17 de abr. de 2012

APRENDIZ DE AÇOUGUEIRO


            Estava eu lá despreocupado, lendo os meus gibis do Zorro, do Super Homem, do Batman, Homem Aranha e quando mamãe chegou do açougue anunciou meu novo serviço.  Iria trabalhar com o senhor Mário, um Português que tinha um açougue na esquina da rua onde morávamos. Eu não me contive e perguntei a mamãe:
- Mas mamãe o que eu vou fazer num açougue?Não sei nem cortar um pãozinho direito, imagina eu cortando pedaços de boi! E mamãe disse que já tinha combinado até quanto eu iria receber e foi então que perguntei:
- Quantos milhares de dinheiro receberei? E mamãe disse:
- Você não receberá dinheiro algum, apenas um quilo da melhor carne por dia trabalhado!
Desmanchei-me em gargalhadas e supliquei a mamãe que desmanchasse o contrato, pois estaria disposto a fazer qualquer outra coisa, menos trabalhar por carne, sem ver a cor do dinheiro.
Mamãe insistiu e no outro dia lá estava eu na frente do açougue do senhor Mário esperando o mesmo abrir o estabelecimento de comercio do boi.
O senhor Mário chegou, desejou-me bom dia, entramos no açougue e o meu primeiro serviço foi aprender a encher linguiça.
Era muito engraçado eu colocando pedaços de carnes e passando por uma máquina e a linguiça saía prontinha do outro lado. Até que era divertido o meu serviço.
Atendia alguns fregueses, enchia linguiça e no final do expediente ajudava a fazer uma faxina no açougue. Mas jamais o senhor Mário permitia que eu cortasse carne, pois ele tinha medo de eu acidentar-me. Ao fechar o açougue o bondoso Português cortava vários bifes de primeira qualidade, embrulhava e dava para eu levar para casa.
Os dias foram passando, as linguiças foram sendo feitas, o açougue andava muito limpo, até que num determinado dia resolvi que não queria mais receber os meus proventos em carne e sim em dinheiro. E o Senhor Mário falou: Não há problemas, todos os dias dou um dinheiro pra você, só que as carnes você não levará mais.
Fiquei muito feliz e contei a quebra de contrato para mamãe que não gostou da troca, pois assim que eu dava o dinheiro recebido para ela, eu tinha que voltar ao açougue ou ao mercadinho para comprar “mistura”.
         Trabalhei muito tempo com o senhor Mário no açougue, ora recebendo o meu salário em dinheiro, ora recebendo em carne, até que ele vendeu o açougue e começou a construir uma linda casa e lá fui eu trabalhar de servente na construção da linda casa do Sr.Mário.
O senhor Mário era um ótimo patrão, um amigo de todos e gostava muito da nossa família. Bela recordação! Aprendiz de açougueiro com o saudoso senhor Mário.

15 de abr. de 2012

O BEIJO

         E lá estava eu, encostado na varanda e apreciando a deliciosa chuva que caía torrencialmente e aguçando minha mente para uma passagem na minha vida que passo a descrever:
         Eu estava estudando a oitava série do curso ginasial no Ginásio Estadual Cidade de Hiroshima, em Itaquera, zona Leste da cidade de São Paulo.
         Todo ser humano além da sua capacidade tem que ter um pouquinho de sorte, e disto jamais posso reclamar, pois acho que tive e ainda tenho muita sorte nesta vida.
         No ginásio onde eu estudava tinha uma menina que além de muito bela, era inteligente, coordenadora de classe e para minha sorte, estudava na minha sala.
         Adorava quando ela reunia toda a classe para pedir mais empenho, menos bagunça e seus olhos verdes ficavam mais lindos quando ela ficava séria, nervosa e seus lábios carnudos tremiam e eu viajava naquelas palavras que pareciam um bálsamo aos meus ouvidos.
         Eu simplesmente adorava minha querida coordenadora de classe chamada Cleuza, pois além de muito bonita, era inteligente, trajava-se com uma calça jeans, uma camiseta branca e uma sapatilha vermelha.
         Eu tinha certeza que jamais poderia um dia beijar os lábios carnudos da minha querida coordenadora de classe, pois existiam vários garotos muito bonitos que faziam visitinhas frequentes a nossa classe para apreciar o que existia de mais belo naquela escola e confesso que ficava muito nervoso com a presença daqueles garotos e foram várias vezes que eu fechei a porta na cara dos meninos. Ciúmes daquilo que não pertencia a minha pessoa.
         Lá pelo final do ano, tínhamos uma prova muito difícil e quando soube que minha querida colega de classe precisava de uma nota alta para passar, fiz uma proposta para a lindinha:
         Faço a minha prova e a sua, mas como recompensa quero apenas um beijo destes seus lábios carnudos. Ela sorriu, mostrando os dentes de marfim e aceitou a proposta.
         Eu não cabia de felicidade e imediatamente fui procurar um colega inteligentíssimo chamado Dulcidio, que estudava química na Osvaldo Cruz. Descrevi que necessitava aprender equação do segundo grau, pois eu teria uma prova e precisava saber muito, pois iria fazer a minha prova e da minha colega.
         Ele sorriu e aceitou o desafio, mas fez outra proposta, pois queria que eu apresentasse uma colega para um futuro namoro. Aceitei e passamos a estudar todos os dias para fazer as provas e ganhar um beijo daquela linda coordenadora de classe.
         Após várias semanas de estudo, eu já estava preparado para fazer as provas e naquela Sexta-feira à noite, quando a professora distribuiu as folhas, sentei-me atrás da querida colega.
         Fiz a prova e passei para ela e imediatamente comecei a fazer a minha e assim que terminei, solicitei a ela que me esperasse no pátio, pois queria minha recompensa. O Beijo!
         A querida colega sorriu e saiu vagarosamente e ficou esperando-me no pátio e lá fomos nos para um muro fora da escola para beijarmos e finalizar o contrato.
         Assim que começamos a beijar, começou a chover muito forte e a linda garota pediu para adiarmos nosso beijo e disse que num outro dia a gente continuaria aquele beijo. O tempo passou e nunca mais encontrei a querida colega Cleuza para finalizarmos aquele significante beijo. Eu fiz a minha parte e ela ficou devendo aquele tão sofrido beijo, mas ajudou-me muito nesta vida, pois equação do segundo grau sei até hoje e quando começo a resolver alguma equação do segundo grau em vários concursos que participo, ainda sinto aqueles macios e deliciosos lábios carnudos da menina mais linda da minha escola.

12 de abr. de 2012

CARTAS


            Você se lembra da última vez que escreveu uma carta para algum amigo, parente ou alguma pessoa querida?
         Mas quando eu falo carta é quando você pega aquele velho caderno espiral, retira uma ou duas folhas, empunha uma caneta bic e começa a escrever e após escrever, dobra a carta carinhosamente, abre o envelope coloca a carta dentro e fecha cuidadosamente e leva a mesma até a Agência dos Correios.
         Com a criação do Correio Eletrônico (E-mail) nunca mais escrevemos uma carta num pedaço de papel. Qualquer dia destes irei escrever uma carta desta maneira para relembrar o tanto quanto de sentimentos postava via simples cartinhas.
         Quando eu era jovem adora escrever cartas e escrevia constantemente para minha irmã Suely, pois eu morava em Jacareí e minha irmã morava em São Paulo.
         Escrevíamos falando sobre o nosso cotidiano, as saudades existentes, um ou outro fato mais relevante do noticiário, afinal a gente se comunicava via carta e até fizemos uma maravilhosa coleção de selos que quando a gente se encontrava, fazíamos grandes trocas de selos e agendávamos assuntos para as próximas cartas. Era simplesmente muito gratificante escrever cartas!
         Hoje sentamos na frente co Computador, acionamos o Word, deitamos nossos dedos nas teclas e esparramamos sentimentos. Confesso que tudo ficou muito mais fácil, mas ainda tenho muitas saudades da velha caneta com a tampa toda mordida devido as frequentes dúvidas sobre concordância nominal, concordância verbal e aí quem nos salvava era o querido Aurélio. Grande Aurélio!
         Não há como regressar, apenas ficou registrado em várias folhas de papel que se perderam no tempo e ainda tenho algumas cartas amareladas pelo tempo que guardo com muito carinho.
         Muitos jovens de hoje nunca sentiram o prazer  de escrever ou receber uma carta, abrir cuidadosamente e reunir todo o pessoal da família para saber das boas novas e depois guardar a mesma carinhosamente num lugar todo especial. Dentro do coração!

10 de abr. de 2012

EQUILÍBRIO


        Quase que diariamente vou ao supermercado quando retorno do serviço e na maioria das vezes convido minha netinha para acompanhar-me e ela prontamente enche o recinto de alegria e dá um maravilhoso grito: Oba! E imediatamente puxa-me pela mão dizendo: Vamos vovô, vamos vovô, não esquece a sacola!
         E lá vamos nós, nos divertindo com o passar dos carros, de uma carroça, de detalhes em placas, uma nova flor que nasceu, um transeunte aqui, outro acolá e eu fico imaginando como seria legal se eu tivesse a mesma idade da minha netinha e quando ela convidasse-me para equilibrar em pequenos pedaços de ferro que ficam na frente de um estacionamento, ficaríamos nos equilibrando e deixando o tempo passar, sem pressa com a vida. Mas não, ainda insisto para que os seus equilíbrios sejam um pouco mais rápidos e fico questionando-a quanto ao grau de alegria e felicidade existe em poder andar em cima de pedaços de ferro e ela ri e convida-me: Tenta vovô, tenta equilibrar-se, o senhor vai conseguir! E segura minhas mãos sorrindo para todos e lá vamos nós tentarmos equilibrar-se e olha que às vezes até que consigo andar alguns centímetros e quando caio ela desmancha-se em sorrisos e diz: tenta de novo vovô, o senhor vai conseguir!
         Hoje abandonei a pressa e ficamos alguns minutos tentando equilibrar-nos e em seguida fomos ao supermercado e enquanto estava na quilométrica fila do caixa fiquei imaginando o tanto quanto temos que nos equilibrar nesta vida, quantas tentativas, quantos tombos, mas jamais devemos desistir!
         Voltamos alegres e satisfeitos, pois de todas as quedas conseguimos chegar em casa sem escoriações e feliz, muito feliz com nossos tombos e equilíbrios da fugaz vida.

8 de abr. de 2012

O VERDADEIRO AVÔ


         O verdadeiro avô é aquele que participa vinte e quatro horas por dia na criação dos seus netos, não aquele avô relapso que se restringe a dar alguns presentes em datas comemorativas, passar as mãos na cabeça dos pequenos, desejar tudo de bom e ir embora.
         Observo alguns avôs que sustentam um ar de superioridade em afirmar que tem doze netos, não sei quantos bisnetos e blá, blá, blá, aí não aguento e logo pergunto: Mas onde estão todos estes netos? Eu não os vejo!
         Tenho observado por aqui a raridade de avôs acompanhando seus netinhos ou netinhas nas atividades pelo parque que frequentamos, eu e minha netinha. Quando os vejo, faço questão de parar e puxar alguns segundos de prosa e dar os parabéns. Aí fico me perguntando: Será que sumiram todos os avôs, morreram todos ou eu é que sou um avô "bobão vivo" que faço questão de acompanhar minha netinha em todas as atividades, seja na escola, na alfabetização, nas brincadeiras de amarelinha, contar historinhas. Então me questiono: É, acho que estou na contramão da história. Não existem mais avôs!
         Lembro-me dos meus avôs e jamais naquela época tenho recordação de um avô passear comigo num parque, aliás, acho que naquela época não existia nem parque. Porque isto acontecia e está acontecendo até hoje? Seria pelo regime patriarcal em que fomos criados em que a criação era para as mães, avós e outros subalternos? Não sei, estou tentando achar a resposta em famosos antropologistas e não encontro resposta alguma.
         Haveria falta de amor por um neto ou todos estariam de saco cheio com a vida e estariam pensando somente nos próximos remédios a serem ingeridos para sufocar a dor de uma distância não compreendida?
         Realmente necessito de uma resposta e conclamo a todos os avôs para que no próximo final de semana a gente se encontre para discutir este distanciamento tão grande entre avôs e netinhos.
         Avôs existem, não há duvidas, mas onde estão? Talvez bebendo em algum boteco da vida, jogado o corpo flácido num velho sofá ou num asilo com uma saudade enorme de seus netinhos que faz tempo que não os vê.
         Faço o melhor papel de avô e sou participativo, pelo menos quando fechar os olhos para embarcar para outra vida sei que minha netinha dirá: Pois é, embarcou, quero ver onde arrumarei outro velhinho legal assim! Meu avô!

BICICLETA


           Se todo brasileiro tivesse uma bicicleta em casa e  fizesse uso da mesma cotidianamente e abandonasse o carro pelo menos uma vez por semana na garagem com certeza estariam contribuindo enormemente   em não poluir  tanto nosso planeta e viveriam alguns anos a mais.
         Mas possuir uma bicicleta não dá “status” para ninguém, aliás, muitos associam a quem tem uma bicicleta a pessoa de baixa remuneração, sem condições de comprar um carro e então continuam jogando toneladas de substâncias poluentes nos nossos pulmões, causando centenas de congestionamentos ao longo das nossas rodovias, atropelando, matando e exibindo luxuosos e reluzentes veículos.
         Se pararmos para refletir a quantidade de benefícios que andar de bicicleta nos traz, certamente começaríamos a andar de bicicleta agora mesmo.
         Tenho a minha bicicleta desde quando eu era garoto e jamais a abandonei, pois faço da mesma o meu meio de transporte cotidianamente, pois vou ao trabalho e volto de bicicleta, ao supermercado, ao passeio com minha netinha e a quase todos os lugares onde posso estacionar minha velha “magrela”.
         Neste domingo acordei bem cedinho, preparei um delicioso lanche, um cantil com água e saí pedalando sem destino, pois pedalar domingo de manhã na cidade onde moro é maravilhoso, pois não existe trânsito.
         Vento batendo no rosto, sensação de liberdade, apreciando os lindos ipês floridos e chácaras com muitos animais e fui parar na beira do rio Paraíba.
         Encostei minha bicicleta numa árvore, sentei-me confortavelmente num gramado e fiquei observando um senhor idoso e um garotinho pescando alguns poucos peixes existentes no rio e vários papagaios sobrevoando o rio e dando um verdadeiro espetáculo.
         Após alguns minutos de plena contemplação de ver o nascer do Sol, subi na minha bicicleta e voltei para casa pedalando vagarosamente e observando as primeiras pessoas chegando à padaria para comprar pães, de carro.
         Deu uma vontade enorme de pedir para o pessoal vir de bicicleta, mas como não conheço quase ninguém, continuei a pedalar e cheguei em casa e fui preparar o delicioso café matinal e refletindo sobre os benefícios de andar de bicicleta.Vamos pedalar!