12 de jul. de 2011

TIO AGOSTINHO


Toda criança gostaria de ter um tio como o tio Agostinho. Desde criança, quando tio Agostinho nos visitava nossa casa transformava-se numa grande festa, tamanho era o carinho que tínhamos por ele.
         Alegre, brincalhão, sempre de bem com a vida, participativo e adorava todas as crianças, nós amávamos tio Agostinho, principalmente quando ele nos protegia das  surras de vara de marmelo que mamãe sempre aplicava na gente. Mamãe pedia para ele sair da frente e ele não saia e levava várias varadas de marmelo por nós e ria alto, zombando com tudo e com todos. Que maravilha aquele momento! Nós crianças adorávamos aquele momento que sempre terminava com um comentário de mamãe dizendo: Você acaba “estragando” meu castigo e ele sempre respondia: Ah, Thereza! deixa pra lá eles ainda são crianças! Quando eu for embora você pode aplicar a surra, agora não. Faz um cafezinho pra gente comemorar a surra frustrada! Mamãe caia na gargalhada e ia preparar o tal do cafezinho.  Nós olhávamos com tanta admiração para tio Agostinho e gostaríamos que ele ficasse morando conosco  eternamente, mas tio Agostinho era caminhoneiro e após várias brincadeiras, contar várias piadas e risos ecoados pela casa beijava-nos e dirigia-se a boleia do caminhão para pegar a estrada sem destino, levando apenas a solidão e nossos gritos e risadas na sua mente pela longa estrada.
         Nós fomos crescendo e nossa admiração por tio Agostinho acompanhava nosso crescimento, passamos da fase de criança para adolescente e alguns momentos na minha vida são inesquecíveis e os levarei comigo e contarei a todos onde estiver com um orgulho danado.
         Nunca tinha ido ao cinema e quando completei doze anos tio Agostinho prometeu que iria levar-me ao cinema, fiquei eufórico e lá fomos nós assistir meu primeiro filme chamado “De caniço e Samburá” com Jerry Lewis no cine Júpiter no bairro da Penha, em São Paulo. Saí do cinema encantado, vocês não imaginam quanta alegria invadiu minha alma naquele dia.
          Minha primeira bicicleta foi um presente por ter passado de ano na escola, lembro-me perfeitamente que eu estava jogando bolinha de gude com alguns moleques na rua, no bairro Cidade A.E. Carvalho, em São Paulo e lá aparece tio Agostinho com uma linda bicicleta preta, aro 28. Não me contive de felicidade, joguei todas as bolinhas pro alto, dei um apertado abraço no tio e saí pedalando por baixo do quadro, pois eu não conseguia atravessar as raquíticas pernas por cima do quadro.
        Pedi para fazer uma viagem para qualquer lugar em um imponente caminhão ao qual ele estava dirigindo e saímos de São Paulo à Belo Horizonte, comemos um frango assado por lá, fizemos algumas paradas e nos divertimos muitíssimo, com a paisagem, a estrada e o clima da viagem.
         Foram várias passagens e histórias ao lado do tio Agostinho, pois se fosse contá-las ficaria muitas horas descrevendo tanto carinho e alegria em estar ao seu lado.
        Valeu a pena passar por esta vida, ser criança, adolescente e ter um tio tão maravilhoso como tio Agostinho. Obrigado tio Agostinho. De coração!

11 de jul. de 2011

O QUEIJO


              Eu estava no limiar da sobriedade e do alcoolismo. Carregava uma enorme mochila nas costas repleta de problemas sentimentais insolúveis e quando a noite aproximava-se eu ia tirando um a um e esparramava-os pela  mente dominada pelo álcool e tentava achar soluções fenomenais sob altos devaneios etílicos.
              Certo dia após “tomar todas” e já estar devidamente embriagado, cheguei à casa de mamãe cantarolando uma linda música de Chico Buarque com quatro garrafas de cervejas geladas em baixo dos braços.
              Desci os vários degraus existentes no estreito corredor esbarrando nas paredes e consegui chegar a passos trôpegos até a cozinha. Vagarosamente abri a porta, entrei e sentei-me pesadamente numa cadeira. Procurei um abridor de garrafa e após alguns minutos consegui encontrar um, abri uma das garrafas de cerveja, despejei vagarosamente num copo e bebi o primeiro gole e comecei a observar tudo que estava ao meu redor. Tudo girava, fechei os olhos e quando eu os abri observei um queijo em cima do armário de cozinha. Refleti profundamente e cheguei a conclusão que mamãe tinha se esquecido de guardar o queijo na geladeira. Peguei o queijo e fui guardá-lo na geladeira, mas inesperadamente deu uma vontade enorme de comer um pedaço daquele queijo. Cortei um pequeno pedaço e enfiei rapidamente na boca e o resto eu guardei na geladeira com medo de alguém notar.
                Voltei novamente para a cadeira, enchi o copo de cerveja e senti que o tal queijo estava com um gostinho de sabão, não dei muita importância, afinal nada era mais grave do que os meus problemas naquele momento. Mais alguns goles de cerveja e minha boca começou a espumar e comecei a cuspir incessantemente até que consegui acordar mamãe e assim que ela apareceu na minha frente questionei-a sobre a procedência do queijo, do gosto duvidoso, da validade e mamãe calmamente disse: Pois é meu filho, isto que você comeu não é queijo e sim sabão de coco.
               Esbocei um sorriso espumante e escondi-me de vergonha atrás de uma garrafa gelada de cerveja. Até hoje quando vejo um saboroso queijo branco sinto certo gostinho de sabão de coco na boca. Lembro-me do caso, limpo a boca e degusto assim mesmo, com ou sem cerveja.

10 de jul. de 2011

CHURRASCO

                                                                                                        CHURRASCO

           A fumaça sobe e mistura-se com a alegria estampada no rosto de cada “churrascante”. Passados alguns minutos, ouvem-se alguns estalos do carvão começando a pegar fogo e algumas latas de cerveja sendo abertas. O cheiro delicioso de carne sendo assada é sentido a vários metros de distância.
           O clima é de festa e confraternização, abraços efusivos e comprimentos inconseqüentes são notados, ouve-se um grito de felicidade pela presença de um amigo chegando e trazendo um apetite invejável. Alguns se sentam ao redor da churrasqueira e ficam conversando sobre o cotidiano, mas invariavelmente o assunto gira em torno das últimas noticias da mídia, mulheres, futebol e alguns mais atrevidos falam sobre política. Quando trazem crianças e mulheres, nota-se que em pouco tempo as “rodinhas” de crianças e mulheres já estão formadas e só chegam perto da churrasqueira quando sentem fome e pedem com uma cara de piedade um pedaço de carne.
           O churrasco é um estado de espírito, há que estar com a alma tranquila, um astral elevadíssimo e vontade de viver, viver intensamente, esquecendo as cizânias da semana, a cara do chefe, a nota baixa na escola, os  engarrafamentos, as dívidas, os carnês, enfim é deixar levar-se por aquele momento sublime e inesquecível. Viver é preciso!
           Os melhores churrascos são aqueles que não são programados,  reúnem-se numa porta do bar,  da escola,  da faculdade,  ou qualquer outro lugar,  passam num açougue, compra-se a carne,  carvão,  sal grosso e cervejas e acendem a churrasqueira com ar de vitória. Quantos desses já participei! Foram vários.
           Há os churrascos que somos convidados e às vezes nos arrependemos de ter saído de casa, pois são específicos para uma determinada categoria de profissão. Aí falam sobre cirurgia, plástica, medicamentos. Foi num desses que eu participei e o pessoal, a maioria médicos e enfermeiras falando sobre operações, cirurgias, etc. dá vontade de sair correndo e comer um churrasquinho do tiozinho da esquina e falar sobre qualquer assunto,  menos ferimentos,  braço quebrado, etc. mas, passou, passou e deixa o carvão queimar que tem muita conversa para expandir a alma .
            Após várias rodadas de carne assada, alguns sentem-se no dever de armar uma boa rodada de truco, aí quem tem mulher é devidamente odiado quando senta-se a mesa para participar, podem esquecer que irão pedir para comprar mais carne e mais cervejas e jamais sairão antes da meia-noite da mesa. Coitado do churrasqueiro, isto quando a carne fica lá esturricando, abandonada  e o grau etílico misturado com a emoção do jogo fazem da carne uma mera coadjuvante do cenário.
            Churrascada assistindo uma emocionante partida de futebol também é bem “legal”, às vezes sai cada discussão que dá até medo, mas no final tudo termina bem.
            Nós brasileiros adoramos fazer churrasco, principalmente quando conseguimos reunir toda nossa família e lá ficarmos conversando despreocupadamente sobre tudo e sobre o nada, aí estamos carregando nossas energias para mais uma semana de dura baralha pela sobrevivência. Viva o Churrasco que tanto amamos! Vamos fazer um churrasco?

8 de jul. de 2011

PIRULITOS


Sempre que alguém da nossa família ficava gripado, mamãe imediatamente preparava um xarope de Guaco para aliviar nosso sofrimento.
         Num determinado dia minha irmãzinha ficou muito gripada e imediatamente mamãe correu para cozinha para começar a preparar o tal xarope. Adorava observar mamãe cozinhar, nem tanto para aprender e sim para dar umas “beliscadas” nas delicias que sempre ela fazia.
         Mamãe mexia aquele caldo com uma paciência de Buda e eu observando pedi para ela fazer um pirulito com aquele caldo. Imediatamente fiz um canudinho de papel em formato de cone e pedi para ela encher com o melaço,  coloquei um palito de madeira e passados alguns minutos o mesmo já estava pronto para ser chupado.
        Enquanto degustava o pirulito surgiu uma ideia sensacional: Pedi para mamãe fazer alguns pirulitos com o açúcar derretido pois eu iria vender e arrecadar um “dinheirinho” para comprar mistura.
      Mamãe sorriu cândidamente e aceitou o convite, mas lembrou-me que eu tinha apenas nove anos e não poderia sair da frente de casa, pois havia algumas pessoas de má índole circulando pelo bairro onde morávamos e poderiam mexer comigo.
        De tanto insistir,  mamãe concordou em fazer os pirulitos, mas enfatizou que deveria ficar próximo de casa.
         Alegremente dirige-me a casa do Sr.Heitor, um senhor idoso que todos nós adorávamos e pedi para ele construir um tabuleiro para colocar os pirulitos. Sorriu amigavelmente,  pegou uma tábua,  uma furadeira e pôs-se a fazer o furos, após algum tempo o tabuleiro já estava pronto. Sr. Heitor colocou uma alça no tabuleiro e enroscou-o no meu pescoço, afagou minha cabeça e desejou-me muita boa sorte no meu novo empreendimento.
         Mensurar a Felicidade de um garoto de nove anos diante da possibilidade de tornar-se um novo milionário vendendo pirulitos era uma grande piada escondida na minha tola cabecinha. Coisa de criança!
        Cheguei em casa eufórico e pedi para mamãe começar a fazer os pirulitos e ela disse que só faria os mesmos a noite e que eu iria vendê-los somente no dia seguinte. Um tanto frustrado acatei mamãe e não via a hora de chegar o momento de preparar os pirulitos.
        A grande panela foi colocada no fogo, em seguida o açúcar e eu xeretando ao redor, até que ela pediu para eu ir fazendo os canudinhos e colocando-os no tabuleiro. Após dispor todos os canudinhos no tabuleiro,  mamãe colocou a calda,  esperou um pouquinho e colocamos os palitos. Pronto os cinquenta pirulitos já estavam prontos, era só aguardar outro dia e sair para vendê-los.
           Quando o  Sol apareceu , coloquei o tabuleiro no pescoço e sai sem fazer nenhum barulho e fiquei em frente de casa oferecendo os pirulitos para os trabalhadores.  Nem olhavam para minha cara,  estavam apressados e seis horas da manhã não era um horário apropriado para chupar pirulito.
           Lá pelas nove horas da manhã entrei em casa sem vender nenhum pirulito e pedi para mamãe se podia dar umas voltas pelo quarteirão e ela concordou, mas insistiu que deveria retornar logo.
           Batia palmas em algumas casas e oferecia os pirulitos, alguns compravam de dó da minha pessoa, outros balançavam a cabeça negativamente e nem me atendiam. De casa em casa consegui vender quase todos os pirulitos e voltei pra casa antes do meio dia com o espírito envolvido num manto de vitória. Tinha conseguido!
          Vendia os pirulitos de segunda-feira à sábado, às vezes sobrava alguns e eu e minhas irmãzinhas chupávamos. Com o lucro das vendas dos pirulitos ajudava mamãe comprar mistura, açúcar e sempre sobrava algum trocado para comprar a Caixinha da Sorte e alguns doces de abóbora que tanto amava.
         Passado algum tempo, mudei de atividade e fui ser Engraxate. Engraxate da Periferia.

2 de jul. de 2011

O TEMPO

  Eram raros os momentos em que eu ficava ao lado de papai. Estes momentos restringiam-se a alguns domingos ensolarados em que papai levava-me a um enorme jardim existente em frente da nossa casa que ficava na Rua Mangalot, no bairro Parada Inglesa, zona norte de São Paulo.
Nestes momentos tentava aproveitar cada segundo ao lado de papai da melhor maneira possível, quando jogávamos bola, adorava driblar papai, pois minha mobilidade corporal às vezes deixava papai na grama, ele levantava-se vagarosamente, sempre com um sorriso de satisfação e eu pulava nas suas costas simulando um cavalo, após simular alguns trotes, jogava-me no chão e dava um chute forte na bola e pedia carinhosamente para eu ir buscar a bola, este era o momento de papai tomar algum ar, recuperar o fôlego e convidar-me para irmos embora para casa. Meu semblante franzia-se e meu olhar de frustração aparecia ao lado de um balanço de cabeça, mas sempre obedeciam às ordens de papai, pulava no seu colo e dava-lhe um beijo carinhoso no seu rosto e saíamos em direção ao nosso lar.
Inúmeras vezes desejei mentalmente que papai perdesse o emprego, pois só assim poderíamos ficar mais tempo juntos chutando a bola de capotão que tanto eu adorava, mas sabia perfeitamente que se papai perdesse o emprego nossa família passaria por grande necessidade financeira e todos nós iríamos ficar muito tristes e com a barriga vazia, então me redimia dos meus nefastos desejos e pedia perdão a Deus por tamanha crueldade.
Estava no início do primeiro ano do curso primário, iniciando a alfabetização e estava disposto a qualquer sacrifício para conseguir ficar mais algum tempo ao lado de papai e mirabolantemente arquitetei um infalível plano: Disse para papai que estava sentindo uma enorme dificuldade em fazer cópias da Cartilha Caminho Suave e precisava urgentemente da sua ajuda. Sabia que ele jamais iria negar em ajudar-me. O seu sereno e calmo rosto ficou sério e atrás de toda sisudez do momento disse que iria ajudar-me e que eu fosse dormir cedo, pois no outro dia teríamos que acordar às 5 horas da manhã para começarmos os estudos. Não conseguia entender a sua disposição e fiquei muito arrependido em ter dito que não conseguia fazer cópias da Cartilha, mas não havia retorno e imediatamente lancei-me para baixo dos cobertores.
No outro dia, pontualmente às 5 da manhã papai balançou-me na cama e pediu que me colocasse em pé. Com os olhos inchados de tanto sono, iniciamos as primeiras lições. Papai fazia uma cópia da Cartilha e eu copiava olhando suas escritas. Foram várias vezes que “peguei-me” arrependendo e envergonhando-me por estar subtraindo tão precioso tempo de papai, mas afinal era a única maneira de poder ficar um pouco mais durante a semana com papai, poder sentir seu cheiro, sua paciência, sua dedicação e todo seu carinho de pai e seus gestos tranqüilos era um bálsamo para minha alma.
Assim que terminávamos a cópia da lição, papai ia beber café com pão e após alimentar-se despedia de mamãe com um beijo e outro beijo no meu rosto e saia apressado em direção ao trabalho. Acompanhava papai até um enorme muro e ficava acenando para ele e pedindo o seu retorno o mais breve possível, sempre dizendo: Vai com Deus!
Regressava para a mesinha onde estudávamos, colocava os braços sobre ela e repousava o rosto sobre os braços em profundos devaneios que só eram interrompidos por mamãe trazendo-me de volta ao mundo porque estava na hora de ir para escola. No caminho para escola ainda ecoava a voz doce de papai aos meus ouvidos que desapareciam com a voz pausada e rouca da professora fazendo a chamada.

1 de jul. de 2011

Lápis de cor



Naquela manhã do rigoroso inverno de 1.961 parecia que o mundo ia acabar, o céu estava muito escuro, prenunciando um enorme temporal. A luz da cozinha foi acesa, ouvi  barulho de água da torneira enchendo uma chaleira e o barulho de alguns fósforos sendo acesos, era mamãe que sempre levantava bem mais cedo do que todos nós para fazer os preparativos para o café matinal.
         O barulho incessante do vento assoprando ruidosamente lá fora, fazia-me encolher na cama e sentir um pouco de medo do fim do mundo, que naquela época já existia alguns profetas anunciando que iria chegar. Pensava que aquele dia seria realmente o final e tudo estaria acabado. Nunca mais poderia jogar a minha querida bola de capotão com papai que ganhara  no Natal , não poderia mais brincar com meus coleguinhas de “mão na mula”, bolinha de gude, rodar pião, pega-pega e outras brincadeiras da época, sentia-me muito triste em ter que partir não sabendo pra onde, realmente não estava preparado para o fim do mundo.
          O passarinho do relógio cuco anunciou seis cantos, eram seis horas. Papai  levantou e dirigiu-se ao banheiro para sua ablução matinal, eu encolhi-me na cama um  pouco mais e fiquei esperando ser chamado por mamãe para ir à escola.
           O cheiro agradabilíssimo de café coado por mamãe invadia todos os cômodos da casa e coloquei-me de pé rapidamente. Assim que papai saiu do banheiro eu entrei para tomar banho e fiquei imaginando irmos para escola sob aquele temporal que não demoraria muito a desabar. Mamãe apressou-me com alguns toques na porta, saí e sentei-me preocupadíssimo a mesa para tomar café com rabanadas que papai tanto apreciava. Naquele dia eu estava muito introspectivo, calado, sério e todos notaram, mas continuaram a falar do cotidiano sem fazer comentários a meu respeito.
           Papai deu um beijo na mamãe, um beijo na minha testa e saiu apressado para o trabalho debaixo de alguns pingos que começara a cair. Logo em seguida eu e mamãe saímos para a escola. Iria ter aula de desenho e a professora Judite deixou bem claro que quem não trouxesse lápis de cor não entraria na sala.
         Chegamos na escola sob um forte temporal que começara a cair e mamãe abriu minha mochila para ver se tudo estava certo, se não faltava nenhum material escolar e repentinamente franziu a testa e fez uma cara de espanto e disse que eu tinha esquecido a caixa de lápis de cor. Minha reação também foi de espanto, pois tinha colocado os lápis na minha mochila e não sabia quem tinha tirado de lá. Comecei a chorar baixinho e mamãe acalmou-me passando a mão no meu rosto e dizendo que iria pegar os lápis em casa e voltaria rapidamente.
         Entrei no pátio da escola, procurei os alunos da minha classe, entrei na fila, cantamos o Hino Nacional e dirigimo-nos a sala de aula sob a supervisão da professora. Sentamos todos educadamente,  a professora fez a chamada e logo em seguida distribuiu os desenhos que seriam pintados naquela aula. Quando  ela percebeu que eu não tinha lápis de cor, pediu gentilmente que eu aguardasse mamãe do lado de fora da sala de aula.
          Saí morrendo de vergonha e fiquei perto da porta aguardando eternos minutos o retorno de mamãe. Foram momentos de angustia, perplexidade e medo. Às vezes colocava o rosto numa pequena janelinha da porta e via todos os alunos pintando alegremente e eu ali do lado de fora aguardando o lápis de cor. O vento gélido no corredor, o barulho do trovão e os raios apavoravam-me e eu comecei a rezar baixinho  para que aquele momento cessasse o mais breve possível.
            Avistei mamãe no final do corredor e corri até ela com os olhos marejados, mamãe entregou-me a caixa de lápis de cor, beijou meu rosto e pediu carinhosamente que eu entrasse na sala de aula rapidamente.
             Pedi licença para professora para entrar na sala e amaldiçoei-a mentalmente até chegar na “carteira escolar”. Sentia-me culpado por ter feito mamãe ficar toda molhada e eu comecei a pintar o desenho que acabou todo borrado por alguns pingos de lágrimas de arrependimento e só então descobri o verdadeiro amor que uma mãe nutre por um filho em todas as fases da vida.
            Naquele dia chegando em casa dei um apertadíssimo abraço em mamãe e pedi a ela “mil desculpas” e vários perdões. Ela sorriu angelicalmente e disse que não fizera mais que uma obrigação de mãe. Não me contive novamente e deixei rolar algumas lágrimas pela face. Deixei a mochila no sofá e fui almoçar, refletindo muito sobre o ocorrido e prometendo que quando soubesse escrever contaria esta “História”. Passaram-se somente cinqüenta e cinco anos e o sonho acaba de concretizar-se , consegui escrever. Tá escrito. Lápis de Cor.

28 de jun. de 2011

FAZENDO E VENDENDO COXINHAS

Estávamos no início de 2.008, a ideia de fazer coxinhas tinha vindo depois de uma longa viagem à Ubatuba. Depois de várias tentativas de fazer uma coxinha diferente de todas aquelas já existente, conseguimos fazer uma que era diferente de todas as outras. Fizemos um verdadeiro “laboratório experimental” com temperos, recheios e o sabor foi ficando cada vez mais afinado com o paladar de todos.
      Após um período de dois meses em Ubatuba na casa da tia Ana, onde testamos várias receitas, chegamos a uma que colocamos o nome de Coxinha Caiçara e era esta receita que apresentei para minha filha e disse que a partir daquele momento iríamos viver de fazer as tais coxinhas e vendê-las pelo comércio local da Vila Maria Alta em São Paulo-SP e redondeza.
      Minha filha ficou estupefata com a ideia, mas como não tinha outra opção, pois morávamos numa pequena casa de aluguel, eu minha filha e minha netinha. Abraçou a ideia para não passarmos necessidades e assim começamos nossa atividade de salgadeiros, especificamente fazendo a tal da coxinha caiçara.
      Fazer as coxinhas não era problema, pois já tinha dado certo no litoral e não tinha como dar errado na capital, já que o sabor era deliciosíssimo, a textura surpreendente, sequinha. Combinamos um preço bem razoável, fizemos as primeiras quarenta unidades e saí pelo comércio local em busca de nossos novos clientes. A dificuldade foi enorme no início, pois ninguém conhecia nossas coxinhas e todos se mostravam cépticos em relação ao nosso produto. Foi uma grande batalha no início para provar para todos os novos clientes que estávamos vendendo um produto de qualidade, muito delicioso e que todos deveriam provar.
      Trabalhar por conta própria é muito bom, mas exige um esforço enorme. Levantava-me às 6 horas da manhã e ia comprar os ingredientes num mercado próximo de casa, preparava tudo, desde colocar o frango para cozinhar, até os temperos para podermos fazer a noite.
      Lá pelas 8 horas da manhã começava a fritar vinte coxinhas e ia vendê-las pela redondeza, vender salgados de manhã não é lá tarefa muito fácil, mas precisávamos e não tinha para onde correr e lá ia eu com minha caixa de isopor, uma garrafa de café que oferecia de brinde aos meus clientes. Quando estava próximo do meio-dia já tinha vendido todas as coxinhas e aí retornava para casa, almoçava e ficava esperando dar 2 horas da tarde para fritar mais vinte coxinhas e sair à tarde.
     Os clientes já estavam conquistados, tinha em média uns vinte clientes fiéis que adoravam nossas coxinhas, o restante era conquistado dia a dia, andando muito, tomando muita chuva, entrando em quase todos os estabelecimentos comerciais e esbanjando carisma, bom humor e sempre enaltecendo a grande diferença das nossas coxinhas e das outras encontradas pelos bares e padarias do bairro.
      Todos os dias era uma grande batalha, pois dependíamos de vender as quarenta coxinhas todos os dias e o dinheiro arrecadado era para pagar o aluguel, água, luz, comprar fraldas e leite para a netinha e um pouco de comida para nós.
      Foram oito meses vendendo todos os dias em média quarenta coxinhas e algumas histórias interessantes aconteceram neste período. Num sábado quando minha filha estava fritando as coxinhas o gás acabou e ela desabou a chorar dizendo que estava cansada de ser pobre, soltei um grande sorriso e disse que também estava cansado, mas não era de ser pobre e sim de andar como um burro pelas ruas do bairro, ela sorriu entre algumas lágrimas e foi comprar o gás fiado.
       O secretário de uma escola estadual pediu para vendermos as coxinhas num sábado à tarde na escola, pois alguns alunos estariam na escola para aulas de recuperação. Fizemos cinquenta coxinhas e fomos até a escola e chegando lá, simplesmente não havia ninguém, as aulas foram adiadas. Ficamos aflitos, sentamos na beira da guia e ficamos imaginando o que faríamos, até que escutamos barulho de instrumentos musicais vindo do clube  Thomas Mazzoni, fomos correndo até lá, onde estava acontecendo uma final de campeonato de time de futebol, tinha muita gente, subi as arquibancadas e fui vendendo, vendendo e após uma hora já tinha vendido todas as coxinhas, fomos embora muito feliz e com grande alívio , tínhamos garantido nossa próxima remessa de coxinhas, naquele dia compramos até uma pizza para comemorar nossas vendas.
         Numa sexta feira a tarde apareceu meu sobrinho Leandro e seu filho Diego comprou toda a “carga” de coxinhas, ele ainda trouxe várias latas de cervejas, onde bebemos e comemos todas as coxinhas. Raras vezes isto acontecia, mas de vez em quando acontecia. 
         Às vezes, a tarde, convidávamos minha irmã Silvinha e meu sobrinho John Lennon para tomar café com coxinhas em casa, ficávamos muito feliz com a presença da minha irmã na nossa humilde casa, inesquecíveis aqueles momentos.
         Muitas passagens aconteceram, umas tristes outras alegres e aprendemos uma lição maravilhosa que jamais passaremos fome neste País, desde que estejamos propensos a “meter a mão na massa”, suar a camisa e queimar a barriga no fogão. Conseguimos sobreviver! Vai uma coxinha aí?