23 de jan. de 2015

O GUARDA-CHUVA




         



           Todas as vezes que chove em me lembro de você e ainda tenho aquele lindo guarda-chuva cor de rosa que você me deu naquele dia que sai de casa em busca de um abrigo. O tempo passou e fiz questão de guardar o guarda-chuva no meu velho guarda-roupa do meu quarto e todas às vezes que abro a porta do mesmo sinto uma saudade imensa de você.
           O tempo passou e hoje estou internado em um asilo, sozinho, rodeado de muitas árvores e muita solidão a espera de uma visita sua, todos os dias ao entardecer fico horas na frente do portão esperando sua presença que nunca acontece. 
         Outro dia começou a chover e eu retirei carinhosamente o guarda-chuva do guarda-roupa e fui até o portão esperá-la e como chovia muito o enfermeiro veio e perguntou quem eu estava esperando e quando eu disse que era você, ele sorriu carinhosamente, passou o braço sobre o meu ombro e pediu que eu entrasse pois ninguem viria visitar-me naquele dia tão chuvoso.                 Entrei silenciosamente e fui direto para o meu quarto e fiquei olhando a sua foto que fiz questão de colocá-la na parede para lembrar dos momentos felizes que passamos juntos .Talvez hoje você até esteja casada morando em outro país, muito feliz ao lado de seu marido e lindos filhos e até tenha esquecido da minha pessoa, mas saiba que jamais esqueci você.
           As pessoas por aqui são muito atenciosas comigo e na hora do almoço quando a comida é servida  faço questão de amassar todos os grãos de feijão e levar a colher a boca vagarosamente assim como fazia para alimentá-la quando você era apenas uma garotinha.
           Outro dia eu estava sentado em um banco do jardim do asilo quando avistei uma garotinha andando de bicicleta pela calçada na frente do asilo e imediatamente veio a doce lembrança de quando a ensinei a andar de bicicleta no Parque Brasil, lembra-se? 
            As alegrias por aqui resumem-se em folhear meus livros que escrevi diversas crônicas relatando os sublimes momentos vividos ao seu lado, fico horas lendo as crônicas embaixo de uma frondosa árvore, fecho-o, algumas lágrimas correm pelo meu enrugado rosto e entro para jantar e juntar-se com minha amiga solidão. Fecho os olhos e sonho com você e repentinamente sou acordado pelo enfermeiro dizendo que tenho uma visita e quando abro os olhos vejo você a minha frente sorridente trazendo um lindo buquê de flores. Entre abraços e lágrimas fecho novamente meus olhos e volto a dormir o sono eterno.




19 de dez. de 2014

A FORMATURA

   


   
 A chuva no dia da minha formatura começou cedo, muito cedo e entre abraços e beijos entrei no carro do meu irmão Robson entre alguns pingos que insistiam em molhar meu lindo vestido de formatura.
      A primeira marcha foi engatada e entre vários faróis vermelhos e verdes minha alma estava muita branda e meus olhos um pouco lacrimejados de emoção pelo momento único da minha vida. 
    Sentei-me delicadamente no banco traseiro do carro, abri minha bolsinha e retirei um terço e comecei a rezar agradecendo a longa caminhada e toda a minha felicidade não cabia na grande metrópole.Ah...como eu estava feliz! Gostaria que todos estivessem presentes naquele momento...mas nem todos estavam presentes, algumas pessoas não estariam lá, pois já tinham partido para outro mundo
     .O carro parou em frente a uma linda faculdade e ouvi a voz do meu irmão: Podem descer e desçam rápido pois terei que estacionar o carro um pouco mais na frente. Paramos e ainda faltavam mais algumas orações para serem rezadas e entre alguns pingos de chuva corremos para dentro da grande festa de formatura.  
     Entramos e logo avistei várias colegas de classe com um brilho nos olhos e entre abraços e beijos fiquei humildemente parada em frente a uma grande janela  observando os pingos da chuva que escorriam pela grande janela.
     Alguns raios e trovões faziam-se presentes e logo fiz uma comparação com aqueles dias de provas difíceis, as saídas rápidas de casa para não perder a aula. Abaixei a cabeça e pensei nos meus pais: José da Silva e Thereza Miranda da Silva e um pouco trémula balbuciei algumas palavras entre algumas lágrimas que desciam pelo meu rosto.
    Repentinamente uma colega de classe tocou o meu braço e disse: Você está feliz Silvinha? Abracei-a e agradeci a todos por estarem presentes naquele momento.
      Entre fotos e lágrimas a chuva continuou a cair e entre abraços e beijos senti-me plenamente feliz e novamente agradeci ao Senhor. Formei-me! Obrigada Senhor! Obrigada a todos que passaram por aquele momento todo especial.Nossa formatura.

28 de set. de 2014

SER FELIZ

      

       Ás vezes não é necessário caminhar muito para ser feliz, basta abrir a janela e observar o nascer do Sol e os primeiros raios solares invadindo seu quarto sem pedir licença e então aprumarmos a alma, despir-nos do pijama e sentar-se ao redor da mesa para degustarmos o nosso café matinal.
        Os sonhos que tivemos durante toda a noite aos poucos vão se diluindo entre a fumaça do aromático café preparado com muito carinho por mamãe que já estava de pé há vários minutos a espera do sorriso dos filhos que entram na cozinha e pedem a benção e sentam-se ao redor da mesa de madeira.
        Após servir o café para todos os filhos pequenos e vê-los comendo o apetitoso pedaço de pão quentinho que tinha acabado de sair do forno encosta o flácido corpo na parede e deixa rolar algumas lágrimas de satisfação e felicidade em ver todos os pequenos serem alimentados.
        Ainda estava faltando alguém ao redor da farta mesa e quando se escuta a porta da cozinha abrindo sorrateiramente surge papai que com o seu sorriso encantador dizendo o alto e sonoro: Bom dia!

        A gurizada se assanha e todos recebem um carinhoso beijo na testa e entre algumas observações sobre a dura semana passada sempre surgia alguma piadinha enaltecendo as alegrias e frustrações do cotidiano. Todos riam e cobriam-se com o manto da Felicidade de um domingo. Domingo de manhã!

20 de set. de 2014

ZEZINHO - O VENDEDOR DE CAFEZINHO



    
    Todos os dias Zezinho acordava bem cedinho e enquanto tomava um banho sentia o aroma agradável de café que sua mãe estava coando no pequeno cômodo de um barraco onde residia com a mãe e mais três irmãos pequenos.

        As dificuldades eram enormes para conseguir alimentos para a pobre família, a mãe era diarista em algumas casas na zona leste e o pequeno Zezinho vendia café na Rua 25 de Março no período da manhã e a tarde voltava para casa para ir para a escola.
        Após colocar as duas enormes garrafas de café em um tabuleiro de madeira rústica dirigia-se até a estação de trem para começar mais um dia de vendedor ambulante na Rua 25 de Março.
        O garoto era muito comunicativo e carismático e no próprio trajeto já ia vendendo alguns cafezinhos para os passageiros e quando descia na estação metrô São Bento pegava a Ladeira Porto Geral e ficava encostado em frente a um shopping e lá ia oferecendo os cafezinhos para todas as pessoas que passavam apressadamente com enormes sacolas entrando e saindo das lojas.
        Salim todos os dias via o garotinho vendendo cafezinho e em um determinado dia resolveu conhecer quem era aquele próspero garotinho falante e sorridente e cautelosamente aproximou-se de Zezinho e disse:
- Parabéns garoto, Qual é o seu nome?
Zezinho esboçou um sorriso tímido e disse:
- Meu nome é Zezinho e estou vendendo cafezinho quentinho que minha mãe preparou para o senhor!
Salim sorriu e pediu um café para Zezinho e enquanto estava bebendo o aromático café disse para Zezinho:
- Você não está com fome? Não quer comer algumas esfias?
Zezinho disse que necessitava terminar de vender todo o café e foi então que Salim disse:
- Quantos cafés falta para você vender?
Não sei.. mas creio que ainda faltam uns vinte cafezinhos!
Salim passou a mão no cabelo de Zezinho e disse:
- Ora Zezinho eu compro os vinte cafezinhos e vamos comer algumas esfias que estou morrendo de fome.
Salim e Zezinho seguiram desviando da lotada multidão da Rua 25 de Março para uma casa Árabe, entraram e sentaram-se em alguns bancos altos e pediram vários tipos de salgados e enquanto os dois comiam os quitutes Salim movido por uma inquietante nostalgia começou a contar os primeiros anos em que chegou ao Brasil:
Sabe Zezinho eu quando era jovem e chegamos aqui nesta terra maravilhosa eu tinha muita vontade de estabelecer-me como um grande comerciante e assim que desembarquei no porto de Santos segui direto para casa de um primo que tinha lojinha aqui na Rua 25 de Março e recebeu-me muito bem e assim comecei a comercializar quase todo o tipo de mercadoria em duas grandes malas que eu carregava com muito esforço pelo interior do estado de São Paulo.
        Vida difícil naquela época porque tinha que bater de casa em casa oferecendo de tudo um pouco, desde canivetes, perfumes, carteiras, cintos e lindos cortes de panos e ainda sofria muito porque não sabia a língua dos brasileiros.
        Zezinho deu mais uma dentada na espiha e perguntou:
- Mas como o senhor fazia para falar com as outras pessoas?
- Ah..(Salim deu um sorriso encantador) e disse:
Eu pedia ajuda para o povo e dizia que estava tudo bem e até podia pagar depois e o povo gostava porque minha mercadoria era muito baratinho e assim eu fui negociando por vários meses e até aconteceu uma história engraçada em um determinado dia eu cheguei em uma casa e a mulher pediu para que eu levasse na próxima visita um radinho e como eu não entendi muito bem levei pra ela um ratinho de pano e ela ficou muito brava e depois sorriu muito e convidou Salim para beber um café e ainda comprou muitos perfumes de Salim.
Notava-se que Zezinho estava encantado com as histórias de Salim e foi então que perguntou:
- Mas amigo, e sua família, você não ficava com muitas saudades?
Os olhos de Salim lacrimejaram e com a voz embargada disse:
- Sabe Zezinho, às vezes eu ia dormir em pequenos quartos das cidades em que eu ia comercializar e meus pensamentos estavam todos na minha terra, nos meus pais, mas tinha que prosseguir e assim entre uma conversa aqui e outra conversa ali conseguia forças para seguir sempre sorrindo embora meu coração sofresse calado de saudades...
        As pessoas que entravam na casa de quitutes observavam a conversa daquele senhor idoso e aquele garotinho que deixava o ancião falar e apenas restringia a ouvir as histórias com muita admiração.
        Zezinho, você está estudando atualmente?
Zezinho balançou a cabeça afirmativamente e balbuciou um sim.
- Tem irmãos, pai, mãe?
- Sim, tenho três irmãozinhos e apenas mamãe.
Onde você mora?
- Moro muito longe daqui, Zona Leste, tenho que pegar o trem todos os dias para vir vender os meus cafezinhos.
Salim disse que gostaria de conhecer a família de Zezinho e foi então que Zezinho sorriu e disse:
- Mas o senhor vai ter que andar de trem, o senhor já andou de trem alguma vez na vida?
Salim riu e disse:
- Mas Zezinho o que eu mais fiz na minha vida foi andar de trem que saia da Estação da Luz com destino as cidades do interior e depois voltava de trem também.
- Senhor Salim, naquela época os trens eram lotados também ou não?
- Não Zezinho, naquela época os trens que seguiam para o interior todos tinham que estar sentados para poder viajar...era muito bom poder observar as paisagens com várias árvores, gados, lindas casinhas na beira da ferrovia..ainda sinto saudades...muitas saudades daquele nostálgico tempo.
As perguntas de Zezinho não cessavam e Salim procurava responder todas as perguntas com muita atenção e foi que repentinamente Zezinho levantou-se do banco em que estava sentado e disse:
- Desculpa-me senhor Salim, mas necessito ir embora senão minha mãe irá ficar muito preocupada com minha ausência.
Salim pagou a conta e saíram conversando até o estacionamento onde Salim pegou o carro e foi levar Zezinho até sua casa para conhecer a família daquele pequeno garoto morador da periferia e assim que chegou à residência a mãe de Zezinho ficou muito espantada e perguntou o que estava acontecendo e foi então que Salim disse:
- Não é nada não, apenas fiz questão de trazer o Zezinho até aqui para conhecê-los melhor e poder oferecer alguma ajuda para vocês caso concordem.
Dona Matilde, mãe do Zezinho não tinha palavras e convidou Salim para entrar e beber uma xícara de café enquanto ouvia mais algumas histórias de Salim.

A partir daquele dia todos os meses Salim fazia questão de levar mantimentos, roupas para as crianças e ajudar aquela pobre família que ficou muito feliz com o bondoso Salim. Um próspero comerciante da Rua 25 de Março.

20 de jul. de 2014

O REENCONTRO

           

           Desci apressadamente as escadas do metrô Sé para embarcar para a Zona Leste da cidade de São Paulo e naquela época às dezoito horas a estação sempre estava lotada de pessoas querendo retornar para casa depois de um árduo dia de trabalho.
         Olhei as enormes filas para comprar o bilhete e optei por uma que parecia um pouco menor que as outras e lá eu fiquei aguardando pacientemente minha vez enquanto terminava de ler um livro entre um olho na página e outro na frenética movimentação de passageiros e barulho das locomotivas chegando e partindo da estação.
         A fila movia-se lentamente e quando chegou minha vez de comprar o bilhete, cheguei bem perto do arrecadador e disse:
- Uma passagem única! E foi quando ouvi o arrecadador dizer:
- Luiz! Quanto tempo! Espera um minutinho que irei sair para dar um abraço em você.
O rapaz saiu do guichê de arrecadação e simplesmente abandonou a fila e veio todo sorridente dizendo:
- Caramba amigão, que saudades! Por onde você anda, lembra-se de mim?
Fiz uma cara de interrogação e respondi nervosamente:
- Não, não lembro de você não, o que quer comigo? De onde nos conhecemos? O rapaz barbudinho sorriu e disse:
- Fomos amigos de classe em 1.971 no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima em Itaquera, lembra-se?
Passei a mão na cabeça e novamente disse:
- Desculpa “amigo” mas não estou lembrando da sua nobre pessoa, que tal entrar para o guichê e vender o bilhete, caso contrário irei a outro guichê.
O rapaz sorriu novamente e disse:
- Meu nome é Marcelo que namorava a Berenice na quarta série do curso ginasial e após alguns meses de namoro com a Berenice você começou a namorá-la deixando eu muito triste, lembra-se agora?
Afastei-me um pouco do Marcelo e meio sem graça disse:
- Claro que lembro, mas tudo já passou e agora nem mais sabemos por anda a Berenice e apertei a mão do antigo aluno da escola.
O rapaz sorriu e disse: A Berenice está em casa, pois ela é minha esposa!
Novamente fiquei muito surpreso e enquanto o Marcelo entrava para o guichê para vender-me o bilhete ainda sobrou tempo de escutarmos dos passageiros apressados: Encontros de velhos amigos!

- Aparece lá em casa para fazermos um churrasco, aqui está o meu cartão! Disse o velho amigo. Enfiei o cartão no bolso traseiro da minha calça e desci rapidamente a escada rolante pensando no reencontro depois de trinta anos. 

8 de jul. de 2014

O CIRCO DA VIDA

           Todos os dias ao abrir a janela do meu trailer avisto a grande lona azul do circo da vida recebendo os primeiros raios de sol e convidando-me para o passeio matutino ao redor do grande terreno destinado a nossa apresentação diária.
         O caminho não é longo e entre um obstáculo e outro vou inalando a suave brisa daquela linda manhã de inverno entre recordações de personagens que passaram pela minha vida e contracenaram comigo embaixo daquela imensa lona azul.
         Algumas galinhas ciscam ao redor dos trailers e o cantar de um galo desperta-me uma saudosa recordação de um personagem que tive o grande prazer de atuar sob a grande lona azul.
         Existem alguns personagens que são convidados a participarem do show da nossa vida e simplesmente sorriem e dizem: Claro que aceito, quando será a estreia?
         Entre sorrisos abraçam-se e caminham vagarosamente até o camarim para prepararem-se para a grande estreia e entram em cena sob aplausos da plateia e após um longo período atuando juntos aquele personagem diz que irá estrear em outro circo.
         Após a última apresentação as cortinas fecham-se, todas as pessoas saem silenciosamente comentando a maravilhosa atuação daquele saudoso personagem, (Acácio), que agora atuará em outra dimensão.

         Todos os dias novos atores estão estreando e sempre ouvindo histórias fantásticas daqueles que partiram e deixaram muitas saudades entre nós. O espetáculo não pode parar, abrem-se as cortinas e ouve-se um novo chorinho dentro da grande lona azul, do circo da vida.

22 de jun. de 2014

SENESCÊNCIA

    

    E quando somos detentores de uma vasta experiência de vida somos convidados a preparar nossa malinha para a morte. Para algumas pessoas até este direito é negado e não há tempo suficiente para despedidas, simplesmente é ceifado o convívio entre os mortais e pronto.
         Mas antes das despedidas a maioria das pessoas conseguem ficar velhas, é como se fosse um preparatório para a passagem para outra vida esta etapa é a mais difícil, pois já não temos mais aquela disposição em encarar a vida com muita naturalidade, os passos tornam-se lentos, a memória começa a dar os primeiros sintomas de esquecimento e toda aquela alegria de outrora fica acanhadamente entre sorrisos em bocas desdentadas.
         As primeiras dores começam a aparecer pelo flácido corpo que insiste em estar ereto, as praias são trocadas por farmácias, os cassinos e puteiros dão lugar aos consultórios médicos e a contabilidade da vida é atualizada diariamente entre pensamentos repletos de nostalgias.
         As missas que outrora eram acompanhadas somente em batizados ou casamentos tornam-se constantes e aquele sentimento de tentar cavar um lugarzinho no céu faz da fé a prioridade do cotidiano.
         A visão um pouco turva requer lentes mais espessas e perder os óculos em um canto qualquer da casa faz parte do todo envelhecimento saudável, feliz é quem tem alguém que possa ajuda-lo nesta árdua tarefa.
         Os banhos são mais demorados e os movimentos bem mais lentos e quando cai o sabonete no chão a única opção é pegar outro sabonete, pois caso opte em agachar corre o sério risco em ficar curvado por bons pares de dias.

         Ao olhar para o espelho e observar tantas rugas traz aquele sentimento de caminho trilhado entre morros e mares em busca da felicidade e a satisfação mistura-se com um sorriso de alegria em receber este troféu dado por Deus. Envelhecer.