8 de abr. de 2012

LUTHIER

                E quando soube que a profissão que papai exerceu durante toda a vida era Luthier, não me contive e decidi escrever um pouco sobre a nobre profissão de papai.
         Quando eu era apenas um garoto tive o prazer de trabalhar durante uma semana numa oficina de instrumentos musicais, na verdade não era bem “trabalhar” e sim um breve castigo para poder valorizar um pouco o dinheiro gasto em um curso de Admissão que andava cabulando para ir nadar numa lagoa chamada Cisper.
         O trajeto até chegarmos à oficina era de trem e levávamos marmitas e assim que chagávamos na oficina tudo se transformava.
         Como era bonita a loja, com todos os instrumentos dispostos em maravilhosas vitrines, alguns raios de sol que penetravam na loja davam mais encanto aos lindos sax, trombones, pistões, bombardines e outros instrumentos.
         Mas toda a beleza ficava na loja, pois assim que entrávamos na oficina tudo ficava cinzento, pedacinhos de metais esparramados pelo chão, paredes rotas e um cheiro horrível de fumaça.
         Os operários cumprimentavam-se, trocavam de roupas e dirigiam-se para suas bancadas feitas com madeiras e onde se podia ver que todas tinham um torno, um maçarico, uma enorme gaveta com vários tipos de ferramentas e um banquinho.
         Papai levou-me até o meu local de trabalho que ficava no fundo da oficina, deu-me alguns pedaços de flanelas e apresentou-me um lindo sax que estava pendurado num cavalete e disse que poderia começar a trabalhar, pois eu seria o mais novo lustrador de instrumentos de sopro da oficina. Lembro-me que era necessário colocar uma determinada pasta para que o brilho tornasse mais intenso e lá fui eu dando as primeiras “flaneladas” no instrumento que parecia que estava sorrindo da minha cara.
         Era assustador quando todos os maçaricos estavam funcionando simultaneamente, pois parecia que estávamos no inferno, era fogo pra tudo quanto era lado e eu ali, com um olho no instrumento e outro nos maçaricos e ficava pensando: Acho que esta oficina vai explodir a qualquer momento!
         Chegou a hora de almoçar e meu pai colocou nossas marmitas para esquentar em banho-maria e todos comeram maravilhosamente bem, menos eu que estava com o estômago embrulhado, virado e com muito enjoo.
         Era maravilhoso ver a habilidade de papai que com alguns martelinhos ia desamassando parte por parte dos instrumentos e em seguida ligava o maçarico e aplicava no instrumento e martelava novamente eu ficava imaginando que em breve aquele instrumento poderia estar integrando alguma orquestra do nosso país e embalando sonhos de pessoas ávidas de apenas alguns momentos de felicidade.
         Após um longo e estafante dia de trabalho, retornávamos para casa com a mão doendo de tanto lustrar os instrumentos, mas feliz, muito feliz em ter ficado ao lado de papai durante todo o dia.
         Foi apenas uma semana de trabalho ao lado do meu querido papai, pois consegui contrair uma terrível diarreia e fiquei em casa e aprendi a valorizar muito a nobre profissão do meu pai José da Silva, O Luthier.

3 de abr. de 2012

PESQUISA

                      Era uma das últimas casas a ser pesquisada, bati palmas e fiquei olhando para o pequeno vira-lata que latia e ficava olhando para trás e este era um sinal que na residência existia morador e ali permaneci por uns cinco minutos até que apareceu um senhor com aparência de “louco” e perguntou-me o que eu queria e então disse a ele que precisava que ele respondesse algumas perguntas para mim, pois trabalhava num órgão de pesquisa e ele pediu para eu entrar na garagem e sentar num pedaço de madeira que iria responder minhas perguntas.
         Um tanto desconfiado eu disse a ele que não haveria a necessidade de entrar, pois a entrevista seria rápida, mas o morador insistiu e lá fui eu sentar no pedaço de madeira para ver minha pesquisa concluída.
         Sentamos confortavelmente na madeira e comecei a fazer as primeiras perguntas e inesperadamente o morador levantou-se e saiu correndo para fora do portão e trancou o mesmo pelo lado de fora, deixando-me preso na garagem e disse que iria à casa de uma tia e que voltaria em breve.
         Fiquei um pouco assustado, olhei para os muros e eram muito altos, não dava para pular, a garagem era totalmente fechada, passei as mãos na testa e o suor começava a surgir e então tomei a decisão de aguardar o morador retornar, abri minha mala, saquei um livro que estava lendo, abri na página em que estava o marcador e comecei a ler enquanto aguardava o retorno do louco.
         Passados uns vinte minutos o morador louco apareceu e perguntou-me sorrindo se ele tinha demorado muito e eu balancei os ombros e disse: Imagina, foi rápido, não consegui nem ler dez páginas do meu livro e assim fiz a entrevista do lado de fora do portão e com um medo danado do louco me prender novamente. E a partir daquele dia nunca mais entrei em nenhuma casa. Você tá louco!

O JOGO

 O hábito era antigo, quando saía do serviço, antes de chegar em casa sempre passava num boteco perto de casa para beber uma cerveja, comer algum petisco e prosear um pouco com algum conhecido e desintoxicar um pouco a mente.
O boteco era simples, um enorme balcão, algumas mesas onde sempre ficavam alguns jogadores de baralho jogando um jogo chamado caxeta e um proprietário maravilhoso que sempre tinha aquela cerveja bem gelada e aquele torresmo pururuca que não havia cirurgião cardíaco capaz de retirá-lo das artérias entupidas de tão delicioso que ele era.
Naquele dia cheguei ao boteco cumprimentei todos, sentei no meu banco favorito e senti que algo estranho estava acontecendo, pois todos os jogadores de baralho estavam muito sérios e muito apreensivos, aí pensei: “Deve ser pela quantia que está em jogo” e segui bebericando minha cerveja estupidamente gelada e degustando o maravilhoso torresmo pururuca.
Repentinamente um dos jogadores começou a passar mal, começou a transpirar muito, ficou pálido e todos retiraram o jogador da cadeira e encostaram o mesmo numa outra cadeira, substituíram o jogador e o jogo continuou normalmente.
Às vezes um ou outro jogador olhava de soslaio para o pobre jogador moribundo que jazia naquela cadeira e eu não me contive e cheguei perto do homem e o mesmo estava com a cabeça para trás, gelado e foi aí que gritei para o proprietário que estava limpando algumas garrafas de aguardente que viesse socorrer aquele homem, pois o mesmo estava muito mal.
O proprietário chegou perto do homem, pegou seu pulso, passou a mão na testa e disse: Este acabou de morrer! "Já éra".
Fiquei impressionado com a frieza de todos, paguei aquilo que tinha consumido e fui embora muito chateado sem saber o que tinha acontecido e só fui saber no outro dia que aquele homem tinha realmente morrido na mesa de jogo, tinha sido vítima de um ataque  fulminante do coração. Nunca mais entrei naquele boteco, pois tinha medo de também ter um ataque cardíaco e ninguém me socorrer.

PERSEVERANÇA

        Após enviar dezesseis vezes o mesmo currículo Vitae para uma indústria de equipamentos eletrônicos, via correio, pois naquela época ainda não existia a Internet, finalmente fui chamado para uma entrevista e o gerente com um olhar sisudo e desconfiado questionou: 
 - Pois é “garoto” recebi seu currículo dezesseis vezes, aqui estão eles! E esparramou todos pela mesa e imediatamente disse:
- Quais são suas pretensões e o porquê de tanto currículo assim, você conhece a nossa empresa?
Respirei fundo e passei a descrever a indústria com uma naturalidade incrível, pois já tinha pesquisado a empresa e sabia exatamente o que a mesma produzia, quem eram os compradores dos equipamentos, quais eram os principais fornecedores e até quem trabalhava na indústria.
         O gerente ficou estupefato e começou a questionar como eu poderia ajudar a empresa a crescer e a vender mais e eu disse que poderia trabalhar com pesquisas, pois adorava pesquisar e até sabia um pouco de inglês para futuras pesquisas em outros idiomas e após mais algumas perguntas fui contratado como Auxiliar Técnico em Eletrônica.
         No meu primeiro dia de trabalho fui encaminhado à sala do gerente e o mesmo disse que gostaria que eu fosse a um Instituto de Pesquisa fazer um estudo sobre “oxidação”, pois a maioria dos equipamentos estava com este tipo de problema devido à maresia e que eu só voltasse do Instituto com um relatório pronto e com a solução.
         Antes de sair para minhas pesquisas iniciais fui assessorado por alguns engenheiros que relataram os problemas, tiraram algumas fotos dos equipamentos  afetados e lá fui eu com a cara e a coragem com destino as minhas pesquisas.
         Foram necessários vinte e seis dias de pesquisas, devorando livros, consultando engenheiros, pesquisadores e finalmente eu tinha a solução para o problema que tanto afetava os equipamentos da indústria onde eu estava trabalhando.
         Cheguei muito orgulhoso e apresentei o relatório com a solução para o gerente e ele disse:
- Parabéns senhor Luiz, pode ir pra casa descansar e regresse amanhã, pois irei convocar todos os engenheiros, técnicos e o proprietário da empresa para uma reunião e o Senhor ilustrará nossa solução e acrescentou: muito obrigado!
         Fui pra casa e não consegui dormir pensando em como comportar-me diante de pessoas tão inteligentes e como poderia conduzir a minha “palestra”, demonstração para todos.
         No outro dia lá estava eu abandonado em cima de um pequeno palco com meus conhecimentos, várias folhas de papel, um retroprojetor, um pequeno quadro negro, uma suadeira danada e o meu gerente ao lado.
         Cumprimentei a todos e passei a relatar o meu trabalho no Instituto e prol da qualidade na empresa e fui vagarosamente apresentando a solução e quando terminei a palestra fui aplaudido e fiquei muito comovido.
         Ao descer do palco fui cumprimentado pelo proprietário da empresa que disse: Muito obrigado, vamos colocar seus conhecimentos e sua solução em prática!
         A partir deste dia comecei a acreditar mais em mim e aceitava quase todos os desafios, quase todos eram solucionados, em outros nem sempre encontrava a solução, mas ficou a lição:
Sempre somos capazes e devemos sempre perseverar, avivar nosso espírito para novos desafios e sairmos da nossa zona de conforto para encararmos o Mundo de frente, contra o vento, tempestades e conseguirmos transpor as adversidades em prol de soluções que ajudem a melhorar nosso planeta.

2 de abr. de 2012

BANDEIRA DO BRASIL

        Meu time de futebol São Paulo Futebol Clube tinha sido Campeão Paulista em 1.998 e após a partida eu fui dormir muito emocionado, pois naquela época eu adorava futebol e quando coloquei a minha cabeça no travesseiro fiquei pensando em construir uma enorme bandeira do São Paulo F.C para colocá-la num enorme mastro para que todos pudessem visualiza-la bem de longe.
         No dia posterior, logo nas primeiras horas da manhã lá estava eu entrando e saindo de lojas de tecidos na Rua 25 de Março a procura de um nobre corte de tecido para construir uma linda bandeira para o meu clube do coração.
         Após ter percorrido várias lojas entrei em uma loja e fui imediatamente atendido por um senhor muito simpático e assim que falei que queria comprar tecido para fazer uma bandeira para o meu clube ele sorriu e disse:
- Amigo, tenho alguns tecidos que acabaram de chegar e gostaria de mostrar para você, pois acho que você irá gostar muito.
E assim subimos para um depósito onde ficavam os tecidos, ele apontou vários fardos de tecidos com estampas da Bandeira do Brasil e eu disse:
- Olha amigo, acho que você não está entendendo o “espírito da coisa”, pois estou interessado em fazer apenas uma bandeira para o meu clube!
Como todo ótimo vendedor, perguntou quanto eu tinha de dinheiro e disse a quantia e ele conseguiu vender o tecido para confeccionar a bandeira para o meu time e ainda empurrou vários metros do tecido com a estampa da bandeira do Brasil e disse:
- Estamos apenas a algumas semanas da Copa do Mundo na França e você irá confeccionar as Bandeiras do Brasil e vendê-las para lojas de um real e ficará rico! Deu alguns tapinhas nas minhas costas, desejou-me boa sorte e foi atender outro freguês.
         Saí da loja com um enorme pacote embaixo do braço, meio atordoado e fui comprar os cabinhos de PVC que serviria como mastros para as futuras bandeiras.
         Cheguei em casa e apresentei o tecido para a minha esposa e ela sorriu e disse laconicamente:
- Olha querido, se você pensa que eu irei participar deste novo empreendimento, você está muito enganado! Abaixei a cabeça e solicitei que ela ao menos me ensinasse a costurar as primeiras bandeiras e depois eu iria me virar.
         Costurei as bandeiras do Brasil, coloquei os mastros, confeccionei alguns cartões de visita e saí com as bandeiras  pelas ruas do bairro onde eu morava visitando as lojas e oferecendo as bandeiras e ninguém se interessava, pois ainda faltavam algumas semanas para a Copa do Mundo começar e eu precisava vender pelo menos aquelas cem bandeiras e assim fui andando, andando e oferecendo e acabei indo parar a uns vinte quilômetros longe da minha residência e lá estava eu no bairro do Tatuapé subindo a Rua Tuiutí e numa das lojas de 1,99 acabei vendendo todas as bandeiras e fui embora para casa muito feliz.
         Estava eu muito cansado e jogado no sofá quando tocou o telefone e minha esposa atendeu e perguntou sorrindo se eu tinha uma fábrica de bandeiras e eu disse que tinha acabado de montar uma naquele dia. Atendi ao telefone e o dono da loja onde eu tinha vendido as cem bandeiras queria fazer uma cotação para uma encomenda de três mil bandeiras. Fechei o pedido e lá fomos nós procurar costureiras para ajudar-nos a confeccionar  as bandeiras.
         Foi uma verdadeira festa a confecção da três mil bandeiras, pois pedi para alguns garotos da rua ajudar e no prazo estipulado lá estava eu entregando as bandeiras para meu cliente que ficou muito feliz.
         A copa do Mundo começou e meu pedido de bandeiras do Brasil aumentou e já me considerava um micro empresário e trabalhava umas dezoito horas por dia e os negócios iam muito bem.
         Na véspera da final do jogo entre Brasil e França, enfeitei toda a casa com várias bandeiras e preparei um churrasco para comemorar o sucesso do empreendimento e no outro dia, dia da grande final não tinha a menor dúvida que o Brasil seria campeão e foi uma grande frustração, pois o mesmo perdeu para França e deixou-me com duas mil bandeiras confeccionadas e encalhadas, pois não haveria mais comprador.
         A partir daquele dia passei a prestar um pouquinho menos de atenção a qualquer partida de futebol e ficou uma lição maravilhosa: “Quando queremos que algo dê certo e acreditamos no nosso empreendimento” o sucesso pode demorar, mas é certo! Acontece. Bela recordação Verde e Amarela!

1 de abr. de 2012

VIAGEM DE TREM À SANTOS


          Se existiu outra vida, outra encarnação, posso garantir com toda convicção que eu fui maquinista de trem e morava na praia.
         A minha paixão por trens é inefável, talvez pelo barulho da locomotiva, pelo som maravilhoso das rodas dos trens em contato com os trilhos e aquele cheiro agradabilíssimo de querosene misturado com óleo e o tradicional apito que faz pular nossos corações de alegria.
         Decidimos fazer uma viagem de São Paulo até Santos e naquele domingo ensolarado lá estávamos nós com nossas mochilas repletas de guloseimas, binóculos  e uma filmadora na Estação de trem Júlio Prestes aguardando a chegada da locomotiva que iria nos levar a um dos passeios mais lindo de toda a minha vida.
         Os bilhetes da viagem já estavam comprados com antecedência e ao chegar a Estação Júlio Prestes notamos ao descer as escadas muita alegria entre o pessoal que iria viajar para Santos.
         Chegamos e sentamos num enorme banco de madeira e ficamos aguardando o trem com muita ansiedade e muito feliz e não demorou muito ouvimos um apito e o trem foi chegando mansamente na estação, a locomotiva encostou-se à plataforma e o barulho das rodas em contato com os trilhos, o cheiro forte de querosene misturavam com nossa felicidade.
         As portas dos vagões foram abertas e entramos calmamente a procura dos nossos lugares e notamos que o maquinista estava andando pelos vagões dando-nos boas vindas e dizendo que a viagem demoraria aproximadamente cinco horas, que existia um vagão restaurante e que aproveitássemos todas as paisagens encantadoras que iríamos ver ao longo da viagem.
         As portas dos vagões fecharam e o trem foi saindo vagarosamente da estação emitindo vários apitos e nossos corações repletos de alegria abriam sorrisos de felicidade.
         As primeiras paisagens não eram lá muito encantadoras aos nossos olhares, pois estávamos saindo da grande metrópole e o que víamos eram prédios, carros, rodovias e o mais encantador era o som constante e repetitivo da locomotiva.
         Como a viagem era longa resolvi abrir um pequeno livro para ler e passei os olhos por algumas páginas e constantemente era convocado para ver algum detalhe que passava pela janela do vagão e finalmente abandonei o livro numa das mochilas e comecei a observar os encantos das primeiras paisagens que surgiam, pois estávamos começando a descer a serra e o trem foi diminuindo a velocidade e parou para serem colocados alguns cabos de aço. Ficamos um pouco apreensivos, pois o trem desceria através de alguns cabos de aço, que loucura!
         Novamente alguns apitos foram ouvidos  e o trem estava em movimento e descia a serra vagarosamente e as primeiras florestas da mata atlântica começaram a aparecer entre lindas flores, cachoeiras e voos maravilhosos de grandes pássaros.
         Comecei a filmar a linda paisagem e surpreendentemente fui convidado pela patroa a beber uma cerveja bem gelada no vagão refeitório e não recusei e lá fomos nós degustar a bebida.
         Na volta do vagão refeitório sentimos que o trem estava começando a parar novamente e finalmente parou bem em frente a uma linda cachoeira que descia do alto de um morro e ficou vários minutos parado para que nós apreciássemos aquela linda paisagem.·.
         Alguns passageiros de outro vagão apareceram no vagão onde estávamos e ofereceram alguns pedaços de bolo para adoçar mais ainda nossa magnífica viagem e a viagem foi seguindo e eu não cabia no meio de tanta felicidade.
         Os binóculos eram passados de mão em mão e já conseguíamos avistar bem ao longe o mar e a viagem estava terminando e vagarosamente o trem foi encostando na estação e apitando e nossas mochilas foram retiradas do bagageiro e saímos do vagão sobre grandes suspiros de felicidade e sempre olhando para trás uma máquina, apenas um trem capaz de proporcionar tanta alegria para nós simples mortais da grande metrópole.

31 de mar. de 2012

CALÇA XADREZ

              Eu estava decidido, iria comprar tecido para fazer uma calça xadrez, afinal era moda e eu não queria ficar fora da moda lá pelos  anos dourados da minha vida que foi a década de 70.
               Na década de 70, eu tinha apenas quinze anos de idade e com muito esforço em pedalar uma bicicleta pelas ruas do bairro onde eu morava consegui uma namoradinha e fazia questão de gastar a maioria do meu insignificante salário com compras de roupas e tecidos para fazer calças, pois adorava trajar-me muito bem e quando recebi meu salário corri até uma grande loja de tecidos que se localizava na Rua Quintino Bocaiuva, no centro de São Paulo e escolhi um corte de tecido xadrez amarelo e azul.
               O vendedor cortou e embrulhou o tecido xadrez e eu saí da loja todo feliz e chegando em casa pedi para mamãe fazer uma calça pra mim e ela disse:
- Mas Luiz, eu nunca fiz uma calça masculina em toda a minha vida! E eu incentivando mamãe dizia sorrindo:
- Mas mamãe, eu sei que a senhora é capaz! Vamos começar a tirar as minhas medidas! E mamãe toda orgulhosa começou a anotar as medidas e eu todo garboso ficava admirando mamãe esmerar-se em conseguir o melhor.
               No outro dia ao sair para trabalhar, que era uma quarta-feira pedi gentilmente para mamãe aprontar a calça pra mim até sábado, pois tinha um encontro especial com uma nova namoradinha e gostaria de ir com a calça xadrez e ela balançou a cabeça afirmativamente e sorriu.
                 Os dias passaram e mamãe conseguiu fazer minha calça e quando terminou já eram umas quatro horas da tarde de sábado, eu cheguei do clube e corri tomar um banho para colocar a minha calça que tinha ficado linda. Coloquei a calça e vi que tinha ficado um pouco curta, pois naquela época eu usava um sapato com salto carrapeta, que era moda na época e mamãe pediu desculpas e argumentou que tinha feito o melhor e eu disse:
- Não se preocupe mamãe, vou colocar um pouco de água e passar a calça, pois assim ela estica um pouco e fica tudo bem!
E assim passei a calça, vesti a mesma e ficou perfeita e saí todo alegre dando um beijo de agradecimento em mamãe para ir encontrar com a mais nova namoradinha.
               Cheguei a um Parque de Diversão e encontrei com a garota com a calça ainda meio molhada e começamos a conversar, comer pipocas e a calça foi secando, secando e encolhendo, encolhendo e quando eu senti a mesma já tinha encolhido mais de um palmo.
Pedi licença para a garota dizendo que estava com muita dor de cabeça e fui embora correndo do Parque com muita vergonha de ser notado com as calças curtas e cheguei em casa ofegante e mostrei a calça para mamãe e ela não se conteve e deu uma enorme gargalhada e pediu desculpas e eu também sorri muito e dei um abraço em mamãe sobre os olhares curiosos das minhas irmãs que não estavam entendendo nada do ocorrido. A calça xadrez tinha encolhido!