua 25 de Março no período da manhã e a tarde voltava para casa para ir para a escola.
        Após colocar as duas enormes garrafas de café em um tabuleiro de madeira rústica dirigia-se até a estação de trem para começar mais um dia de vendedor ambulante na Rua 25 de Março.
        O garoto era muito comunicativo e carismático e no próprio trajeto já ia vendendo alguns cafezinhos para os passageiros e quando descia na estação metrô São Bento pegava a Ladeira Porto Geral e ficava encostado em frente a um shopping e lá ia oferecendo os cafezinhos para todas as pessoas que passavam apressadamente com enormes sacolas entrando e saindo das lojas.
        Salim todos os dias via o garotinho vendendo cafezinho e em um determinado dia resolveu conhecer quem era aquele próspero garotinho falante e sorridente e cautelosamente aproximou-se de Zezinho e disse:
- Parabéns garoto, Qual é o seu nome?
Zezinho esboçou um sorriso tímido e disse:
- Meu nome é Zezinho e estou vendendo cafezinho quentinho que minha mãe preparou para o senhor!
Salim sorriu e pediu um café para Zezinho e enquanto estava bebendo o aromático café disse para Zezinho:
- Você não está com fome? Não quer comer algumas esfias?
Zezinho disse que necessitava terminar de vender todo o café e foi então que Salim disse:
- Quantos cafés falta para você vender?
Não sei.. mas creio que ainda faltam uns vinte cafezinhos!
Salim passou a mão no cabelo de Zezinho e disse:
- Ora Zezinho eu compro os vinte cafezinhos e vamos comer algumas esfias que estou morrendo de fome.
Salim e Zezinho seguiram desviando da lotada multidão da Rua 25 de Março para uma casa Árabe, entraram e sentaram-se em alguns bancos altos e pediram vários tipos de salgados e enquanto os dois comiam os quitutes Salim movido por uma inquietante nostalgia começou a contar os primeiros anos em que chegou ao Brasil:
Sabe Zezinho eu quando era jovem e chegamos aqui nesta terra maravilhosa eu tinha muita vontade de estabelecer-me como um grande comerciante e assim que desembarquei no porto de Santos segui direto para casa de um primo que tinha lojinha aqui na Rua 25 de Março e recebeu-me muito bem e assim comecei a comercializar quase todo o tipo de mercadoria em duas grandes malas que eu carregava com muito esforço pelo interior do estado de São Paulo.
        Vida difícil naquela época porque tinha que bater de casa em casa oferecendo de tudo um pouco, desde canivetes, perfumes, carteiras, cintos e lindos cortes de panos e ainda sofria muito porque não sabia a língua dos brasileiros.
        Zezinho deu mais uma dentada na espiha e perguntou:
- Mas como o senhor fazia para falar com as outras pessoas?
- Ah..(Salim deu um sorriso encantador) e disse:
Eu pedia ajuda para o povo e dizia que estava tudo bem e até podia pagar depois e o povo gostava porque minha mercadoria era muito baratinho e assim eu fui negociando por vários meses e até aconteceu uma história engraçada em um determinado dia eu cheguei em uma casa e a mulher pediu para que eu levasse na próxima visita um radinho e como eu não entendi muito bem levei pra ela um ratinho de pano e ela ficou muito brava e depois sorriu muito e convidou Salim para beber um café e ainda comprou muitos perfumes de Salim.
Notava-se que Zezinho estava encantado com as histórias de Salim e foi então que perguntou:
- Mas amigo, e sua família, você não ficava com muitas saudades?
Os olhos de Salim lacrimejaram e com a voz embargada disse:
- Sabe Zezinho, às vezes eu ia dormir em pequenos quartos das cidades em que eu ia comercializar e meus pensamentos estavam todos na minha terra, nos meus pais, mas tinha que prosseguir e assim entre uma conversa aqui e outra conversa ali conseguia forças para seguir sempre sorrindo embora meu coração sofresse calado de saudades...
        As pessoas que entravam na casa de quitutes observavam a conversa daquele senhor idoso e aquele garotinho que deixava o ancião falar e apenas restringia a ouvir as histórias com muita admiração.
        Zezinho, você está estudando atualmente?
Zezinho balançou a cabeça afirmativamente e balbuciou um sim.
- Tem irmãos, pai, mãe?
- Sim, tenho três irmãozinhos e apenas mamãe.
Onde você mora?
- Moro muito longe daqui, Zona Leste, tenho que pegar o trem todos os dias para vir vender os meus cafezinhos.
Salim disse que gostaria de conhecer a família de Zezinho e foi então que Zezinho sorriu e disse:
- Mas o senhor vai ter que andar de trem, o senhor já andou de trem alguma vez na vida?
Salim riu e disse:
- Mas Zezinho o que eu mais fiz na minha vida foi andar de trem que saia da Estação da Luz com destino as cidades do interior e depois voltava de trem também.
- Senhor Salim, naquela época os trens eram lotados também ou não?
- Não Zezinho, naquela época os trens que seguiam para o interior todos tinham que estar sentados para poder viajar...era muito bom poder observar as paisagens com várias árvores, gados, lindas casinhas na beira da ferrovia..ainda sinto saudades...muitas saudades daquele nostálgico tempo.
As perguntas de Zezinho não cessavam e Salim procurava responder todas as perguntas com muita atenção e foi que repentinamente Zezinho levantou-se do banco em que estava sentado e disse:
- Desculpa-me senhor Salim, mas necessito ir embora senão minha mãe irá ficar muito preocupada com minha ausência.
Salim pagou a conta e saíram conversando até o estacionamento onde Salim pegou o carro e foi levar Zezinho até sua casa para conhecer a família daquele pequeno garoto morador da periferia e assim que chegou à residência a mãe de Zezinho ficou muito espantada e perguntou o que estava acontecendo e foi então que Salim disse:
- Não é nada não, apenas fiz questão de trazer o Zezinho até aqui para conhecê-los melhor e poder oferecer alguma ajuda para vocês caso concordem.
Dona Matilde, mãe do Zezinho não tinha palavras e convidou Salim para entrar e beber uma xícara de café enquanto ouvia mais algumas histórias de Salim.

A partir daquele dia todos os meses Salim fazia questão de levar mantimentos, roupas para as crianças e ajudar aquela pobre família que ficou muito feliz com o bondoso Salim. Um próspero comerciante da Rua 25 de Março.

20 de jul. de 2014

O REENCONTRO

           

           Desci apressadamente as escadas do metrô Sé para embarcar para a Zona Leste da cidade de São Paulo e naquela época às dezoito horas a estação sempre estava lotada de pessoas querendo retornar para casa depois de um árduo dia de trabalho.
         Olhei as enormes filas para comprar o bilhete e optei por uma que parecia um pouco menor que as outras e lá eu fiquei aguardando pacientemente minha vez enquanto terminava de ler um livro entre um olho na página e outro na frenética movimentação de passageiros e barulho das locomotivas chegando e partindo da estação.
         A fila movia-se lentamente e quando chegou minha vez de comprar o bilhete, cheguei bem perto do arrecadador e disse:
- Uma passagem única! E foi quando ouvi o arrecadador dizer:
- Luiz! Quanto tempo! Espera um minutinho que irei sair para dar um abraço em você.
O rapaz saiu do guichê de arrecadação e simplesmente abandonou a fila e veio todo sorridente dizendo:
- Caramba amigão, que saudades! Por onde você anda, lembra-se de mim?
Fiz uma cara de interrogação e respondi nervosamente:
- Não, não lembro de você não, o que quer comigo? De onde nos conhecemos? O rapaz barbudinho sorriu e disse:
- Fomos amigos de classe em 1.971 no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima em Itaquera, lembra-se?
Passei a mão na cabeça e novamente disse:
- Desculpa “amigo” mas não estou lembrando da sua nobre pessoa, que tal entrar para o guichê e vender o bilhete, caso contrário irei a outro guichê.
O rapaz sorriu novamente e disse:
- Meu nome é Marcelo que namorava a Berenice na quarta série do curso ginasial e após alguns meses de namoro com a Berenice você começou a namorá-la deixando eu muito triste, lembra-se agora?
Afastei-me um pouco do Marcelo e meio sem graça disse:
- Claro que lembro, mas tudo já passou e agora nem mais sabemos por anda a Berenice e apertei a mão do antigo aluno da escola.
O rapaz sorriu e disse: A Berenice está em casa, pois ela é minha esposa!
Novamente fiquei muito surpreso e enquanto o Marcelo entrava para o guichê para vender-me o bilhete ainda sobrou tempo de escutarmos dos passageiros apressados: Encontros de velhos amigos!

- Aparece lá em casa para fazermos um churrasco, aqui está o meu cartão! Disse o velho amigo. Enfiei o cartão no bolso traseiro da minha calça e desci rapidamente a escada rolante pensando no reencontro depois de trinta anos. 

8 de jul. de 2014

O CIRCO DA VIDA

           Todos os dias ao abrir a janela do meu trailer avisto a grande lona azul do circo da vida recebendo os primeiros raios de sol e convidando-me para o passeio matutino ao redor do grande terreno destinado a nossa apresentação diária.
         O caminho não é longo e entre um obstáculo e outro vou inalando a suave brisa daquela linda manhã de inverno entre recordações de personagens que passaram pela minha vida e contracenaram comigo embaixo daquela imensa lona azul.
         Algumas galinhas ciscam ao redor dos trailers e o cantar de um galo desperta-me uma saudosa recordação de um personagem que tive o grande prazer de atuar sob a grande lona azul.
         Existem alguns personagens que são convidados a participarem do show da nossa vida e simplesmente sorriem e dizem: Claro que aceito, quando será a estreia?
         Entre sorrisos abraçam-se e caminham vagarosamente até o camarim para prepararem-se para a grande estreia e entram em cena sob aplausos da plateia e após um longo período atuando juntos aquele personagem diz que irá estrear em outro circo.
         Após a última apresentação as cortinas fecham-se, todas as pessoas saem silenciosamente comentando a maravilhosa atuação daquele saudoso personagem, (Acácio), que agora atuará em outra dimensão.

         Todos os dias novos atores estão estreando e sempre ouvindo histórias fantásticas daqueles que partiram e deixaram muitas saudades entre nós. O espetáculo não pode parar, abrem-se as cortinas e ouve-se um novo chorinho dentro da grande lona azul, do circo da vida.

22 de jun. de 2014

SENESCÊNCIA

    

    E quando somos detentores de uma vasta experiência de vida somos convidados a preparar nossa malinha para a morte. Para algumas pessoas até este direito é negado e não há tempo suficiente para despedidas, simplesmente é ceifado o convívio entre os mortais e pronto.
         Mas antes das despedidas a maioria das pessoas conseguem ficar velhas, é como se fosse um preparatório para a passagem para outra vida esta etapa é a mais difícil, pois já não temos mais aquela disposição em encarar a vida com muita naturalidade, os passos tornam-se lentos, a memória começa a dar os primeiros sintomas de esquecimento e toda aquela alegria de outrora fica acanhadamente entre sorrisos em bocas desdentadas.
         As primeiras dores começam a aparecer pelo flácido corpo que insiste em estar ereto, as praias são trocadas por farmácias, os cassinos e puteiros dão lugar aos consultórios médicos e a contabilidade da vida é atualizada diariamente entre pensamentos repletos de nostalgias.
         As missas que outrora eram acompanhadas somente em batizados ou casamentos tornam-se constantes e aquele sentimento de tentar cavar um lugarzinho no céu faz da fé a prioridade do cotidiano.
         A visão um pouco turva requer lentes mais espessas e perder os óculos em um canto qualquer da casa faz parte do todo envelhecimento saudável, feliz é quem tem alguém que possa ajuda-lo nesta árdua tarefa.
         Os banhos são mais demorados e os movimentos bem mais lentos e quando cai o sabonete no chão a única opção é pegar outro sabonete, pois caso opte em agachar corre o sério risco em ficar curvado por bons pares de dias.

         Ao olhar para o espelho e observar tantas rugas traz aquele sentimento de caminho trilhado entre morros e mares em busca da felicidade e a satisfação mistura-se com um sorriso de alegria em receber este troféu dado por Deus. Envelhecer.

20 de jun. de 2014

Simples, Alegre e Inteligente

   
Andando por este mundo de vez em quando tropeçamos com pessoas de todo o tipo e às vezes temos sorte em encontrar pessoas que conseguem nos cativar pelo sorriso e pelas primeiras palavras.
       Levantei-me as duas horas da manhã com uma vontade enorme de beber algumas cervejas em um quiosque na praia do Perequê-Açu em Ubatuba, São Paulo, Brasil.
       A princípio não haveria a necessidade de ir até o quiosque, pois eu já tinha passado o dia todo naquela mesma praia vendendo sorvetes, mas algo impulsionava a minha ida para conversar com pessoas jamais vistas, respirar o delicioso ar da madrugada e receber a maravilhosa brisa vinda do mar.
       Em poucos minutos coloquei-me em pé e fui caminhando pela rua deserta pensando nas novas amizades feitas na praia e às vezes ria alto de alguma piada que eu escutara entre a venda de um picolé e outro.
       Cheguei sorrateiramente no quiosque e logo fui saudado pelo Rodrigo, um dos sócios do quiosque que disse:
- Caramba Luiz, isto é que é gostar de praia! Acabou de sair daqui agora a pouco e já está de volta?
Sorri amigavelmente, balancei a cabeça e respondi:
- Pois é Rodrigo, senti falta do barulho das ondas e como não conseguia dormir vim aqui para ver o amanhecer do dia enquanto degusto algumas porções de camarão e algumas cervejas bem geladas.
       Não foi necessário mais nenhuma palavra, o Rodrigo afastou uma cadeira e disse:
- Pode sentar amigo, hoje você encontrará duas pessoas muito especiais assim como você.
       Não demorou muito e a cerveja já estava servida em um copo decorado com o logo do quiosque e eu com os olhos perdidos no mar a imaginar os pescadores que já estavam se preparando para colocar os barcos no mar e entre um gole e outro eu olhava o quiosque totalmente vazio, alguns galos a cantar ao longe e o Rodrigo sempre dizendo que as pessoas especiais já estavam chegando.
       Repentinamente entrou um casal no quiosque e foram saudar o proprietário Rodrigo e depois de vários abraços e sorrisos caminharam em direção a mesa em que eu estava sendo servido e o Rodrigo disse:
- Ai está Luiz, estas duas pessoas são as mais raras que conheci ao longo dos meus dez anos de praia. Cumprimentamo-nos e o casal sentou-se educadamente ao meu lado e apresentaram-se:
Mayara e Luigi eram casados e não moravam no Brasil, eram italianos e uma vez por ano faziam questão de reservar um mês para passear pelas belas praias brasileiras e Ubatuba sempre estava no roteiro dos dois.
       Fiquei um pouco apreensivo com os dois e quando acabamos de nos apresentar, Mayara levantou-se e deu um abraço bem apertado em mim e assim procedeu o Luigi que disse:
- Se vocês soubessem como gostamos de vocês, é algo inexplicável!
E eu perguntei: O que vocês mais gostam da gente, de nós brasileiros?
Luigi pediu licença e disse: Da maneira espontânea de fazer amizade, do sorriso, da alegria, do gingado, da maneira como somos tratados em todos os lugares por onde passamos por aqui, do clima.
       Sutilmente perguntei o que eles faziam da vida, se trabalhavam ou simplesmente passeavam pelo mundo e a resposta veio da voz pausada e um pouco rouca da nova amiga Mayara.
- Sabe Luiz, trabalhamos em um asilo, com pessoas que estão nos seus últimos momentos entre nós e adoramos aquilo que fazemos.
Foi então que nossa porção de camarão chegou e eu perguntei:
Sim, entendo perfeitamente, mas o que vocês fazem neste asilo?
- Somos voluntários, somos médicos e nossa missão é atender todos com muito carinho e amor e os olhos de Mayara lacrimejaram momentaneamente.
       Então eu estava diante de dois médicos e aproveitei o momento e pedi licença para contar uma piada de médicos e ambos balançaram a cabeça positivamente e após o término da piada ríamos muito e Mayara disse:
- É isto que nos leva a gostar de vocês: A alegria, o sorriso leve e solto esparramado por onde anda, pessoas simples e de bem com a vida, exalando bem estar e sem neuras.
       Contei um bom pedaço da minha vida e ficaram encantados em saber que eu era apenas um simples vendedor de sorvetes na praia, sabia falar inglês e adorava a madrugada, ver o raiar do Sol e conhecer novas pessoas.
       Ouvi calado entre um gole de cerveja e outro um pouco da vida dos meus novos amigos e levantamo-nos para apreciar o raiar do Sol que naquele exato momento já estava começando a aparecer no horizonte.
       Demos as mãos e rezamos a Deus agradecendo aquele momento sublime que nos dera de presente e após alguns minutos calados e encantados com rara beleza voltamos a nossa mesa e foi quando eu disse que iria embora e o Luigi disse:
- Mas Luiz, já vai? Gostaríamos de convidá-lo a mostrar algumas praias que você conhece, ficaríamos encantados com sua presença entre nós!
Esbocei um sorriso de satisfação e alegria e aceitei o convite e após nos despedirmos do Rodrigo caminhamos até o Trailer em que eles estavam dirigindo por Ubatuba e fomos conhecer novas praias durante duas semanas repletas de alegria, conforto, simplicidade.

Uma bela amizade feita na simplicidade de uma noite em um quiosque entre muitos risos e alegria de viver: Viver com pessoas simples, alegres e inteligentes assim como Mayara e Luigi. Obrigado amigos!