8 de set. de 2012

CONTROLE REMOTO



        Uma enorme bandeira do Palmeiras estava hasteada em frente ao bar do Jacaré, grossas fumaças subiam de uma enorme churrasqueira que fora colocada na calçada e os sorrisos de felicidade dos frequentadores misturados com boas doses de cervejas podiam ser ouvidos em todas as esquinas do bairro da Vila Maria Alta, em São Paulo.
         O clima era de final de campeonato onde o Palmeiras iria enfrentar outro time que não me recordo o nome e confesso que senti uma enorme vontade de participar daquela festança toda, mas como meu time não era o Palmeiras optei em ficar sentadinho na calçada na frente da casa da minha irmã Sônia apreciando de longe toda a algazarra dos Palmeirenses.
         Passados alguns minutos apareceu meu sobrinho Evandro no portão e fez o convite que eu estava esperando:
- O tio, que tal a gente beber algumas cervejas no bar do Jacaré e ver esta festa de perto e ainda se dermos sorte poderemos até comer um pedacinho de carne?
Rapidamente levantei-me e seguimos até o bar, pedimos licença e sentamos num banco alto de madeira e pedimos uma cerveja e com um olhar na televisão e outro no abridor fomos servidos sem muita cerimônia pelo Jacaré.
         O jogo estava começando e todos os Palmeirenses acotovelavam-se para ver a escalação do time e nós lá sentadinhos alheios a tudo e a todos. Os gritos de incentivo ao time podiam ser ouvidos a dezenas de quilômetros e subitamente meu sobrinho levantou-se e pediu para eu ficar esperando ele no bar que ele iria até em casa buscar dinheiro e voltaria rapidamente.
Passados alguns minutos lá estava meu sobrinho Evandro de volta e vinha carregando na face um sorriso “maroto”, sentou-se e perguntou quanto estava o jogo e eu disse que o jogo acabara de começar e estava zero a zero e neste exato momento derrubaram um jogador do Palmeiras na área e o juiz assinalou pênalti e pensei que o boteco vinha abaixo tamanho a alegria e felicidade dos torcedores.
         O jogador do Palmeiras tomou distância e o correu para bater o pênalti e exatamente neste instante a imagem da televisão desapareceu e entre milhares de palavrões o Jacaré correu para religar a televisão, subiu num dos bancos de madeira e ligou a televisão e foi muito aplaudido por todos.
         Perguntei ao meu sobrinho o que estava acontecendo e ele com um sorriso de satisfação meneou a cabeça e disse que não sabia de nada.
         O jogo continuava e a televisão fora desligada mais umas duas vezes antes de terminar o primeiro tempo e lá estava o Jacaré a religá-la. Alguns torcedores mais exaltados chegaram a amaldiçoar a quinta geração do dono do boteco e nós lá firme na quinta cervejinha e eis que meu sobrinho comentou:
- Tio, acho que está na hora de irmos embora, pois o pessoal já está desconfiado da gente e quando souberem que estou com o controle remoto da televisão da minha casa seremos apenas duas pessoas mortas e saímos de fininho e meu sobrinho ria alto e balançava o controle remoto. Conseguimos sobreviver para contar mais esta patifaria aprontada pelo meu querido sobrinho Evandro. Controle remoto.

CHURRASCO NA PRAÇA



                       E lá estava aproximando o dia do meu aniversário e resolvi fazer um alegre e surpreendente churrasco em um local diferente, com muito verde, pássaros e vento batendo no rosto.
         Pensei em vários lugares e entre todos surgiu na minha mente uma bela praça localizada num bairro nobre da cidade onde eu morava.
         O sábado amanheceu maravilhoso e imediatamente comecei a preparar as carnes que seriam assadas. Cortei-as e coloquei numa enorme topware e deixei repousando enquanto eu e meu filho de cinco anos fomos encomendar o barril de chopes.
         A situação na choperia foi muito engraçada, pois o proprietário perguntou o local da entrega dos chopes e eu indiquei a tal praça e ele sorriu muito e disse:
- Adorei seu senso de humor...mas qual é o local de entrega?
Insisti que iria fazer um churrasco na praça e ele perguntou-me quantas pessoas iriam participar e ai eu disse:
- Apenas eu, meu filho e minha patroa e se aparecer alguém e quiser beliscar um pedacinho de carne terei o maior prazer em oferecer.
Um pouco desconfiado, anotou o pedido, recebeu o pagamento e disse que em duas horas o chope estaria sendo entregue na praça.
        
         Levei uma churrasqueira, sacos de carvão, as carnes e uma mesinha desmontável e lá estava eu e meu filho abanando o carvão para pegar fogo sob os olhares curiosos das pessoas que moravam em lindas casas que rodeavam a praça.
         Os primeiros pedaços de carnes foram colocados na churrasqueira e o maravilhoso cheiro da carne começou a invadir nosso olfato e foi quando surgiu um caminhão para entregar os chopes e o mesmo foi instalado em cima de um banco de cimento ao lado da churrasqueira.
         Bebi alguns copos de chopes enquanto alguns transeuntes começaram a chegar e curiosos queriam saber quem estava “patrocinando” o churrasco e eu dizia que era meu aniversário e todos podiam comer e beber a vontade.
         A quantidade de pessoas foi aumentando até que chamaram a policia para questionar o verdadeiro motivo e após saberem do motivo ainda ficaram por lá para manter a ordem na praça.
         Após três horas de churrasco, não restou mais nada, apenas uma bela lembrança de um churrasco feito na praça e uma multidão agradecendo e desejando-me Feliz Aniversário.

7 de set. de 2012

HOTÉIS



         Foram vários os hotéis por onde eu hospedei-me, alguns cinco estrelas, outros não existia estrelas, apenas uma entrada, uma cama e um velho guarda-roupa carcomido.
         De todos os hotéis por onde passei guardo com muita satisfação e alegria um hotel sofisticado que ficava na Avenida São João, bem em frente ao Largo Paissandú, no centro da cidade de São Paulo.
         Conheci este hotel quando eu era office-boy, na década de 70, quando eu ia entregar algumas correspondências na portaria para o zelador e ficava imaginando que quando eu completasse dezoito anos iria hospedar-me naquele lindo hotel.
         Dois dias após completar meus dezoito anos, reservei alguns trocados e lá fui eu hospedar-me no meu sonho de adolescente. Avisei mamãe que iria dormir num hotel e ela desabou em risos e perguntou-me o porquê, se a cama onde eu dormia não estava boa. Contei da minha vontade enorme em conhecer o hotel e ela concordou e ainda perguntou-me quando eu ia saindo se eu não ia levar nenhuma garota para fazer companhia e eu disse que não, pois era apenas para conhecer e viver outro ambiente jamais visto aos meus olhos de garoto da periferia.
         Cheguei ao hotel e fui recebido com boas vindas e um enorme sorriso do zelador que foi logo anunciando que não receberia correspondências nos finais de semana e logo disse a ele que gostaria imensamente de hospedar-me naquele magnífico hotel e ele imediatamente disse:
- Sabe garoto, vou hospedá-lo no melhor apartamento que existe neste hotel! Passou a mão num enorme molho de chaves, pegamos o elevador e fomos até o último andar do prédio, caminhamos lentamente e a chave foi colocada na fechadura, ele abriu a porta e eu quase tive um ataque cardíaco diante de tanto luxo e beleza.
         Desejou-me boa tarde, fechou lentamente a porta e saiu rindo alto pelo enorme corredor do prédio.
         Abri as cortinas vagarosamente e ainda consegui ver o por do Sol da maior cidade da América Latina. Joguei-me na confortável cama e fiquei imaginando tomar um banho naquela enorme banheira existente no banheiro.
         Era muito luxo e beleza aos meus olhos e resolvi descer para comer um lanche chamado Bauru no tradicional Ponto Chic e após saciar minha fome e sede voltei ao meu paraíso.
         Enchi a banheira de água, entrei cautelosamente na mesma e fiquei bebericando algumas cervejinhas, lendo uma revista que acabara de comprar numa banca de jornal chamada “POP” e imaginando que era um garoto muito “rico” em poder desfrutar daquele momento maravilhoso em hospedar-me pela primeira vez num hotel.
         Após vários anos morando no interior, quando ia visitar minha querida cidade de São Paulo fazia questão de hospedar-me neste hotel que existe na minha mente até hoje e ainda escuto na minha mente o carrinho andando pelo corredor trazendo o maravilhoso café matinal. Belas recordações da primeira noite num hotel!

LAVA RÁPIDO


- Oi bem, acorda, hoje é sábado, que tal irmos lavar meu carro?
         Assim eu era cordado quase todos os sábados e fingia estar dormindo para ganhar mais alguns afagos e abrir os olhos e encontrar um sorriso angelical convidando-me para lavar um velho carro fabricado em 1.975 caindo aos pedaços. A vontade de falar um “não” era tentadora, mas diante de tantos “mimos”, afagos e um ar de felicidade estampado no rosto da pequena, curvava-me diante do momento, dava um carinhoso beijo e levantava alegremente.
         Todos os nossos cafés matinais aos sábados eram demorados e colocávamos nossas conversas em dia e entre um sorriso adormecido, uma mordida no lanche preparado antecipadamente pela patroa, observava o sol invadir nossa cozinha convidando-nos para mais um lindo dia.
         Após bebermos o café, eu colocava uma bermuda, uma camiseta regata e um chinelo e seguíamos alegremente até o lava rápido que ficava próximo do nosso lar.
         Naquela época não existia “DVD” e eu sempre comprava algumas fitas cassete de MPB para ouvir ao longo do percurso até o lava rápido e para agradar a patroa também comprava algumas fitas de “pagode”.
         Ao chegar ao lava rápido onde conhecíamos quase todas as pessoas, pedíamos uma lavagem completa e eu imediatamente ia até os lavadores passar as instruções “secretas” e assim dizia aos garotos que lavavam os carros:
- Garotada, não há a mínima necessidade de “pressa”, quanto mais demorar mais caixinha vocês ganharão!  Isto porque eu adorava jogar truco e beber algumas cervejas e quando encontra parceiros bons no jogo de truco passava quase toda a tarde lavando o tal do carro e a patroa irritada questionava a demora e eu sempre dizia:
- Calma linda, “cabeça de gelo” é que a garotada está caprichando na lavagem e afinal seu carro ficará maravilhoso e todos ficarão admirando o brilho dos dois: do carro e do seu brilho, minha estrela!
         Em seguida as cartas tinham sido distribuídas e eu tinha pegado as três melhores cartas do jogo, chamava a patroa e pedia gentilmente para ela ir até a dupla adversária e gritar bem alto nos ouvidos dos marmanjos: TRUCO!
         Obviamente que os meus desejos não eram atendidos e ela pedia gentilmente para irmos embora, pois o carro já tinha sido lavado já fazia mais de meia hora.
         Levantava-me contrariado com um sorriso amarelado e despedia do meu parceiro anunciando que no próximo sábado o jogo continuaria.
         “Entrávamos no carro que estava muito limpo e cheiroso, pagávamos e eu sempre dava uma “gorda” caixinha” para os garotos lavadores e íamos embora escutando pagode e eu batucando no painel frontal do carro sob efeito de várias cervejas e um sábado maravilhoso que íamos ao lava rápido.

18 de jul. de 2012

MARÉ ALTA


                  E lá estávamos nós com uma enorme caixa de isopor no ombro lotada de sorvetes para vender na praia de Itamambuca, litoral norte de São Paulo.
                   O ritual era o mesmo, depois de viajar quarenta minutos pela  BR-55, destino Pincinguaba eu descia do ônibus na entrada da praia mais linda deste planeta, chamada: Praia de Itamambuca, em Ubatuba-SP.
                   Eu adorava vender sorvetes em Itamambuca, então caminhava até a entrada da praia e dirigia-me até o bar do Zé Prefeito, degustava alguns torresmos, algumas caipirinhas, desamarrava meu carrinho de sorvete que ficava trancado numa velha árvore, colocava minha enorme caixa de sorvetes e saia à procura dos meus primeiros fregueses.
                   Até chegar à praia não vendia nada, pois os preços dos meus sorvetes não eram nada doces e sim muito salgados... pois vendia os mesmos por um preço muito especial.
                   Sempre fazia algo diferente para agradar meus clientes: ora promovia alguma história e queria saber o final e quem acertasse ganhava um sorvete e outras vezes a grande diferença estava em colocar o meu carrinho de sorvete em cima de uma enorme pedra que ficava dentro de um riozinho que desaguava no mar e lá eu ficava apreciando todos sentado confortavelmente e de olho no carrinho para que o mesmo não desabasse pedra abaixo.
                   Os sorvetes eram vendidos para a criançada que ficavam nadando no riozinho e era muito divertido quando alguma moeda caia da mão da criançada e eu dizia que tinha que pegar a moeda no fundo do riozinho senão não venderia o sorvete e era muito engraçado ver as crianças mergulharem a procura das moedas perdidas e quase sempre encontravam e a alegria estava completa entre todos.
                   Aquele domingo estava todo especial, pois tínhamos sido presenteados com um dia maravilhoso, um céu que se misturava com o mar e um Sol que iluminava toda nossa felicidade.
                   O dia foi passando vagarosamente e todos pareciam muito felizes com aquele dia maravilhoso, pois eu escutava sorrisos altos motivados por boas doses de caipirinhas, crianças correndo, pulando, nadando e eu lá firme em cima da pedra com o meu carrinho de sorvete e alguns turistas até tiravam algumas fotos por ver um sorveteiro diferente com um carrinho numa pedra rodeado de água por todos os lados.
                   Quase todos os sorvetes tinham sido vendidos e era hora de sair do meu inusitado posto de trabalho e foi aí que aconteceu a grande surpresa: Não havia como sair de cima da pedra, pois a maré tinha subido e o carrinho teve que sair com a ajuda de muitas crianças que alegremente ajudaram-me a tirar o mesmo e após muito esforço coloquei meu carrinho na praia, distribui o restante dos picolés para a criançada e fui embora muito feliz e agradecendo a Deus por aquele dia maravilhoso. Dia de Maré Alta.

3 de jul. de 2012

CHURRASCOS NO SERÓDIO

           Existiu uma época em que morei num bairro chamado Seródio, em Guarulhos-Sp. Morava em pensões no centro de Guarulhos e sempre perguntava para minha querida tia Terezinha que quando ela soubesse de algum lugar “legal” para morar avisasse-me e passados alguns meses minha tia anunciou que tinha uma colega chamada Ester que possuía um cômodo muito simples que ela estava alugando e no mesmo quintal existiam três casas: Uma em que a Ester morava e outras duas estavam para alugar e assim fechamos o contrato: Iria morar meu primo Zezinho e família numa casa de dois cômodos e eu alugaria o outro cômodo e assim combinei com meu primo que quando ele fosse fazer a sua mudança colocaria meu colchão, alguns livros e lá estava eu mudado.
         O grande problema é que a mudança aconteceu num sábado e infelizmente eu estava trabalhando e não acompanhei a mudança.
        Saí da fábrica, eu e alguns colegas fomos beber várias cervejas e em seguida tomei uma lotação para o meu novo lar, só que existia um pequeno probleminha: Só sabia a nome da rua e que a mesma ficava próxima a um Circo escola, porém não sabia o número da casa.
         Logo que cheguei próximo ao circo escola o motorista anunciou que eu deveria descer naquele ponto, desci e caminhei até a rua e entrei num bar e comecei a perguntar a todos os frequentadores onde morava uma tal de Ester. Felizmente eu estava no bar do Zé que anunciou que a mesma morava em frente ao bar.
         Caminhei lentamente até o portão, bati palmas e logo avistei minhas queridas sobrinhas Camila e Carol dando-me boas vindas.
         Entrei e fomos comer uma pizza para comemorar o novo lar ao som do especial Roberto Carlos no final do ano.
         O tempo passou e quase todos os finais de semana a gente fazia um churrasco no imenso quintal da casa da Ester e era muito divertido quando em alguns finais de semana eu não queria fazer churrasco a minha sobrinha Camila dizia que poderia ajudar-me, pois seu pai, o Zezinho, tinha um cartão de crédito que ajudaria muito na compra das carnes, carvão e assim seguíamos para o açougue e comprávamos tudo, porém na hora de passar o cartão do seu pai o mesmo não tinha crédito e eu não devolvia as carnes de jeito nenhum, pagava com o meu cartão e assim seguíamos feliz para o nosso churrasco de finais de semana e minha sobrinha sempre dizia: Desculpa aí tio...eu não sabia que o cartão estava zerado! Os sorrisos e a Felicidade misturavam-se com o momento mágico dos churrascos muito improvisados de muita alegria e muitas histórias ao som de algumas boas músicas brasileiras. Saudades desta época! rsrsrs