1 de abr. de 2012

VIAGEM DE TREM À SANTOS


          Se existiu outra vida, outra encarnação, posso garantir com toda convicção que eu fui maquinista de trem e morava na praia.
         A minha paixão por trens é inefável, talvez pelo barulho da locomotiva, pelo som maravilhoso das rodas dos trens em contato com os trilhos e aquele cheiro agradabilíssimo de querosene misturado com óleo e o tradicional apito que faz pular nossos corações de alegria.
         Decidimos fazer uma viagem de São Paulo até Santos e naquele domingo ensolarado lá estávamos nós com nossas mochilas repletas de guloseimas, binóculos  e uma filmadora na Estação de trem Júlio Prestes aguardando a chegada da locomotiva que iria nos levar a um dos passeios mais lindo de toda a minha vida.
         Os bilhetes da viagem já estavam comprados com antecedência e ao chegar a Estação Júlio Prestes notamos ao descer as escadas muita alegria entre o pessoal que iria viajar para Santos.
         Chegamos e sentamos num enorme banco de madeira e ficamos aguardando o trem com muita ansiedade e muito feliz e não demorou muito ouvimos um apito e o trem foi chegando mansamente na estação, a locomotiva encostou-se à plataforma e o barulho das rodas em contato com os trilhos, o cheiro forte de querosene misturavam com nossa felicidade.
         As portas dos vagões foram abertas e entramos calmamente a procura dos nossos lugares e notamos que o maquinista estava andando pelos vagões dando-nos boas vindas e dizendo que a viagem demoraria aproximadamente cinco horas, que existia um vagão restaurante e que aproveitássemos todas as paisagens encantadoras que iríamos ver ao longo da viagem.
         As portas dos vagões fecharam e o trem foi saindo vagarosamente da estação emitindo vários apitos e nossos corações repletos de alegria abriam sorrisos de felicidade.
         As primeiras paisagens não eram lá muito encantadoras aos nossos olhares, pois estávamos saindo da grande metrópole e o que víamos eram prédios, carros, rodovias e o mais encantador era o som constante e repetitivo da locomotiva.
         Como a viagem era longa resolvi abrir um pequeno livro para ler e passei os olhos por algumas páginas e constantemente era convocado para ver algum detalhe que passava pela janela do vagão e finalmente abandonei o livro numa das mochilas e comecei a observar os encantos das primeiras paisagens que surgiam, pois estávamos começando a descer a serra e o trem foi diminuindo a velocidade e parou para serem colocados alguns cabos de aço. Ficamos um pouco apreensivos, pois o trem desceria através de alguns cabos de aço, que loucura!
         Novamente alguns apitos foram ouvidos  e o trem estava em movimento e descia a serra vagarosamente e as primeiras florestas da mata atlântica começaram a aparecer entre lindas flores, cachoeiras e voos maravilhosos de grandes pássaros.
         Comecei a filmar a linda paisagem e surpreendentemente fui convidado pela patroa a beber uma cerveja bem gelada no vagão refeitório e não recusei e lá fomos nós degustar a bebida.
         Na volta do vagão refeitório sentimos que o trem estava começando a parar novamente e finalmente parou bem em frente a uma linda cachoeira que descia do alto de um morro e ficou vários minutos parado para que nós apreciássemos aquela linda paisagem.·.
         Alguns passageiros de outro vagão apareceram no vagão onde estávamos e ofereceram alguns pedaços de bolo para adoçar mais ainda nossa magnífica viagem e a viagem foi seguindo e eu não cabia no meio de tanta felicidade.
         Os binóculos eram passados de mão em mão e já conseguíamos avistar bem ao longe o mar e a viagem estava terminando e vagarosamente o trem foi encostando na estação e apitando e nossas mochilas foram retiradas do bagageiro e saímos do vagão sobre grandes suspiros de felicidade e sempre olhando para trás uma máquina, apenas um trem capaz de proporcionar tanta alegria para nós simples mortais da grande metrópole.

31 de mar. de 2012

CALÇA XADREZ

              Eu estava decidido, iria comprar tecido para fazer uma calça xadrez, afinal era moda e eu não queria ficar fora da moda lá pelos  anos dourados da minha vida que foi a década de 70.
               Na década de 70, eu tinha apenas quinze anos de idade e com muito esforço em pedalar uma bicicleta pelas ruas do bairro onde eu morava consegui uma namoradinha e fazia questão de gastar a maioria do meu insignificante salário com compras de roupas e tecidos para fazer calças, pois adorava trajar-me muito bem e quando recebi meu salário corri até uma grande loja de tecidos que se localizava na Rua Quintino Bocaiuva, no centro de São Paulo e escolhi um corte de tecido xadrez amarelo e azul.
               O vendedor cortou e embrulhou o tecido xadrez e eu saí da loja todo feliz e chegando em casa pedi para mamãe fazer uma calça pra mim e ela disse:
- Mas Luiz, eu nunca fiz uma calça masculina em toda a minha vida! E eu incentivando mamãe dizia sorrindo:
- Mas mamãe, eu sei que a senhora é capaz! Vamos começar a tirar as minhas medidas! E mamãe toda orgulhosa começou a anotar as medidas e eu todo garboso ficava admirando mamãe esmerar-se em conseguir o melhor.
               No outro dia ao sair para trabalhar, que era uma quarta-feira pedi gentilmente para mamãe aprontar a calça pra mim até sábado, pois tinha um encontro especial com uma nova namoradinha e gostaria de ir com a calça xadrez e ela balançou a cabeça afirmativamente e sorriu.
                 Os dias passaram e mamãe conseguiu fazer minha calça e quando terminou já eram umas quatro horas da tarde de sábado, eu cheguei do clube e corri tomar um banho para colocar a minha calça que tinha ficado linda. Coloquei a calça e vi que tinha ficado um pouco curta, pois naquela época eu usava um sapato com salto carrapeta, que era moda na época e mamãe pediu desculpas e argumentou que tinha feito o melhor e eu disse:
- Não se preocupe mamãe, vou colocar um pouco de água e passar a calça, pois assim ela estica um pouco e fica tudo bem!
E assim passei a calça, vesti a mesma e ficou perfeita e saí todo alegre dando um beijo de agradecimento em mamãe para ir encontrar com a mais nova namoradinha.
               Cheguei a um Parque de Diversão e encontrei com a garota com a calça ainda meio molhada e começamos a conversar, comer pipocas e a calça foi secando, secando e encolhendo, encolhendo e quando eu senti a mesma já tinha encolhido mais de um palmo.
Pedi licença para a garota dizendo que estava com muita dor de cabeça e fui embora correndo do Parque com muita vergonha de ser notado com as calças curtas e cheguei em casa ofegante e mostrei a calça para mamãe e ela não se conteve e deu uma enorme gargalhada e pediu desculpas e eu também sorri muito e dei um abraço em mamãe sobre os olhares curiosos das minhas irmãs que não estavam entendendo nada do ocorrido. A calça xadrez tinha encolhido!

29 de mar. de 2012

ESTRADINHA DE TERRA

         Alguns momentos em nossas vidas são tão sublimes que não há como deixar de descrevê-los e entre os vários momentos que vivi existiram alguns que realmente marcaram minha existência.
         Os preparativos para uma curta viagem numa sexta-feira à noite com destino a roça enchia-me de alegria e satisfação.
        Não havia muito que levar a não ser o prazer pela aventura em “pegar” uma estradinha de terra e lá vamos nós com destino à casa de um tio que morava num paraíso, perto da nascente do rio Tietê, chamado Salesópolis.
         Até chegarmos à cidade de Salesópolis e sairmos da área urbana, minha alma ficava encolhidinha num canto qualquer, apenas prestando atenção em bares e padarias que começavam a fechar, alguns transeuntes que ousavam transitar àquela hora da noite e alguma ambulância que passava rapidamente por nós.
         Chegávamos  à cidade e parecia que tudo modificava, minha alma que até algum tempo atrás jazia num canto pulava e meus olhos enchiam-se de alegria e começávamos a percorrer os primeiros quilômetros da estradinha de terra.
         Uma música instrumental do rádio do carro era ouvida e poucas palavras eram faladas para não atrapalhar o encanto mágico do momento. Surgia a primeira porteira e eu descia vagarosamente para abri-la e o barulho característico da madeira rangendo levava-me décadas atrás quando passávamos por ali, a cavalo e parecia que era a mesma porteira.
         Após abrir várias porteiras e sentirmos prazerosamente vários cheiros de mato, parávamos numa imensa represa e saíamos do carro para contemplar o espetáculo da neblina começando a cobrir a água e aquele vento gelado assoprava nossos pensamentos e fazia a gente esquecer a grande metrópole e viver aquele momento único. Alguns “piados” de pássaros, barulhos vindos da mata e a lua cheia completavam nossa Felicidade.
         Era hora de seguir, pois já passava das duas horas da manhã e nós ali parados no meio da pequena estrada pensando “em nada” e querendo congelar aquele momento que se perpetuaria na nossa alma.
         Quando aproximávamos da Vila, passávamos vagarosamente pela igrejinha que ficava num morro, persignávamos e agradecíamos nossa boa viagem, parávamos o carro em frente à casa do meu tio, batíamos palmas e meu tio saía todo sorridente e pedia gentilmente para entrarmos, sempre solicitando notícias dos parentes.
         Após algumas prosas e boas gargalhadas, meu tio dirigia-se até o fogão a lenha, assoprava vagarosamente algumas brasas que ainda estavam acesas e colocava uma chaleira com água para preparar um café e todos sentávamos ao redor do fogão à lenha e ficávamos proseando e escutando o estalar das madeiras em contato com o fogo até os primeiros raios de Sol que iluminava a cozinha, nossa alma e a nossa Felicidade.

25 de mar. de 2012

TUMULTO NO CASÓRIO

          E a vida andava calmamente lá pelas bandas onde eu morava, eu estava estudando muito para formar-me Técnico em Eletrônica, fazia Inglês, capoeira e ainda sobrava tempo para namorar com uma linda garota chamada Ivete.
       Cheguei à casa da minha tia Nina, onde eu morava e lá estava um lindo convite de casamento da minha irmã Suely colocado sobre minha prancheta de desenho.
       Abri o convite vagarosamente, comecei a ler e decidi que iria aquele casamento acompanhado da minha namorada e imediatamente fui até a casa da senhorita Ivete convidá-la para o casamento e ela disse que iríamos sim.
      No dia do casamento coloquei a minha melhor roupa e minha namorada colocou um lindo vestido azul e lá saímos para pegar ônibus para São Paulo, pois morávamos em Jacareí e o casamento iria acontecer à tarde.
       Não fomos a Igreja e quando chegamos a festa já tinha começado, descemos as escadas de mãos dadas e repentinamente apareceu um rapaz que pegou minha mão e solicitou para que fossemos escutar um barulho de tamborim que vinha de longe, imediatamente safei-me do rapaz e disse:
- Amigo, vim de longe participar do casamento da minha irmã e estou acompanhado deste monumento que é minha namorada, você acha que vou perder meu tempo acompanhando sua insignificante pessoa! Falei em tom de brincadeira, zombando e acreditando que aquele rapaz fosse de boa índole.
       Saí de mãos dadas com minha namorada para cumprimentar todos que estavam na festa. Meu grande erro foi não perceber que o rapaz estava embriagado e estava passando por problemas pessoais, mas não havia como adivinhar a não ser pela sua expressão de sofrimento.
       Após os comprimentos, sentamos num degrau da escada da casa da minha mãe e ficamos observando o pessoal trazer um enorme bolo, refrigerantes, salgadinhos e quando me levantei para ver o bolo mais de perto, surgiu aquele rapaz com um punhal enorme dizendo que iria me matar de qualquer jeito e que eu nunca mais iria zombar de mais ninguém.
       Eu estava de um lado da mesa e o rapaz do outro lado e quando a ameaça surgiu imediatamente não pensei em nada, simplesmente virei a mesa em cima do rapaz e todos ficaram apavorados e queriam saber o que estava acontecendo e foi aí que um primo chamado Edson foi pra cima do rapaz e começou a socá-lo com toda sua força e minha irmã Sônia e minha namorada Ivete colocaram-me pra dentro da casa da minha irmã Sônia e trancaram a porta e diziam:
- Se você sair o rapaz te mata! Fica quietinho e deixa rolar a confusão!
    Era grito pra tudo quanto era lado, barulho de cadeiras, mesa, talheres, pratos, copos voando e espatifando no chão e eu ali andando de um lado para outro e louco pra sair pra socar o infeliz ou talvez ser socado e minha irmã e minha namorada pedindo calma, calma.
     Sinceramente foram uns dos momentos mais infeliz de toda minha vida, escutando o pessoal quebrando tudo e não poder sair, afinal trancaram a porta, esconderam a chave e ficaram na janela impedindo minha saída. Era uma agonia total, um estado de impotência, medo e rancor no meu coração. O pessoal brigando por minha causa e eu ali impotente, covarde, humilhado, trancado e inesperadamente pedi para minha irmã abrir a porta, pois ia conversar com o rapaz e ela disse:
- Meu querido irmão, se eu abrir esta porta você irá conversar com o rapaz no inferno! Você não entende? E abriu a porta e quando sai pra ver o que estava acontecendo observei uma cena aniquiladora para minha alma: Minha mãe tinha dado uma “gravata” no pescoço do rapaz e dizia com todas as forças do coração:
-É meu filho, aqui é família, você não vem estragar a festa de casamento da minha filha senão eu te mato agora FDP!
       Tentei acalmar mamãe e ela dizia: Sai pra lá que eu resolvo isto!
Soltou o rapaz e pediu que ele se retirasse da festa e lá foi o rapaz saindo vagarosamente, com vários hematomas e dizendo que voltava pra dar fim na minha vida.
       A festa continuou sobre um clima de total tensão e um tio chamado Evaristo ficou no portão para barrar o rapaz que voltaria de qualquer jeito, afinal era amigo dele e passados algumas horas o tal do rapaz não voltou e ficou uma grande lição: Jamais zombe de ninguém, principalmente de pessoas que não conhecemos, pois podemos acabar com a festa e ir parar no Céu ou talvez para o Inferno! Ainda bem que esta lição aconteceu quando eu tinha apenas dezoito anos e depois disto nunca mais zombei de ninguém! O mais difícil era aguentar minha namorada Ivete na volta pra casa que me olhava com um olhar de desconfiança e dizia: Que belo casamento! Adorei, vai ficar pra história! E ficou em: MINHAS HISTÓRIAS

RUA 25 DE MARÇO


       Para entender a Rua 25 de Março é necessário vivê-la intensamente, é necessário passar um dia inteiro circulando por lojas, entrar na galeria Pajé, subir os doze andares de elevador e descer a pé pelas escadas passando loja por loja, visitar o shopping 25 e observar a multidão comprando e pesquisando preços.
       Em 1.998 comecei a vender cartões de visita na Rua 25 de março e nas primeiras horas da manhã lá estava eu com meu mostruário de cartões, uma lanterna para iluminar os pedidos, pois quando era horário de verão, ainda estava escuro.
       Descia no metrô São Bento, atravessava a praça, benzia-me diante da Igreja São Bento, pegava um pedaçinho da Rua Florêncio da Abreu e descia a ladeira Porto Geral e lá estava eu no meu escritório a céu aberto. 
      Confesso que no primeiro dia fiquei um pouco assustado, mas com o passar do tempo fui acostumando com o pessoal, pessoas maravilhosas, sofridas, que montavam suas barracas logo nas primeiras horas da madrugada e passavam lá na Rua Vinte e Cinco de Março doze e até quinze horas das suas vidas.
      Vendia meus cartões de visita para os camelôs da Feirinha da madrugada e era muito engraçado quando existia o tal do “RAPA” que era o pessoal da Prefeitura que vinha verificar os camelôs que estavam ilegais vendendo seus produtos. Aí era um corre-corre danado e eu acompanhava meus clientes, ajudando-os a carregar pesados plásticos cheio de brinquedinhos, perfumes e outras mercadorias que eram esparramadas pela rua, afinal tinha que vender meus cartões e até avisava quando o rapa estava aproximando e os camelôs agradeciam e faziam os cartões comigo.
      Muitos camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março eram pessoas que vinham do nordeste do Brasil e das experiências que tive foi o prazer de nunca ter recebido um “calote” de nenhum comerciante, eram todos honestíssimos, quando não tinham dinheiro suficiente para pagar os cartões, o que era raro, eles emprestavam de um “conterrâneo” e estavam sempre de bom humor, pois tudo era festa, com chuva, com Sol, sempre estavam a sorrir, às vezes de alegria em ter vendido muito outras vezes de tristeza, mas sempre de bom humor com todos e sempre fazendo algumas piadinhas que era para quebrar o gelo e a sisudez de alguns clientes.
       Garanto que muitas vezes é necessário um pouco de sorte, além da nossa capacidade de persuasão e garanto que tive muita sorte, pois uma das minhas primeiras vendas foi feita para o Senhor José, um camelô que vendia alguns colares, brincos e pulseiras de pedras de todas as cores que vinham de Minas Gerais e estava trabalhando na Rua Vinte e Cinco de Março fazia uns trinta anos, então ele conhecia quase todos os comerciantes e assim foi apresentando-me um a um e meus cartões eram comercializados com alguma tranquilidade e lá pelas dez horas da manhã já tinha vendido de dez a quinze mil cartões para os camelôs.
       O tempo foi passando e eu fui conhecendo várias pessoas da Rua Vinte e Cinco de Março e até já era conhecido como o “Rei dos Cartões”.
       A vida começava a melhorar, os negócios iam de vento em popa com as vendas dos cartões e foi quando observei dois garotos vendendo bonequinhos do Pikachu que soltavam bolinhas de sabão, não tive dúvida, larguei a venda dos cartões de visita, comprei mil bonequinhos e fui vendê-los nas praias de Ubatuba até Santos. 
      Mas a saudades ainda existia e tempos depois voltava a Rua Vinte e Cinco de Março como “comprador” e ficava imaginando como era gostoso aquele tempo que saia as quatro e meia de casa, na zona Leste de São Paulo e passava um período entre os maravilhosos camelôs da Rua 25 de Março.
      Parabéns Rua Vinte e Cinco de Março, o maior centro comercial a céu aberto da América Latina e obrigado por permitir que eu passasse um período maravilhoso entre seus clientes e camelôs! Muitas saudades, muitas boas recordações! Obrigado!

23 de mar. de 2012

NÃO LEVE A VIDA TÃO A SÉRIO


            Há uma receita infalível para nossa longevidade e esta receita é sorrir mais do que estamos acostumados, mas bem mais. É muito engraçado quando nós sorrimos dos nossos defeitos, das situações embaraçadas que o cotidiano nos oferece como presente por estar por aqui, vivendo, vivendo e muitas vezes esquecendo-se de ser feliz.
            Nesta semana que passou fiz um teste e deixei-me levar pelo conselho de um querido primo que disse que nossa longevidade está diretamente ligada ao nosso viver bem, deixar a vida fluir com mais naturalidade, abandonando a pressa que é nosso algoz e às vezes leva-nos a situações desagradabilíssimas.
           Os detalhes são muito importantes, quantas vezes deixamos passar um momento único em nossa vida porque estamos com pressa e não podemos perder um segundo da nossa existência, mas não lembramos que aquele momento possa ser o último neste planeta.
           Folhear aquele velho álbum de fotografia da família que faz anos que você não vê, ver como mudamos e sentir a revolução que a internet causou em nossas vidas. Afinal quem vai querer saber de um álbum de fotografia nos dias atuais se temos um álbum digital na internet, temos o “Fliker” e tantos outros recursos a nossa disposição.
          Comprar um bom jornal no domingo de manhã e sentar-se confortavelmente numa mesa e ir folheando página por página, ler o editorial, fatos políticos, regionais, a página de esporte, lazer e ficar procurando por grandes cronistas que outrora escreviam textos maravilhosos e hoje já não encontramos mais.
         Colocar uma confortável cadeira no quintal ou na varanda e ficar contando estrelas com a netinha numa noite estrelada e relembrando várias histórias que nossos antepassados nos contava faz nossa alma inflar de tanta felicidade e acrescenta milhares de pontos no nosso ranking da longevidade.
        Olhar nossos colegas de trabalho e reparar como eles são engraçados, cada um de um jeito diferente, com suas idiossincrasias, defeitos, virtudes, caras feias, caras alegres, apressados, lentos e rir disfarçadamente de situações que não estávamos acostumados a reparar até então é muito divertido!
        Poder encarar o espelho e ver aquela ruga que na semana passada não existia e não ficar desesperado, entrar em depressão, que nada, o melhor é dar uma boa gargalhada e dizer pra nós mesmos: É estou ficando velho, isto é muito bom! 
         Sair bem cedinho de bicicleta com aquele vento maravilhoso de Outono batendo no nosso rosto e pedalar sem destino e pararmos na margem de um maravilhoso rio que silenciosamente convida-nos a uma grande reflexão da seriedade desta vida.
         Sentar-se num banco de um parque, abrir aquele livro que faz tempo que está com o marcador na página vinte e nove e recomeçar a leitura silenciosamente sob o encantador e mavioso canto de pássaros e lê-lo até o fim.
         Encontrar velhos amigos e sentar-se num bar distante da grande metrópole e reviver uma época maravilhosa entre um copo e outro de cerveja faz parte do requinte do não levar a vida tão a sério.
         Ir à igreja que faz tempo que abandonamos e poder orar e agradecer tudo de bom que está acontecendo e pedir proteção para continuarmos  trilhando nosso caminho até a hora do juízo final. A fé é muito importante e uma verdadeira aliada da querida longevidade.

         Como é bom assistir a vida sobre outro ângulo de visão e prestar atenção nas pessoas que estão ao nosso redor, pois muitas vezes é apenas uma questão de pequena sincronia para sermos mais feliz, bem mais feliz do que estamos acostumados.
         Resumindo é muito importante sorrir para a vida e sorrir da vida e aproveitarmos o máximo nossa existência que Deus nos proporcionou, pois se deixarmos pra depois pode ser um pouco tarde e quando percebermos seremos acordados com um torrão de terra sobre o nosso caixão, aí amigo (a) será tarde, muito tarde e ficaremos com cara de perplexidade dizendo: “Caramba como passou rápido e eu nem sorri!” Cabe a nós calar e torcer para que exista uma outra vida para podermos dar o devido valor nesta vida e a ter levado tão a sério. Será que valeu a pena? Portanto, façamos nossa parte: Não vamos levar a vida tão a sério! Sorria!

18 de mar. de 2012

MALAS


            E então quando nascemos a alegria é imensa entre nossos pais, pois lá estamos nós com nossos chorinhos manhosos apreciando papai e mamãe desarrumando a mala para retirar as primeiras roupinhas e tentar colocar na gente, sempre meio atrapalhados pela emoção de apertar aqui ou ajustar acolá. Pronto já estamos banhados e prontos para irmos para os colos dos visitantes. A mala é abandonada num canto qualquer e todos os focos são voltados para nossa carinha linda.
            O tempo vai passando e mamãe resolve nos batizar em Aparecida do Norte e lá estamos nós novamente colocando a mala em cima da cama e delicadamente as roupinhas são colocadas e estamos prontos para partir.
             A vida segue e até entrarmos para o curso primário foram várias às vezes em que presenciei as malas serem feitas e desfeitas por mamãe quando papai ia viajar e confesso que em algumas vezes ficava com o coração aflito e alma pequenininha imaginando que talvez papai não voltasse mais e entre algumas lágrimas escutava o barulho do zíper fechar-se e eu corria para o quarto para não presenciar a partida que era muito doida. Mas sempre papai voltava e quando ele chegava eu fazia questão de arrastar a enorme mala pela casa e desfazê-la para ver se encontrava algum presentinho escondido lá no fundo, bem no fundo da mala e meus olhos brilhavam de alegria quando eu os encontrava e aí corria e dava um abraço bem apertado em papai e abandonava a mala totalmente aberta na sala sob os olhares repreensivos de mamãe.
         Nas Férias escolares mamãe anunciava que eu iria passar alguns dias na casa da minha avó Duvina e do avô João em Salesópolis, interior de São Paulo e novamente fazíamos as malas com muita alegria e partíamos para pegar o trem para Mogi das Cruzes e depois um ônibus que deixava a gente num bairro chamado “Terceira” onde encontrávamos com meu avô que estava nos esperando montado em um belo cavalo e ainda trazia mais dois cavalos para irmos até sua residência na roça.
          Assim que descíamos do ônibus, a poeira fazia-se presente e entre abraços e beijos as malas eram colocadas num “Balaio” que estava sobre as costas do cavalo e seguíamos viagem até a roça e eu ficava encantado com a paisagem, o abrir e fechar de porteiras, lindos Ipês de todas as cores e o cavalo andando vagarosamente e às vezes até parando quando encontrava algum pequeno córrego.
           Nossa visita era aguardada por todo o povoado e assim que chegávamos à casa do meu avô os abraços de carinho e saudades eram indescritíveis.
           Entrávamos e lá na cozinha existia um belo fogão à lenha que constantemente ficava aceso para manter o café sempre quentinho e alguns pedaços de lingüiças e torresmos repousavam num varalzinho sob o fogão à lenha.
            Alguns estalos da lenha queimando, mamãe proseando com minha avó e outras vizinhas que vinham nos recepcionar e o barulho do zíper da mala abrindo-se e lá eu ia correndo pegar um velho short para ir jogar bola num campinho que existia ao lado da casa da minha avó.
            E novamente aquele aperto enorme no coração, era hora de voltar para casa e arrumar as malas e então eu pensava:
“Caramba, acho que não deveria existir malas, pois assim não haveria a necessidade de partir!”, mas depois refletia e chegava à conclusão que seria melhor que as mesmas realmente existissem, pois sem elas não seria possível a gente chegar ao nosso destino.
            Até os dezessete anos de idade nossas malas ficaram repousando num canto qualquer da casa e então decidi morar no interior e novamente solicitei a permissão de mamãe para arrumar as malas e morar no interior e ela um pouco triste concordou e enquanto arrumava as minhas malas via um olhar de apreensão no rosto e algumas lágrimas rolavam no rosto de mamãe e o barulho do zíper fechando-se e logo em seguida um abraço muito apertado em mamãe, no papai e nos meus irmãos e eu saindo com duas enormes malas para o meu destino.
         Até hoje quando arrumo as malas para viajar recordo de vários momentos alegres e tristes, Quantas histórias! Quantas malas arrumadas e desarrumadas aconteceram ao longo desses meus cinqüenta e seis anos! 
         Enquanto existir vida e existirem malas meus sonhos ficam repousando num canto da memória e em breve as mesmas serão feitas e poderei esboçar mais um sorriso de Felicidade sob o encantador barulho do zíper fechando-se e eu escutando:
 Pronto já estou feita, podemos partir?