12 de abr. de 2012

CARTAS


            Você se lembra da última vez que escreveu uma carta para algum amigo, parente ou alguma pessoa querida?
         Mas quando eu falo carta é quando você pega aquele velho caderno espiral, retira uma ou duas folhas, empunha uma caneta bic e começa a escrever e após escrever, dobra a carta carinhosamente, abre o envelope coloca a carta dentro e fecha cuidadosamente e leva a mesma até a Agência dos Correios.
         Com a criação do Correio Eletrônico (E-mail) nunca mais escrevemos uma carta num pedaço de papel. Qualquer dia destes irei escrever uma carta desta maneira para relembrar o tanto quanto de sentimentos postava via simples cartinhas.
         Quando eu era jovem adora escrever cartas e escrevia constantemente para minha irmã Suely, pois eu morava em Jacareí e minha irmã morava em São Paulo.
         Escrevíamos falando sobre o nosso cotidiano, as saudades existentes, um ou outro fato mais relevante do noticiário, afinal a gente se comunicava via carta e até fizemos uma maravilhosa coleção de selos que quando a gente se encontrava, fazíamos grandes trocas de selos e agendávamos assuntos para as próximas cartas. Era simplesmente muito gratificante escrever cartas!
         Hoje sentamos na frente co Computador, acionamos o Word, deitamos nossos dedos nas teclas e esparramamos sentimentos. Confesso que tudo ficou muito mais fácil, mas ainda tenho muitas saudades da velha caneta com a tampa toda mordida devido as frequentes dúvidas sobre concordância nominal, concordância verbal e aí quem nos salvava era o querido Aurélio. Grande Aurélio!
         Não há como regressar, apenas ficou registrado em várias folhas de papel que se perderam no tempo e ainda tenho algumas cartas amareladas pelo tempo que guardo com muito carinho.
         Muitos jovens de hoje nunca sentiram o prazer  de escrever ou receber uma carta, abrir cuidadosamente e reunir todo o pessoal da família para saber das boas novas e depois guardar a mesma carinhosamente num lugar todo especial. Dentro do coração!

10 de abr. de 2012

EQUILÍBRIO


        Quase que diariamente vou ao supermercado quando retorno do serviço e na maioria das vezes convido minha netinha para acompanhar-me e ela prontamente enche o recinto de alegria e dá um maravilhoso grito: Oba! E imediatamente puxa-me pela mão dizendo: Vamos vovô, vamos vovô, não esquece a sacola!
         E lá vamos nós, nos divertindo com o passar dos carros, de uma carroça, de detalhes em placas, uma nova flor que nasceu, um transeunte aqui, outro acolá e eu fico imaginando como seria legal se eu tivesse a mesma idade da minha netinha e quando ela convidasse-me para equilibrar em pequenos pedaços de ferro que ficam na frente de um estacionamento, ficaríamos nos equilibrando e deixando o tempo passar, sem pressa com a vida. Mas não, ainda insisto para que os seus equilíbrios sejam um pouco mais rápidos e fico questionando-a quanto ao grau de alegria e felicidade existe em poder andar em cima de pedaços de ferro e ela ri e convida-me: Tenta vovô, tenta equilibrar-se, o senhor vai conseguir! E segura minhas mãos sorrindo para todos e lá vamos nós tentarmos equilibrar-se e olha que às vezes até que consigo andar alguns centímetros e quando caio ela desmancha-se em sorrisos e diz: tenta de novo vovô, o senhor vai conseguir!
         Hoje abandonei a pressa e ficamos alguns minutos tentando equilibrar-nos e em seguida fomos ao supermercado e enquanto estava na quilométrica fila do caixa fiquei imaginando o tanto quanto temos que nos equilibrar nesta vida, quantas tentativas, quantos tombos, mas jamais devemos desistir!
         Voltamos alegres e satisfeitos, pois de todas as quedas conseguimos chegar em casa sem escoriações e feliz, muito feliz com nossos tombos e equilíbrios da fugaz vida.

8 de abr. de 2012

O VERDADEIRO AVÔ


         O verdadeiro avô é aquele que participa vinte e quatro horas por dia na criação dos seus netos, não aquele avô relapso que se restringe a dar alguns presentes em datas comemorativas, passar as mãos na cabeça dos pequenos, desejar tudo de bom e ir embora.
         Observo alguns avôs que sustentam um ar de superioridade em afirmar que tem doze netos, não sei quantos bisnetos e blá, blá, blá, aí não aguento e logo pergunto: Mas onde estão todos estes netos? Eu não os vejo!
         Tenho observado por aqui a raridade de avôs acompanhando seus netinhos ou netinhas nas atividades pelo parque que frequentamos, eu e minha netinha. Quando os vejo, faço questão de parar e puxar alguns segundos de prosa e dar os parabéns. Aí fico me perguntando: Será que sumiram todos os avôs, morreram todos ou eu é que sou um avô "bobão vivo" que faço questão de acompanhar minha netinha em todas as atividades, seja na escola, na alfabetização, nas brincadeiras de amarelinha, contar historinhas. Então me questiono: É, acho que estou na contramão da história. Não existem mais avôs!
         Lembro-me dos meus avôs e jamais naquela época tenho recordação de um avô passear comigo num parque, aliás, acho que naquela época não existia nem parque. Porque isto acontecia e está acontecendo até hoje? Seria pelo regime patriarcal em que fomos criados em que a criação era para as mães, avós e outros subalternos? Não sei, estou tentando achar a resposta em famosos antropologistas e não encontro resposta alguma.
         Haveria falta de amor por um neto ou todos estariam de saco cheio com a vida e estariam pensando somente nos próximos remédios a serem ingeridos para sufocar a dor de uma distância não compreendida?
         Realmente necessito de uma resposta e conclamo a todos os avôs para que no próximo final de semana a gente se encontre para discutir este distanciamento tão grande entre avôs e netinhos.
         Avôs existem, não há duvidas, mas onde estão? Talvez bebendo em algum boteco da vida, jogado o corpo flácido num velho sofá ou num asilo com uma saudade enorme de seus netinhos que faz tempo que não os vê.
         Faço o melhor papel de avô e sou participativo, pelo menos quando fechar os olhos para embarcar para outra vida sei que minha netinha dirá: Pois é, embarcou, quero ver onde arrumarei outro velhinho legal assim! Meu avô!

BICICLETA


           Se todo brasileiro tivesse uma bicicleta em casa e  fizesse uso da mesma cotidianamente e abandonasse o carro pelo menos uma vez por semana na garagem com certeza estariam contribuindo enormemente   em não poluir  tanto nosso planeta e viveriam alguns anos a mais.
         Mas possuir uma bicicleta não dá “status” para ninguém, aliás, muitos associam a quem tem uma bicicleta a pessoa de baixa remuneração, sem condições de comprar um carro e então continuam jogando toneladas de substâncias poluentes nos nossos pulmões, causando centenas de congestionamentos ao longo das nossas rodovias, atropelando, matando e exibindo luxuosos e reluzentes veículos.
         Se pararmos para refletir a quantidade de benefícios que andar de bicicleta nos traz, certamente começaríamos a andar de bicicleta agora mesmo.
         Tenho a minha bicicleta desde quando eu era garoto e jamais a abandonei, pois faço da mesma o meu meio de transporte cotidianamente, pois vou ao trabalho e volto de bicicleta, ao supermercado, ao passeio com minha netinha e a quase todos os lugares onde posso estacionar minha velha “magrela”.
         Neste domingo acordei bem cedinho, preparei um delicioso lanche, um cantil com água e saí pedalando sem destino, pois pedalar domingo de manhã na cidade onde moro é maravilhoso, pois não existe trânsito.
         Vento batendo no rosto, sensação de liberdade, apreciando os lindos ipês floridos e chácaras com muitos animais e fui parar na beira do rio Paraíba.
         Encostei minha bicicleta numa árvore, sentei-me confortavelmente num gramado e fiquei observando um senhor idoso e um garotinho pescando alguns poucos peixes existentes no rio e vários papagaios sobrevoando o rio e dando um verdadeiro espetáculo.
         Após alguns minutos de plena contemplação de ver o nascer do Sol, subi na minha bicicleta e voltei para casa pedalando vagarosamente e observando as primeiras pessoas chegando à padaria para comprar pães, de carro.
         Deu uma vontade enorme de pedir para o pessoal vir de bicicleta, mas como não conheço quase ninguém, continuei a pedalar e cheguei em casa e fui preparar o delicioso café matinal e refletindo sobre os benefícios de andar de bicicleta.Vamos pedalar!

LUTHIER

                E quando soube que a profissão que papai exerceu durante toda a vida era Luthier, não me contive e decidi escrever um pouco sobre a nobre profissão de papai.
         Quando eu era apenas um garoto tive o prazer de trabalhar durante uma semana numa oficina de instrumentos musicais, na verdade não era bem “trabalhar” e sim um breve castigo para poder valorizar um pouco o dinheiro gasto em um curso de Admissão que andava cabulando para ir nadar numa lagoa chamada Cisper.
         O trajeto até chegarmos à oficina era de trem e levávamos marmitas e assim que chagávamos na oficina tudo se transformava.
         Como era bonita a loja, com todos os instrumentos dispostos em maravilhosas vitrines, alguns raios de sol que penetravam na loja davam mais encanto aos lindos sax, trombones, pistões, bombardines e outros instrumentos.
         Mas toda a beleza ficava na loja, pois assim que entrávamos na oficina tudo ficava cinzento, pedacinhos de metais esparramados pelo chão, paredes rotas e um cheiro horrível de fumaça.
         Os operários cumprimentavam-se, trocavam de roupas e dirigiam-se para suas bancadas feitas com madeiras e onde se podia ver que todas tinham um torno, um maçarico, uma enorme gaveta com vários tipos de ferramentas e um banquinho.
         Papai levou-me até o meu local de trabalho que ficava no fundo da oficina, deu-me alguns pedaços de flanelas e apresentou-me um lindo sax que estava pendurado num cavalete e disse que poderia começar a trabalhar, pois eu seria o mais novo lustrador de instrumentos de sopro da oficina. Lembro-me que era necessário colocar uma determinada pasta para que o brilho tornasse mais intenso e lá fui eu dando as primeiras “flaneladas” no instrumento que parecia que estava sorrindo da minha cara.
         Era assustador quando todos os maçaricos estavam funcionando simultaneamente, pois parecia que estávamos no inferno, era fogo pra tudo quanto era lado e eu ali, com um olho no instrumento e outro nos maçaricos e ficava pensando: Acho que esta oficina vai explodir a qualquer momento!
         Chegou a hora de almoçar e meu pai colocou nossas marmitas para esquentar em banho-maria e todos comeram maravilhosamente bem, menos eu que estava com o estômago embrulhado, virado e com muito enjoo.
         Era maravilhoso ver a habilidade de papai que com alguns martelinhos ia desamassando parte por parte dos instrumentos e em seguida ligava o maçarico e aplicava no instrumento e martelava novamente eu ficava imaginando que em breve aquele instrumento poderia estar integrando alguma orquestra do nosso país e embalando sonhos de pessoas ávidas de apenas alguns momentos de felicidade.
         Após um longo e estafante dia de trabalho, retornávamos para casa com a mão doendo de tanto lustrar os instrumentos, mas feliz, muito feliz em ter ficado ao lado de papai durante todo o dia.
         Foi apenas uma semana de trabalho ao lado do meu querido papai, pois consegui contrair uma terrível diarreia e fiquei em casa e aprendi a valorizar muito a nobre profissão do meu pai José da Silva, O Luthier.

3 de abr. de 2012

PESQUISA

                      Era uma das últimas casas a ser pesquisada, bati palmas e fiquei olhando para o pequeno vira-lata que latia e ficava olhando para trás e este era um sinal que na residência existia morador e ali permaneci por uns cinco minutos até que apareceu um senhor com aparência de “louco” e perguntou-me o que eu queria e então disse a ele que precisava que ele respondesse algumas perguntas para mim, pois trabalhava num órgão de pesquisa e ele pediu para eu entrar na garagem e sentar num pedaço de madeira que iria responder minhas perguntas.
         Um tanto desconfiado eu disse a ele que não haveria a necessidade de entrar, pois a entrevista seria rápida, mas o morador insistiu e lá fui eu sentar no pedaço de madeira para ver minha pesquisa concluída.
         Sentamos confortavelmente na madeira e comecei a fazer as primeiras perguntas e inesperadamente o morador levantou-se e saiu correndo para fora do portão e trancou o mesmo pelo lado de fora, deixando-me preso na garagem e disse que iria à casa de uma tia e que voltaria em breve.
         Fiquei um pouco assustado, olhei para os muros e eram muito altos, não dava para pular, a garagem era totalmente fechada, passei as mãos na testa e o suor começava a surgir e então tomei a decisão de aguardar o morador retornar, abri minha mala, saquei um livro que estava lendo, abri na página em que estava o marcador e comecei a ler enquanto aguardava o retorno do louco.
         Passados uns vinte minutos o morador louco apareceu e perguntou-me sorrindo se ele tinha demorado muito e eu balancei os ombros e disse: Imagina, foi rápido, não consegui nem ler dez páginas do meu livro e assim fiz a entrevista do lado de fora do portão e com um medo danado do louco me prender novamente. E a partir daquele dia nunca mais entrei em nenhuma casa. Você tá louco!

O JOGO

 O hábito era antigo, quando saía do serviço, antes de chegar em casa sempre passava num boteco perto de casa para beber uma cerveja, comer algum petisco e prosear um pouco com algum conhecido e desintoxicar um pouco a mente.
O boteco era simples, um enorme balcão, algumas mesas onde sempre ficavam alguns jogadores de baralho jogando um jogo chamado caxeta e um proprietário maravilhoso que sempre tinha aquela cerveja bem gelada e aquele torresmo pururuca que não havia cirurgião cardíaco capaz de retirá-lo das artérias entupidas de tão delicioso que ele era.
Naquele dia cheguei ao boteco cumprimentei todos, sentei no meu banco favorito e senti que algo estranho estava acontecendo, pois todos os jogadores de baralho estavam muito sérios e muito apreensivos, aí pensei: “Deve ser pela quantia que está em jogo” e segui bebericando minha cerveja estupidamente gelada e degustando o maravilhoso torresmo pururuca.
Repentinamente um dos jogadores começou a passar mal, começou a transpirar muito, ficou pálido e todos retiraram o jogador da cadeira e encostaram o mesmo numa outra cadeira, substituíram o jogador e o jogo continuou normalmente.
Às vezes um ou outro jogador olhava de soslaio para o pobre jogador moribundo que jazia naquela cadeira e eu não me contive e cheguei perto do homem e o mesmo estava com a cabeça para trás, gelado e foi aí que gritei para o proprietário que estava limpando algumas garrafas de aguardente que viesse socorrer aquele homem, pois o mesmo estava muito mal.
O proprietário chegou perto do homem, pegou seu pulso, passou a mão na testa e disse: Este acabou de morrer! "Já éra".
Fiquei impressionado com a frieza de todos, paguei aquilo que tinha consumido e fui embora muito chateado sem saber o que tinha acontecido e só fui saber no outro dia que aquele homem tinha realmente morrido na mesa de jogo, tinha sido vítima de um ataque  fulminante do coração. Nunca mais entrei naquele boteco, pois tinha medo de também ter um ataque cardíaco e ninguém me socorrer.