14 de mar. de 2012

MEU ANJO DA GUARDA NA PENSÃO

           Pensão é o único lugar do mundo onde você entra e seu anjo da guarda fica sentado na calçada. Então você convida-o para entrar e ele diz:
- Você tá doido entrar neste lugar! Entra você e se por acaso você estiver em perigo é só dar um grito que eu entro correndo pra te ajudar! Afinal sou o seu anjo da guarda e minha missão é ajudá-lo, a protegê-lo, mas desculpe-me amigão desta vez você vai sozinho, estou com o saco cheio de você se meter em várias enrascadas e sobrar pra mim. Chega!
           E então lá vou eu com algumas roupas, com o coração apertado e logo sou conduzido ao meu quarto que o administrador apresenta várias beliches e apenas uma cama e diz:
- Olha Sr.Luiz, pode ficar com esta cama, pois a mesma está vaga e aqui temos um armarinho para colocar suas roupas, lá fora tem uma cozinha e se o Senhor quiser fazer algum miojo fique bem à vontade. Ah, esqueci, temos dois banheiros. Um para o pessoal daqui de baixo e outro lá em cima para o pessoal dos quartos de cima.  Entendido? Ah, ia esquecendo-me: É terminantemente proibido entrar mulher, a não ser aquelas que moram aqui. Boa noite!
            Fechou violentamente a porta e saiu e eu fiquei lá largado entre alguns pensionistas que estavam dormindo e roncavam muito. Sentei-me na cama e fiquei olhando minha sacolinha com algumas roupas, um pequeno livro de poesia e deu uma vontade muito grande de gritar para meu anjo da guarda, mas fui forte e abri vagarosamente o armarinho e comecei a dispor minhas peças de roupas silenciosamente, pois era necessário não fazer barulho, pois se acordasse os pensionistas não saberia qual seria a reação dos mesmos e aí sim teria que chamar meu anjo da guarda que ainda estava sentado na calçada. Ingrato, não iria mais rezar para ele, estávamos com nossas relações de amizade interrompidas!
          Separei uma toalha carcomida, um pequeno pedaço de sabonete e fui tomar um banho antes de deitar-me, entrei olhando para todos os lugares e abri o chuveiro e comecei a banhar-me sob grande reflexão e após cinco minutos e quando eu estava totalmente cheio de sabão pelo  corpo, inesperadamente a água foi interrompida, não havia mais água no chuveiro. Novamente tive vontade de gritar para meu anjo da guarda, mas não podia dar o braço a torcer, então me enrolei na toalha e fui falar com o Administrador que a água havia acabado e ele disse com um sorriso amarelo:
- Olha amigo, a água não acabou não, esqueci de dizer pra você que todos os pensionistas têm apenas cinco minutos para tomar um banho e apenas um e se não conseguir tomar o banho neste tempo a mesma é interrompida através de um “timer” que interrompe o banho automaticamente! E eu com uma cara de espantado balancei a cabeça humildemente e fui para o meu quarto joguei-me na cama com uma vontade muito grande de chorar.
            Quando já estava quase dormindo na cama, acendeu a luz do quarto e apareceu um homem magro com uma cara de zangado e parecia que estava um pouco embriagado e disse:
- Esta cama é minha, o que você está fazendo aí? E eu levantei-me espantado tentei explicar a ele que tinha sido o Administrador que tinha pedido para eu ficar com aquela cama. Ele saiu nervosamente e foi falar com o administrador e eu fiquei sentado na cama aguardando o desenrolar do acontecimento com uma cara de muito medo. Imediatamente chegou o administrador e pediu gentilmente para eu mudar de lugar e ir para um beliche, pois aquele senhor estava ausente da pensão fazia umas três semanas e ele pensou que o mesmo tinha ido embora, mas voltou.
          Lentamente fui para o beliche e deitei-me com um certo receio daquele “caboclo” e não tive dúvida: Chamei meu anjo da guarda que imediatamente apareceu com um belo sorriso no rosto e disse:
- Eu sabia que você não ficaria sem minha proteção! O que está acontecendo? E eu disse:
- Pô anjo, tá acontecendo coisas incríveis, dá uma forcinha, fica comigo esta noite até passar este medo e amanhã se você quiser pode ir embora. Então meu anjo da guarda aproximou-se, deu um forte abraço em mim e disse:
- Pode dormir Luiz, que fico aqui ao lado do seu beliche protegendo você, não tenha medo!
E assim adormeci sob a proteção do meu querido anjo da guarda que nunca mais me abandonou durante alguns meses que fiquei naquela pensão e até hoje me acompanha, mas sempre de olho nas minhas atitudes e diante de qualquer deslize ele vai sentar-se na calçada novamente. Estamos nos entendendo perfeitamente depois desta lição da pensão. 

12 de mar. de 2012

O LANCHE

          E lá no curso primário na década de 60, a escola não fornecia absolutamente nada aos seus alunos, a não ser um estudo de qualidade com professores que adoravam lecionar e eram muitos rígidos, a palmatória já tinha sido abolida, mas lembro-me de uma professora que faço questão de não lembrar o nome, pois ela tinha um enorme anel que devia ser da formatura e era este anel que “cantava” direto na nossa cabeça quando nós cometíamos algumas travessuras. Falava um pouquinho mais alto e toma “anelsada” e de tanto bater na minha cabeça com aquele “maldito” anel consegui terminar meu curso primário com vários caroços na cabeça, mas com louvor e participando de um grupo de teatro amador da escola.
         Mas de todas as lembranças que guardo até hoje era da hora do recreio, quando escutávamos o sinal anunciando o recreio, levantávamos silenciosamente, sempre de olho no imponente anel da Mestra e saíamos muito silenciosamente com nossas lancheiras.
         Descia as escadas com a cabeça ardendo de tanto levar anelsada com a lancheira colada no corpo e sentava-me num
enorme banco do pátio e entre alguns olhares de amiguinhos que adoravam meu lanche e queriam trocar alguns pedaços do meu delicioso lanche.
         A simplicidade de colocar alguns ovos, misturar com alguns tomates e colocar no pão fascinava-me e estava preparado meu delicioso lanche que eu tanto adorava.
          Foram quatro anos do curso primário e acredito que devo ter levado pelo menos uns três dias da semana pão com ovo e tomate e um suco de laranja tipo K-Suco.
          Quando mamãe estava preparando meu lanche sentia um pouco de vergonha em levar aquele lanchinho, pois meus amiguinhos levavam pão de forma, queijo, presunto e eu com aquele lanchinho, mas o mesmo era colocado na lancheira e lá ia eu para escola, afinal era o que tínhamos.
           Hoje, passados cinqüenta anos, de vez em quando tento fazer este mesmo lanche pra minha netinha e ela diz:
- Nossa vovô, que delícia!
E eu morrendo de vergonha pergunto:
- Você acha gostoso?
E ela diz: - É melhor que o lanche da Padaria!
Tento explicar a ela que foi quando eu estudava no curso primário e sempre ela pede para eu fazer um lanchinho igual pra levar pra escolinha, mas não faço e digo a ela que na escola tem lanche muito melhor e ela diz:
- Não tem vovô, este lanche é o melhor lanche do Mundo!
Emociono-me e vamos para a escola com o delicioso gostinho do lanche na boca.
            O tempo passou, a receita ficou: Pão com ovo e tomate! Delícia! Bela recordação dos tempos que não voltam mais, mas ainda temos ovos, tomates e pão, então vamos fazer um lanchinho? Coisa de pobre? Imagina, são recordações de momentos inesquecíveis! rsrsrsrs

MÓVEIS VELHOS


          E num determinado dia não há escapatória, há que jogar aquele móvel velho no lixo, às vezes dá uma dorzinha no coração, não pelo valor financeiro, mas por aquele sentimento de aquele móvel ter tanto ajudado à gente a vida toda e de repente somos obrigados a abandonar nosso velho móvel.
         Exatamente agora estou passando por uma experiência de ter que jogar um guarda-roupa de madeira maciça que comprei em 1.987 e vou dizer uma coisa, é muito triste dispensar um guarda- roupa que tanto guardou minhas belas camisas e calças bem passadas pela patroa, roupas das crianças e da patroa, mas quis assim pela ordem do cupim que o mesmo fosse dispensado.
       As lembranças de uma bela época ecoam pela minha mente e jamais pensei que esta árdua tarefa sobraria para minha pessoa.
       Lá está abandonado no portão o guarda-roupa aguardando o “Cata-Treco” vir buscá-lo para tomar um destino ignorado e totalmente desmanchado sem poder ter uma despedida de honra e se ele pudesse falar o diálogo seria mais ou menos assim:
- Pô Luiz, que falta de consideração!
- Mas amigo, sinto muito em ter que jogá-lo fora, mas você está velhinho e cheio de cupim!
- Ah, legal então quer dizer que quando você ficar velhinho, e olha que não falta muito, iremos deixar você no portão para o “Cata-Treco”?
- Mas eu sou humano e você é apenas madeira!
- Qual a diferença, de onde viemos?
- Mas quanto questionamento, chega de conversa e fica quietinho aqui que logo o “Bola Sete! Virá pegar você, entendeu?
        Abandonei o velho guarda-roupa na porta e sai correndo para dentro de casa e sentei-me preocupadamente no sofá tentando achar uma resposta para o mesmo sob uma forte chuva que caia lá fora.
        O barulho da buzina de um caminhão, o mesmo sendo carregado por homens fortes, a chuva caindo e eu sempre pensando como é difícil ser abandonado na velhice, mesmo que seja um guarda-roupa.
- Obrigado guarda-roupa! Desculpe-me ter que jogá-lo fora, pois se faz mister desocupar espaço para que as crianças brinquem! Você entende, não é?
- Ah, claro, se é para dar espaço para uma criança brincar eu me arranjo em qualquer lugar! Está desculpado, a gente se vê num outro lugar, talvez num asilo! rsrsrsrs

11 de mar. de 2012

AGRADECIMENTO

           Tudo começou como uma brincadeira e como gosto muito de contar algumas histórias, certo dia minha sobrinha Samantha disse: Pô tio, porque que o senhor não cria um blog e começa a contar estas histórias maravilhosas que o senhor conta pra nós.
          Naquele momento não foi possível montar o blog, pois não possuía um microcomputador e ficava imaginando eu criando um blog e ter que ir até a Lan-House para postar minhas crônicas, seria muito hilário, então resolvi postergar até o dia que conseguisse comprar um Micro.
         Trabalhava de porteiro num Parque Público na cidade onde moro e até que surgiu a oportunidade de comprar um micro usado da querida colega de trabalho Célia que vendeu o micro para eu pagar em três vezes. Que alegria! Só que o microcomputador sem a Internet é a mesma coisa como casamento sem lua de mel. E assim lá ficava o micro abandonado numa mesinha sem nenhuma utilidade, até que conseguimos instalar a internet e a partir deste dia nossa vida teve uma grande transformação.
        Cheguei do serviço cansadíssimo e resolvi montar o tal do blog e “fuçando” daqui, “fuçando” Dalí consegui montar o blog e imediatamente postei as primeiras crônicas que já estavam escritas e a partir deste dia postava algumas crônicas sem grandes pretensões que alguém tivesse a coragem de lê-las, apenas como um arquivo para que posteriormente após minha morte, alguém pudesse ter alguma recordação deste pobre moribundo.
        Mas quis o destino que algumas pessoas começaram a ler as tais crônicas e comecei a gostar de saber que existia alguém que se atravesse a perder preciosos segundos da vida em ler as minhas pífias crônicas.
       Hoje, após alguns meses, consegui postar umas sessenta crônicas, muitas delas falando do meu cotidiano de agora e de tempos atrás e sinceramente não tenho muito definido quem são meus leitores, apenas sei através de alguns comentários que chegam esporadicamente que tenho alguns fiéis leitores que são meus irmãos e alguns parentes e outros que talvez leiam por ler.
       Mas é muito gratificante saber que alguém em qualquer parte deste planeta de vez em quando da uma “espiada” naquilo que vivemos e estamos vivendo.
       Gostaria de agradecer a todos os “Meus Leitores” de coração os acessos ao meu blog que neste mês ultrapassou os cinco mil acessos, pouco, muito pouco se compararmos com outros blogs profissionais, mas para as minhas pretensões é muito, pois sou apenas um “escrevinhador” da periferia e jamais quero lucrar com minhas pífias Historinhas, apenas que todos vocês que lêem continuem a ler, pois minha intenção é em breve editar um livro e distribuir a todos que lêem e continuam a ler o meu blog.
         Obrigado leitor do meu blog lucasicom.blogspot.com, somente vocês para proporcionar grande     prazer e alavancar ainda mais minha vontade de contar a cada dia que passa mais “causos” deste andante do Mundo. Um beijo enorme no coração de todos! Muito Obrigado!

6 de mar. de 2012

FESTA NO CÉU


        A temperatura estava amena, eram várias pessoas esperando a vez de ser recepcionado pelo porteiro que tinha um semblante calmo e sereno e todos estavam felizes por estarem naquele lugar. A cordialidade entre as pessoas que estavam na fila fazia-se presente. Não havia pressa e todos falavam baixinho para não atrapalhar o porteiro que parecia estar um pouco preocupado, pois naquele dia chegaram várias pessoas e a comissão de recepção estava aguardando feliz os novos moradores daquele local do lado de dentro sentados num banco ao redor de um lindo gramado com flores e pássaros e após uma longa espera foi a vez daquele senhor com um sorriso angelical no rosto, aproximou-se e cordialmente disse:
- Boa tarde, meu nome é Agostinho Raimundo da Silva. O porteiro sorriu e disse:
- Olá Sr.Agostinho, tudo bem com o senhor? Estávamos aguardando a sua chegada!
- Tudo bem graças ao senhor, sabe como é né mandaram-me pra cá, mas não explicaram direito qual será minha função neste local e gostaria de algumas explicações. E o porteiro disse:
- Pois não senhor Agostinho, o que gostaria de saber?
- Em primeiro lugar gostaria de saber se por aqui tem algum radinho de pilha para eu escutar meus programas durante as madrugadas!
- Mas senhor Agostinho, O senhor está no Céu e por aqui não temos nenhum radinho, isto é lá na terra, por aqui estamos todos imbuídos em aguardar pessoas boas e generosas assim como o senhor!
- Existe um bom caminhão para eu dirigir?
- Oh, claro que não, aqui todos andamos a pé!
- Nossa que bom, eu adoro andar a pé!
- Mas e o pessoal que ficou lá na terra, como farei para vê-los?
- Não se desespere tudo tem seu tempo e em breve após algumas reuniões com seus acompanhantes que estão aguardando pacientemente sentados naquele banquinho, o senhor receberá a resposta desta pergunta. Está vendo?
E quando o Sr. Agostinho ergueu a cabeça para observar quem o aguardava, recebeu alguns “tchauzinhos! de duas pessoas que parecia familiar. Abaixou a cabeça e os olhos lacrimejaram. E então o porteiro pediu gentilmente para ele entrar e encontrar com aquelas duas pessoas que mostraria tudo o que deveria ser feito.
        O Sr.Agostinho entrou em passos lentos e aproximou-se das pessoas que o aguardavam e ficou surpreso quando alegremente levantou-se um senhor calvo e caminhou na sua direção e disse:
- Agostinho! Prazer em revê-lo irmão! Quanto tempo! E dá um abraço carinhoso no seu irmão e em seguida chega uma senhora elegante e também o cumprimenta e diz: Poxa vida, que alegria em recebê-lo por aqui! José da Silva e Thereza Miranda da Silva estavam pacientemente aguardando a sua chegada.
- Como está o pessoal lá embaixo? Quero noticias! E o Sr.Agostinho diz:
- Ah, lá embaixo está tudo bem, agradeço de coração a todos por preocuparem-se comigo, mas sabe quando chega à hora Não há jeito!
- Mas não se preocupe irmão, aqui é bem melhor, afinal o clima é maravilhoso as pessoas são selecionadas a dedo pelo querido porteiro e fique muito feliz por estar por aqui. Em breve encontraremos pessoas que você não via há anos, lembra-se do Ermelindo? E o Sr.Agostinho disse:
- Claro que lembro, onde ele está?
- Logo ali adiante e logo mais conduziremos você para encontrar com seu pai Raimundo e sua mãe Maria que os aguardam ansiosamente.
- Nossa que bom, afinal encontrarei com pessoas que não via fazia anos!
- Você sabia que o Céu hoje está em festa para recepcioná-lo?
- Mas como assim?
- Ora, quando uma pessoa muito querida vem pra cá todos nós fazemos uma festa muito grande, assim aconteceu comigo e com a Thereza.
- Mas como é esta festa, têm bolo, refrigerante, salgados?
- Não, imagine! É uma festa de recepção onde todos os seus conhecidos comparecem para felicitá-lo e saber como estão todos na Terra. Todos ficam sentados num enorme banco conversando baixinho e sempre é muito gratificante receber pessoas assim como você.
- Mas vamos andando que já começaram a colocar os primeiros bancos e você estará lá na frente respondendo todas as perguntas que os demais farão.
- Quais serão as perguntas? Perguntou o Sr.Agostinho.
- Mas que curiosidade, vamos aguardar porque é surpresa, mas fique tranqüilo que você ficará muito feliz!
E assim, sentaram-se vagarosamente em enormes bancos e ficaram calados ouvindo o cantar maravilhoso de alguns pássaros que pousaram numa pequena árvore ao lado do banco.
Abaixaram a cabeça e começaram a orar pelas pessoas que ficaram na Terra, enquanto aguardavam as outras pessoas conhecidas chegarem para começar a Festa no Céu para recepcionar o querido Senhor Agostinho Raimundo da Silva.

2 de mar. de 2012

MARMITA

          Hoje estava mudando os canais na televisão para encontrar um desenho animado para minha netinha assistir quando repentinamente deparei com um programa matutino destinado as donas do lar que estava ensinando a preparar marmitas, deixei por algum instante no programa e deu uma vontade imensa de escrever uma simples crônica sobre a bela época que eu era um marmiteiro, aliás, fui marmiteiro quase a vida toda, devido a minha posição social um pouquinho desprestigiada, mas isto não vem ao caso e passamos a descrever a história:
              As primeiras marmitas que eu levei para o serviço eu tinha dezessete anos de idade e era sempre mamãe que preparava minhas marmitas. Minha primeira marmita era de alumínio, comprada na lojinha da Dona Matilde e nunca me esqueço do preparo da minha primeira marmita. Mamãe levantava-se bem cedinho e ia cozinhar o arroz para que eu levasse a comida fresquinha. Colocava a marmita sobre o fogão e em seguida começava a fazê-la, primeiro colocava o feijão e logo após o arroz e em seguida um delicioso e cheiroso bife, pronto a marmita já estava pronta. Colocava-a cuidadosamente numa pequena mochila e seguia para o trabalho.
               A marmita ficava repousando dentro de uma velha geladeira e quando era meio dia ia esquentá-la, então não existia o tal do micro-ondas e a mesma era esquentada num tal de banho-maria.
               E então era só começar a comer e confesso que no primeiro dia fiquei um pouco constrangido, mas com o passar dos tempos assumi ser um marmiteiro Sênior e sabia todas as nuances de como preparar, carregar, esquentar e comer as marmitas.
              Lembro-me embarcando nos lotadíssimos ônibus na Cidade A.E. Carvalho para ir trabalhar no centro da cidade e sempre lá estava eu com minha inseparável marmita de alumínio e quantas vezes ficava muito envergonhado quando alguma linda menina pedia se podia segurar a tal marmita e eu sempre agradecia e dizia que não era necessário pois ia descer logo, pois morria de vergonha da menina colocar a minha marmita no  colo e as lindas pernas da menina ficassem toda gelada, pois a marmita estava bem gelada por passar a noite dentro na nossa geladeira. Imagine que num determinado dia dei minha marmita para uma menina conhecida segurar e ela depositou a mesma nas suas pernas e teve a indelicadeza de perguntar o que tinha naquele embrulho e eu quase morri de vergonha diante de risadinhas abafadas e cara de desdém do pessoal que estava ao nosso redor, a partir deste dia nunca mais deixei ninguém carregar minha gostosa e gelada marmita e mantinha-a sempre perto do meu corpo com a devida prudência em não esbarrar em ninguém.
              Certa época trabalhava numa Faculdade e levava marmita e quase todos os dias e tinha uns “amigos” que eram muito “sacanas” e adoravam uma patifaria e brincadeiras que às vezes irritavam e foi num determinado dia que chegando ao meu serviço deixei a marmita numa geladeira e depois de esquentada depositei-a na mesa e abri a mesma e levei um grande susto: Não havia a tal da mistura, tinham roubado a mesma. Imediatamente tampei a mesma e fui reclamar com nosso gerente administrativo sobre o sumiço da minha mistura e ele envolvido em grandes tarefas da Faculdade pediu para eu aguardar pacientemente na sala de espera que iria atender-me. Passados eternos minutos e meu estômago já estava roncando tomei uma decisão radical: Fui a geladeira, abri-a e lá estavam quatro marmitas repousando na geladeira a espera de seus donos. Abri as quatro marmitas, retirei as misturas de todas e coloquei na minha marmita e comi prazerosamente sabendo perfeitamente que todos os funcionários marmiteiros seriam chamados para conversar com nosso gerente e foi muito engraçado ver as caras dos funcionários reunidos e levando uma tremenda bronca do gerente pelo sumiço das misturas. A partir deste dia nunca mais sumiu nenhuma mistura e as marmitas ficavam em paz aguardando seus donos.
             Lembro de vários episódios envolvendo meu amor por marmitas e a grande gozação era quando eu levava ovo na marmita e sempre um engraçadinho dizia que eu adorava “zoiudo” e tinha uma criação de galinhas em casa, inicialmente ficava um pouco irritado, mas com o passar o tempo levava tudo na esportiva e entrava no clima de “tiração de sarro” e tudo seguia bem.
              Hoje são raras as pessoas que ainda levam as tradicionais marmitas de alumínio, pois existem os “top-ware” da vida e depois que inventaram o tal ticket alimentação a nossa querida marmita tende a cair no esquecimento de todos, mas ainda continuo levando minhas marmitas preparadas com muito esmero pela minha filha. E ainda falam que levar marmita é coisa de pobre, pobre nada o importante é mantermos nossos “buchos” cheios e que se dane os ricos ou aqueles que nunca levaram uma marmita gelada para o serviço, pois não terão uma história engraçada como esta! Bela recordação! Marmita!

1 de mar. de 2012

O PRESENTE

              Todas as tardes quando eu chegava do estafante serviço  tinha um hábito de desintoxicar a mente. Após um demorado banho, vestia um velho calção de banho e ficava várias horas na varanda lendo um clássico da literatura, bebericando um bom copo vinho gelado e  apreciando a bela paisagem da periferia.   Eu morava num sobrado que ficava na parte mais alta do bairro e da minha varanda tinha uma visão panorâmica espetacular.  O clima era perfeito, uma confortável cadeira de descanso colocada estrategicamente para observar todos os ângulos e cantos da bela paisagem de várias casas sem o reboco, pois o bairro ainda estava sendo formado e também tinha uma visão maravilhosa do Metrô. Uma mesinha de centro, algumas samambaias penduradas e um canarinho que cantava todo o tempo.
           Foi desta maravilhosa varanda que comecei a esboçar minhas primeiras pífias crônicas. Escrevia as crônicas num caderno e após escritas as mesmas eram guardas a sete chaves para ninguém lê-las, pois tinha receio que observassem meus erros de português que naquela época eram muitos.
            Nossa vizinha era uma senhora muito pobrezinha e morava numa casa muito pequena e criava uma criancinha de três anos de idade  e do alto da minha varanda observava todos os movimentos da pequena criança correndo pra cá, correndo pra lá, sempre sozinha, às vezes parava e começava fazer pequenos buracos no chão de terra e repentinamente levantava-se e saía correndo atrás de uma galinha e era muito divertido o diálogo com a galinha que ela carinhosamente chamava de có-có.
             Minha vida estava muito tranqüila, tinha um bom emprego, uma ótima casa pra morar, boa comida, uma maravilhosa família e aquela confortável varanda para todos os meus devaneios  mentais vespertinos.
             Várias vezes saia da varanda com um peso enorme no coração e ficava imaginando: Enquanto estamos vivendo maravilhosamente bem existia aquela garotinha que talvez estivesse passando fome e resolvi falar com minha esposa para pesquisar como vivia aquela garotinha, quem era e se a mesma estava precisando de alguma “coisa” e prontifiquei-me a ajudar naquilo que fosse necessário.
             No outro dia quando estava na varanda, a porta abriu-se vagarosamente e minha esposa apareceu segurando a mão da menininha e apresentou-me: Aqui está sua filha Luiz! Levantei-me um pouco assustado, caminhei vagarosamente até a linda criança e  dei um beijinho na criança e comecei a conversar com a mesma até que minha esposa disse:
- Esta é a Amanda, o pai está pelo mundo e a mãe mora muito distante daqui e ela é criada pela avó com todas as dificuldades  de uma pequena renda deixada pelo marido recentemente falecido.
         Amanda era linda, franzina, cabelos todo cacheadinho moreninha e uns olhos alegres, cheio de esperança que a vida um dia sorriria para ela.
Meus olhos lacrimejaram, corri até o armário e peguei uma caixa de chocolates e dei a ela que ficou muito feliz. A partir daquele dia quase todos os dias via Amanda e meu carinho pela aquela menininha foi crescendo imensamente, pois além de ser muito bonitinha, era educada e chamava-me carinhosamente de Pai.
          Começamos a ajudar Amanda, comprando roupas, enviando cestas básicas para sua avó, lindas sandálias e passados alguns meses Amanda já fazia parte da nossa família e ficava várias horas correndo pela sala, cozinha e brincando de vídeo-game e às vezes colocava a cabecinha na porta da varanda e dizia carinhosamente: Oooooi Papai! Passava a mão na sua cabeça e ela saia correndo dizendo para minha esposa que eu queria pegá-la por ter atrapalhado minhas leituras.
           Às vezes brincava com ela dizendo se ela não parasse de correr pela casa toda iria levá-la até o metrô Sé e então rodaria a mesma inúmeras vezes e largaria ela lá. Ela sorria angelicalmente e dizia: Mas..papai vamos agora! Vai ser muito legal a gente brincar de roda-roda no metrô e então ela sorria e saia correndo novamente pela casa toda e ia contar pra esposa que iríamos brincar de roda-roda no metrô Sé! Ríamos muito daquele momento.
           Após um farto jantar perguntei a minha patroa se não seria possível adotar aquela menininha e ela vir morar conosco e ela ficou de pensar e falar com a avó para ver se era possível.
           O mês de dezembro começara e a lista de presentes natalinos já estava sendo montada e nunca nos esquecíamos da querida Amanda. Após um maravilhoso natal repleto de presentes e uma mesa divina com comidas de todas as espécies aproximava-se meu aniversário que era dia 27 de dezembro e todos estavam programando dar-me um maravilho presente e então a ansiedade fazia-se presente constantemente.
           No dia do meu aniversário minha esposa ligou-me e pediu para eu ir direto pra casa, pois iríamos sair para comemorar meu aniversário e assim foi feito.
           Cheguei em casa e fiquei um pouco assustado, pois todas as luzes  estavam apagadas e quando abri a porta da sala, acendeu-se a luz e quase todos os meus amigos começaram a cantar Parabéns para mim. Um lindo bolo disposto numa elegante mesa da sala, várias taças de cristal dispostas sobre a mesa e um vinho importado completava o maravilhoso cenário. Foi quando minha esposa pediu para vendar meus olhos que ela ia trazer meu presente e vendou meus olhos e logo em seguida ela pediu para eu abrir e ver o lindo presente que eu tinha ganhado: Abri os olhos e não vi absolutamente nada e a esposa falou pra mim, olha pra baixo e veja seu lindo presente! Quando avistei Amanda com os bracinhos esticados querendo um abraço e dizendo: Sou eu seu presente Papai! Feliz Aniversário! Quase tive um enfarto de tanta emoção, abracei Amanda e dei um carinhoso beijo no seu rostinho. Tínhamos conseguido que Amanda viesse morar conosco, aquele era meu presente: Uma filha! Foi criada com muito carinho enquanto esteve conosco e passados algum tempo voltou para casa da avó. Presente maravilhoso, devidamente guardado a sete chaves na minha memória e agora todos sabemos.