
1.968 foi o ano que adquirimos nosso primeiro aparelho de TV da loja do turco da Praça Ana das Dores, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo. Até então não tínhamos TV e sempre assistíamos na casa da vizinha. Realmente não tínhamos uma vida muito agradável, pois era muito constrangedor pedir humildemente para a vizinha se poderia assistir a TV, às vezes a gente disfarçava e levava um pedaço de bolo pra vizinha e por lá mesmo a gente ficava sentado num canto do sofá assistindo desenhos até começar a novela e então mamãe gritava do outro lado da rua, era hora de entrar e abandonar a televizinha.
Quando mamãe anunciou que tinha comprado uma TV, nós crianças ficamos muito eufóricos e não víamos a hora da mesma chegar.
O caminhãozinho estacionou em frente de casa e perguntaram se era ali que morava mamãe, Nós, alegres mostramos o caminho e os dois carregadores/montadores pegaram aquela caixa enorme e depositaram cuidadosamente na sala de casa. Imediatamente após mamãe assinar alguns papéis os homens começaram a montar a TV.
Não havia espaço para tanta alegria entre nós e acompanhávamos cada peça retirada da caixa com muita atenção e sempre perguntando se haveria a possibilidade de assistirmos a TV naquele dia e os montadores diziam que dependia muito do nosso comportamento, se ficássemos quietinhos seria possível, senão não seria possível. Houve um silêncio sepulcral entre nós até a TV ser ligada e aparecer a primeira imagem de uma propaganda da Sheel (gasolina), não houve como segurar nossa explosão de felicidade e abraçamo-nos e demos vários gritos de alegria e independência da TV da vizinha. Não haveria mais sofrimento, mamãe nunca mais iria nos chamar no melhor momento do desenho. Muita alegria!
Eu tinha e ainda tenho uma relação dos melhores momentos da minha vida e este está relacionado entre os primeiros.
Naquele dia ficamos até tarde assistindo a TV até papai chegar do serviço e ficar encantado com a TV. Mamãe sentou-se num canto do sofá e sorria com ar de muita satisfação.
Após alguns dias que a TV estava em casa, já estava muito bem definido nossos programas favoritos. Eu adorava assistir luta livre, minhas irmãs deliciavam com pífias novelas e foi numa destas disputas por canal que minha irmã Suely arremessou um tamanco de madeira contra a minha pessoa e acabou acertando a lateral da nossa TV. Colocamos a mãos na cabeça e decidimos não falar nada para mamãe, até o dia que ela descobriu e aplicou uma memorável surra de vara de marmelo.
Passados alguns dias mamãe comprou na lojinha da Dona Matilde um plástico que simulava as cores da TV, o plástico tinha três cores: na parte superior era azul, simulando o céu, na parte do meio era verde que dava a impressão que era a mata e na parte inferior era cinza claro simulando a terra, o solo. E assim nossos programas tinham mais vida e éramos muito felizes.
Foram vários os programas favoritos e que marcaram profundamente nossa vida naquela época, lembro-me de alguns como: Festival de música da Record, Programa de Luta Livre e Ted Boy Marino era nosso herói, a novela Irmões Coragem, um desenho japonês chamado Nacional Kid, Corrida Maluca, Silvio Santos, O Vigilante Rodoviário com seu querido e amado cão chamado Lobo, Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço com o amável e ingênuo Dr. Smith, Pernalonga, A praça é Nossa, O Zorro, Lessie, A Feiticeira, Os três Patetas, O gordo e o Magro entre outras jóias raras que minha mente não alcança mais.
Maravilhosa TV Vidiobel que tanto nos proporcionou alegrias e momentos inesquecíveis e encantadores!






Nestes momentos tentava aproveitar cada segundo ao lado de papai da melhor maneira possível, quando jogávamos bola, adorava driblar papai, pois minha mobilidade corporal às vezes deixava papai na grama, ele levantava-se vagarosamente, sempre com um sorriso de satisfação e eu pulava nas suas costas simulando um cavalo, após simular alguns trotes, jogava-me no chão e dava um chute forte na bola e pedia carinhosamente para eu ir buscar a bola, este era o momento de papai tomar algum ar, recuperar o fôlego e convidar-me para irmos embora para casa. Meu semblante franzia-se e meu olhar de frustração aparecia ao lado de um balanço de cabeça, mas sempre obedeciam às ordens de papai, pulava no seu colo e dava-lhe um beijo carinhoso no seu rosto e saíamos em direção ao nosso lar.