15 de dez. de 2012

COTAS DE PALAVRAS




       Recentemente foi publicada uma pesquisa que teve a “paciência” de contar quantas palavras uma mulher fala por dia e chegaram ao surpreendente número de 30.000 palavras cotidianamente.
        Existiu uma época em que trabalhei numa fábrica de remédios onde trabalhavam aproximadamente umas 800 mulheres e todos os dias éramos obrigados a ouvir as 800 mulheres falando simultaneamente e existia determinado momento que apenas o protetor auricular não era suficiente para barrar o “falatório” das queridas colegas de trabalho.
        Num determinado dia eu e um colega de trabalho chamado Nelson resolvemos estabelecer uma cota de palavras por dia para as colegas de trabalho e assim a gente colocava um determinado número num papelzinho e entregávamos as colegas e pedíamos que falasse somente aquela quantidade de palavras naquele período e ajudasse-nos a combater a poluição sonora no nosso ambiente de trabalho.
        Quantas vezes nós fomos zombados com a tal da brincadeira, mas garanto que muito valia a brincadeira, pois a existência de um pequeno lembrete no papelzinho dizendo: Após sua cota encerrada, fique quieta, pois só assim começaremos a gostar de você!
        Mas a brincadeira ia mais longe, pois enquanto a gente embalava milhares de remédios tentávamos criar uma história que reduziria drasticamente a quantidade de palavras faladas pelo ser humano e assim era a história:
        Assim que nascêssemos a gente receberia uma cota de palavras e um contador regressivo e a cada palavra falada ia abatendo do contador até que a cota terminasse e a pessoa ficasse muda e aí a gente se divertia observando algumas colegas de trabalho e dizíamos:
- Tá vendo a Regina como fala, esta com apenas 20 anos garanto que ficaria muda! E a Tati também fala muito, garanto que aos doze anos de idade não pronunciaria mais nenhuma palavra.
        E nossa mente divagava longe do ambiente de trabalho e ficávamos pensando em vários vendedores, palestrantes, alguns apresentadores da TV e sorríamos largamente.
        Nossa brincadeira durou pouco, pois algumas colegas de trabalho temendo ficarem mudas denunciaram a gente para nossa supervisora que gentilmente pediu para que ficássemos calados. E assim prosseguíamos quietinhos embalando nossos milhares de remédios e sempre pedindo aos nobres pesquisadores farmacêuticos que inventassem um remédio que fizessem as meninas ficar quietas.
        O tempo foi passando passando e nossa cota de palavras acabou e a mulherada continuou a falar desesperadamente e nós ficamos quietinhos num canto da fábrica observando a beleza das palavras faladas pelas queridas colegas de trabalho.

PRAIA DA FAZENDA



         E após percorrer a Rodovia Rio-Santos entre Caraguatatuba e Paraty entrando e saindo de praias vendendo meus sucos de laranja natural acabei conhecendo uma praia que era um verdadeiro paraíso, chamada: Praia da Fazenda em Ubatuba-Sp.
         A primeira vez que estive nesta praia, fiquei encantado com tanta beleza natural e passados alguns meses resolvi passar alguns dias de férias em Ubatuba e entre algumas praias existentes no meu roteiro de férias estava a Praia da Fazenda.
         Era uma daquelas segundas-feiras preguiçosas em que todo turista dorme até um pouco mais tarde e foi exatamente numa segunda-feira que decidimos passear nesta linda praia.
         A pequena mochila contendo apenas nossos trajes de praia, óculos de sol e um vidro de repelente para espantar os "borrachudos" fora arrumada no domingo à noite e ficamos ansiosos para o dia raiar e partirmos para nosso passeio encantador.
         Precavi-me em passar em uma padaria e comprar alguns pães, mortadela, queijo, refrigerante e algumas cervejas para podermos degustar ao longo do dia na praia, pois já sabia da inexistência de comercio na mesma e lá fomos nós pegarmos o ônibus para o Núcleo de Picinguaba.
         A viagem do centro de Ubatuba até a Praia não passa de uma hora e assim que entramos no ônibus, pagamos nossas passagens e recebemos um encantador bom dia de uma simpática cobradora que muito bela e sorridente começou a conversar conosco e dar detalhes sobre a praia entre os primeiros raios de sol que surgiam iluminando toda nossa felicidade.
         A curta viagem pela estrada vai abrindo sobre nossos olhos a visão de várias praias maravilhosas e o aroma agradabilíssimo do ar espalhando nossos cabelos entre sorrisos de felicidade nos levava ao Céu.
         Descemos na estrada e caminhamos alguns minutos até a Praia e a inexistência de qualquer ser humano deixou-me muito feliz e a sensação naquele momento foi indescritível, pois se existisse a possibilidade de pararmos um momento em nossa vida, com certeza aquele momento estaria incluído na relação.
         Calmamente instalamos nosso guarda-sol na branca e limpa areia da praia, esticamos uma esteira, armamos nossas cadeiras de praia e ficamos eternos minutos apreciando a beleza das ondas que suavemente vinham nos saudar batendo nos nossos pés. Alguns cantos de pássaros eram ouvidos e tudo era encanto, qualquer lugar onde nossa visão conseguia alcançar era beleza espalhada pela natureza.
         Resolvemos entrar no mar sem nenhuma roupa, completamente nu para podermos aferir a inexistência de qualquer ser humano na praia e assim fizemos e passados alguns minutos dentro da água escutamos ao longe o barulho de uma moto que foi aproximando-se e veio ao nosso encontro e subitamente parou a nossa frente e desceu um guarda florestal perguntando se tudo estava bem e nós morrendo de vergonha e tomando toda a precaução para não expormos nossa nudez dissemos que tudo estava maravilhosamente bem, o guarda subiu na sua moto e foi fiscalizar a extensa praia e assim que ele saiu nós saímos da água do mar e fomos nos vestir o mais rápido possível, muito envergonhados.
         Lá pelas dez horas resolvemos fazer uma caminhada pela praia para explorarmos toda a beleza existente na mesma e ficamos encantados com a existência de uma bica de água que caía sobre as águas do mar e lá ficamos alguns minutos nos refrescando do intenso calor daquele dia.
         Saímos da bica e entramos numa trilha e caminhamos alguns metros e logo desistimos em continuar e voltamos para praia para visitar um pequeno museu existente na praia, no núcleo de Picinguaba e os trabalhos e esclarecimentos aos turistas quanto à preservação da natureza é maravilhoso.
         Estávamos sentados confortavelmente nas nossas cadeiras de praia conversando sobre aquele momento único e maravilhoso quando vimos ao longe um caiçara com uma enorme caixa de isopor e resolvi “puxar prosa” com o caiçara.
- Bom dia, o Senhor mora neste Paraíso? Perguntei ao homem e ele disse:
- Pois é, moro aqui desde que me conheço por gente.
- Sabe, gostaríamos muito de almoçar, o senhor conhece algum restaurante por aqui?
         O homem sorriu, passou a mão pela imensa barba e disse:
- Olha moço, aqui não tem restaurante não..mas se vocês estão com muita fome pode ir lá em casa que minha “veinha” fez galinhada com arroz fresquinho e tá uma delicia!
         A simplicidade daquele caboclo, homem do mar, deixou-me comovido e disse a ele que aceitaria almoçar com a família dele e assim combinamos que dentro de alguns minutos estaríamos na casa dele.
         O homem afastou-se lentamente e disse: Olha to aguardando vocês lá na minha choupana!
         A minha “patroa” olhou bem nos meus olhos e disse:
- Caramba Luiz, você não tem jeito não! “Serrar” comida na casa do caiçara! E nós vamos almoçar lá? E eu imediatamente disse:
- Claro que iremos, afinal ele nos convidou e é falta de cortesia desprezar tão nobre convite.
         Desarmamos nosso guarda-sol e seguimos até a casa do caboclo com a barriga roncando de tanta fome, pois já passava das duas horas da tarde.
         Assim que chegamos na humilde casa do pescador ele nos convidou a entrar e disse:
- Olha vocês não repare na simplicidade, esta simples casa foi construída por mim e esta é minha esposa e meus filhos. Abraçamos um por um entre o ciscar de algumas galinhas de rondavam nossos pés e sentamos num enorme banco de madeira colocado ao lado de uma enorme e rústica mesa de madeira sob um enorme pé de abacate e logo apareceu a esposa do pescador com um enorme caldeirão e colocou sobre a mesa ao lado de uma panela cheia de arroz.
         Um pouco envergonhados fomos nos servindo e o aroma delicioso daquela galinhada feita no fogão à lenha, o barulho das ondas do mar a visão do mar e os sorrisos de satisfação e alegria transportava-nos a simplicidade e agradecíamos a Deus por aquele momento inefável.
         Terminamos nossa refeição e despedimos do caboclo e prontifiquei-me a pagar pela comida e ele não queria receber de jeito nenhum, foi quando coloquei uma nota de dinheiro no bolso da surrada camisa do pescador, dei-lhe um forte abraço a saí com os olhos marejados por vivenciar momento tão sublime.
         Era hora de voltar para casa, mas ainda houve tempo de eu correr atrás de algumas gaivotas que passeavam pela praia e gritar bem alto: Obrigado Deus por permitir vivenciar momento tão maravilhoso como este!

9 de dez. de 2012

SORVETE DE MORANGO



          Existia uma sorveteria perto da casa da minha irmã Sônia, na Vila Maria Alta – SP pertencente a uma japonesa que fornecia o carrinho e cobrava pelos picolés um preço bem “pequenininho” e quanto eu não estava empregado com carteira assinada lá estava eu a retirar alguns sorvetes para vendê-los pelas ruas do bairro.
         Era lá numa quarta-feira de verão de muito calor resolvi retirar uns cem picolés e logo às oito horas lá estava eu a escolher quais picolés iria vender naquele dia, enchi o carrinho com quase todos os tipos de sorvetes e saí pelas ruas do bairro vendendo um aqui outro acolá entre várias buzinadas e quando chegou meio dia percebi que se eu não andasse mais um pouco não conseguiria vender todos os sorvetes e a direção foi ir para Vila Maria Baixa e quando cheguei à Praça Eduardo Coathing estacionei meu carrinho na praça e fiquei pacientemente aguardando os fregueses naquela tarde muito quente.
         Apareceu um garotinho de uns nove anos e disse que morava na favela e não tinha dinheiro para pagar o sorvete e gostaria muitíssimo de chupar um picolé de morango, pois estava muito calor.
         Olhei bem para o garotinho, com um chinelinho todo velhinho, uma camisetinha regata com alguns furinhos e uma surrada bermuda jeans e não tive dúvida, retirei um sorvete de morango e dei ao garotinho e foi neste exato momento que apareceu uma mulher muito elegante e disse:
- Eu já disse pra você não pedir nada pra ninguém e outra coisa, olhe bem para este sorveteiro, se você não estudar vai ficar igual a ele, vendendo picolés pelas ruas... Já disse, vamos embora pra casa e devolve este picolé para este insignificante sorveteiro.
         Não me contive, chamei a mulher, olhei bem nos fundos dos seus olhos  e disse:
- Olha aqui sua FDP mal agradecida, dei o sorvete gratuitamente para o garotinho pensando tratar-se de apenas mais um pobrezinho, mas pelo visto vemos que não tem nada a ver com a pobreza e outra coisa se estou a vender picolés pelas ruas é porque ainda não apareceu uma boa oportunidade de emprego, pois tenho estudo, falo inglês e você é uma mal agradecida, peguei o carrinho a saí humildemente, empurrando o carrinho de sorvetes pela praça com os olhos lacrimejados, foi quando se abriu a porta de uma VAN e apareceu várias pessoas dizendo que pertenciam a equipe de um programa de televisão e aquilo era apenas uma “PEGADINHA”. Eu estava tão magoado que mandei todos para o inferno e falei algumas palavras de baixo calão para toda equipe e saí quase que chorando da praça empurrando meu carrinho com uns trinta sorvetes que faltavam para serem vendidos.
         Quando eu estava preparando-me para subir o morro para Vila Maria Alta, cansadíssimo apareceu um carro, parou e disse que gostaria de comprar alguns sorvetes e perguntou-me quantos sorvetes eu tinha e disse que aproximadamente uns trinta e o senhor comprou todos e esticou um papel para eu assinar pedindo autorização para publicar a “Pegadinha” da Praça e ainda receberia uns trocados pela publicação. Assinei os papeis pela autorização da publicação e pedi um “cachê” três vezes maior ao estipulado e fui embora para casa com um dinheiro muito bom e fiquei aguardando a minha aparição na TV, o que não aconteceu, talvez eles tenham pensado duas vezes antes de publicar o acontecido. Garanto a todos que me senti um pouco inconfortável com aquele momento e depois quando se lembrava desta “passagem” ria muito e ficava pensando: Nossa como eu era bobinho com este velho e bondoso coração sempre querendo ajudar o próximo. Mas valeu pela “Pegadinha”. Agora risos, outrora humilhação, mas valeu!

2 de dez. de 2012

FELIZ ANIVERSÁRIO IRMÃ SUELY!



       
              Apenas um texto é insuficiente para descrever todo o meu carinho e admiração que nutro por esta maravilhosa irmã chamada: Suely Regina da Silva.
         Nas nossas correspondências em “Inglês”, havia todo o cuidado em medir cada palavra e todo o esmero com as traduções e palavras de carinho eram postadas periodicamente e quando eu recebia uma carta da querida irmã Suely eu ficava muito feliz, foram várias cartas recebidas e remetidas no idioma Inglês o que resultou em uma troca de selos de primeira qualidade.
         Existiu uma época em que eu era um boêmio e adorava frequentar todos os barzinhos do centro de São Paulo e sempre contava a ela os personagens que apareciam nos barzinhos, até que chegou um final de semana e ela pediu se podia acompanhar-me e eu disse:
- Claro mana, será um enorme prazer ter sua companhia no barzinho que tanto adoro e frequento!
         Chegamos um pouco cedo ao barzinho, lá pelas nove horas da noite e era muito legal vê-la muito feliz ao lado do seu marido Nelson e com um a enorme barriga, pois ela estava grávida e lá estava eu a colocar algumas fichas numa enorme máquina que tocava lindas música de Lupicínio, Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina e outros ícones da nossa MPB.
         Entre vários chopinhos e porções de provolone à milanesa apareceu um “caboclo” com um sax e começou a tocar várias músicas e eu pedi para ele tocar Sampa de Caetano Veloso e lá ficamos a viajar no maravilhoso som do artista de rua. Estendeu seu chapéu, arrecadou alguns trocados, arquivou seu sax e foi tocar em outro barzinho do centro velho de Sampa.
         Em outra ocasião ela pediu para eu ensiná-la equação do segundo grau e resolvi ensiná-la da maneira tradicional e resolver através de matriz e quando ela resolveu uma prova através de matriz a professora ficou estupefata e perguntou a ela quem tinha ensinado a resolver equação do segundo grau através de matriz e ela orgulhosamente disse: Foi meu irmão que está fazendo Engenharia em São José dos Campos e orgulhosamente ganhou a nota máxima.
         E quando apareci numa pensão na Vila Maria Baixa, vindo do interior, sem lenço e sem documento, repentinamente minha irmã apareceu com vários lençóis, travesseiros, Edredons, depositou no velho sofá da pensão e disse:
- Isto foi enviado para você por uma pessoa que te ama muito irmão: A irmã Suely que sou eu deu um carinhoso abraço na minha pessoa e saiu um pouco triste com minha situação de pensionista e “andarilho”.
         Caminhei lentamente com todo o presente ganhado depositei na beliche e saí para repensar nas pessoas que realmente gostam da gente.
         Na época em que um primo faleceu no interior fomos ao velório e a querida irmã Suely rezava muito e tinha tornado-se uma “beata”, pois cria nas orações e assim que chegamos ao velório começou a rezar um terço e nunca parava, creio que ficou rezando umas duas horas até que chegou num determinado momento eu disse:
- Mana, pelo amor de Deus para de rezar, senão o morto vai levantar do caixão e pedir humildemente que cesse as orações, pois o mesmo já não aguenta mais! E eu já sei de cor todas as orações e quer saber de uma coisa: Quando eu falecer, jamais quero que você vá ao meu velório! Alguns sorrisos e ela pediu gentilmente para eu calar que ainda faltava rezar mais algumas orações.
         Foram tantas as passagens e ainda até hoje me lembro nas maravilhosas festas de fim de ano em que a gente se reunia na casa do nosso querido pai José da Silva e nossa querida mãe Thereza Miranda da Silva para comemorar a chegada do Ano Novo e trocar presentes do Amigo Secreto e os sorrisos e a Felicidade existia.
         Memoráveis e inesquecíveis guloseimas, dentre todos recordo do tradicional cuz-cuz que nossa mãe preparava com muito carinho e entre as fitas cassete que gravávamos nossa alegria e aparecia minha irmã Suely e entregava-me algum presente singelo, como uma caneta, uma agenda e dizia: Isto é pra você irmão, com todo carinho e saia com os olhos lacrimejados e ia sentar-se na enorme mesa a espera do tradicional jogo de baralho que durava a noite toda e eu perdia todo meu dinheiro.
         De emoção em emoção fomos vivendo, vivendo e hoje estamos um pouco distantes apenas pela distância, pois adoro você minha querida irmã: Feliz Aniversário e que Deus sempre continue iluminando seu caminho e você possa nos proteger com todo a sua devoção e carisma. Parabéns querida irmã, nós te amamos!