6 de mar. de 2012

FESTA NO CÉU


        A temperatura estava amena, eram várias pessoas esperando a vez de ser recepcionado pelo porteiro que tinha um semblante calmo e sereno e todos estavam felizes por estarem naquele lugar. A cordialidade entre as pessoas que estavam na fila fazia-se presente. Não havia pressa e todos falavam baixinho para não atrapalhar o porteiro que parecia estar um pouco preocupado, pois naquele dia chegaram várias pessoas e a comissão de recepção estava aguardando feliz os novos moradores daquele local do lado de dentro sentados num banco ao redor de um lindo gramado com flores e pássaros e após uma longa espera foi a vez daquele senhor com um sorriso angelical no rosto, aproximou-se e cordialmente disse:
- Boa tarde, meu nome é Agostinho Raimundo da Silva. O porteiro sorriu e disse:
- Olá Sr.Agostinho, tudo bem com o senhor? Estávamos aguardando a sua chegada!
- Tudo bem graças ao senhor, sabe como é né mandaram-me pra cá, mas não explicaram direito qual será minha função neste local e gostaria de algumas explicações. E o porteiro disse:
- Pois não senhor Agostinho, o que gostaria de saber?
- Em primeiro lugar gostaria de saber se por aqui tem algum radinho de pilha para eu escutar meus programas durante as madrugadas!
- Mas senhor Agostinho, O senhor está no Céu e por aqui não temos nenhum radinho, isto é lá na terra, por aqui estamos todos imbuídos em aguardar pessoas boas e generosas assim como o senhor!
- Existe um bom caminhão para eu dirigir?
- Oh, claro que não, aqui todos andamos a pé!
- Nossa que bom, eu adoro andar a pé!
- Mas e o pessoal que ficou lá na terra, como farei para vê-los?
- Não se desespere tudo tem seu tempo e em breve após algumas reuniões com seus acompanhantes que estão aguardando pacientemente sentados naquele banquinho, o senhor receberá a resposta desta pergunta. Está vendo?
E quando o Sr. Agostinho ergueu a cabeça para observar quem o aguardava, recebeu alguns “tchauzinhos! de duas pessoas que parecia familiar. Abaixou a cabeça e os olhos lacrimejaram. E então o porteiro pediu gentilmente para ele entrar e encontrar com aquelas duas pessoas que mostraria tudo o que deveria ser feito.
        O Sr.Agostinho entrou em passos lentos e aproximou-se das pessoas que o aguardavam e ficou surpreso quando alegremente levantou-se um senhor calvo e caminhou na sua direção e disse:
- Agostinho! Prazer em revê-lo irmão! Quanto tempo! E dá um abraço carinhoso no seu irmão e em seguida chega uma senhora elegante e também o cumprimenta e diz: Poxa vida, que alegria em recebê-lo por aqui! José da Silva e Thereza Miranda da Silva estavam pacientemente aguardando a sua chegada.
- Como está o pessoal lá embaixo? Quero noticias! E o Sr.Agostinho diz:
- Ah, lá embaixo está tudo bem, agradeço de coração a todos por preocuparem-se comigo, mas sabe quando chega à hora Não há jeito!
- Mas não se preocupe irmão, aqui é bem melhor, afinal o clima é maravilhoso as pessoas são selecionadas a dedo pelo querido porteiro e fique muito feliz por estar por aqui. Em breve encontraremos pessoas que você não via há anos, lembra-se do Ermelindo? E o Sr.Agostinho disse:
- Claro que lembro, onde ele está?
- Logo ali adiante e logo mais conduziremos você para encontrar com seu pai Raimundo e sua mãe Maria que os aguardam ansiosamente.
- Nossa que bom, afinal encontrarei com pessoas que não via fazia anos!
- Você sabia que o Céu hoje está em festa para recepcioná-lo?
- Mas como assim?
- Ora, quando uma pessoa muito querida vem pra cá todos nós fazemos uma festa muito grande, assim aconteceu comigo e com a Thereza.
- Mas como é esta festa, têm bolo, refrigerante, salgados?
- Não, imagine! É uma festa de recepção onde todos os seus conhecidos comparecem para felicitá-lo e saber como estão todos na Terra. Todos ficam sentados num enorme banco conversando baixinho e sempre é muito gratificante receber pessoas assim como você.
- Mas vamos andando que já começaram a colocar os primeiros bancos e você estará lá na frente respondendo todas as perguntas que os demais farão.
- Quais serão as perguntas? Perguntou o Sr.Agostinho.
- Mas que curiosidade, vamos aguardar porque é surpresa, mas fique tranqüilo que você ficará muito feliz!
E assim, sentaram-se vagarosamente em enormes bancos e ficaram calados ouvindo o cantar maravilhoso de alguns pássaros que pousaram numa pequena árvore ao lado do banco.
Abaixaram a cabeça e começaram a orar pelas pessoas que ficaram na Terra, enquanto aguardavam as outras pessoas conhecidas chegarem para começar a Festa no Céu para recepcionar o querido Senhor Agostinho Raimundo da Silva.

2 de mar. de 2012

MARMITA

          Hoje estava mudando os canais na televisão para encontrar um desenho animado para minha netinha assistir quando repentinamente deparei com um programa matutino destinado as donas do lar que estava ensinando a preparar marmitas, deixei por algum instante no programa e deu uma vontade imensa de escrever uma simples crônica sobre a bela época que eu era um marmiteiro, aliás, fui marmiteiro quase a vida toda, devido a minha posição social um pouquinho desprestigiada, mas isto não vem ao caso e passamos a descrever a história:
              As primeiras marmitas que eu levei para o serviço eu tinha dezessete anos de idade e era sempre mamãe que preparava minhas marmitas. Minha primeira marmita era de alumínio, comprada na lojinha da Dona Matilde e nunca me esqueço do preparo da minha primeira marmita. Mamãe levantava-se bem cedinho e ia cozinhar o arroz para que eu levasse a comida fresquinha. Colocava a marmita sobre o fogão e em seguida começava a fazê-la, primeiro colocava o feijão e logo após o arroz e em seguida um delicioso e cheiroso bife, pronto a marmita já estava pronta. Colocava-a cuidadosamente numa pequena mochila e seguia para o trabalho.
               A marmita ficava repousando dentro de uma velha geladeira e quando era meio dia ia esquentá-la, então não existia o tal do micro-ondas e a mesma era esquentada num tal de banho-maria.
               E então era só começar a comer e confesso que no primeiro dia fiquei um pouco constrangido, mas com o passar dos tempos assumi ser um marmiteiro Sênior e sabia todas as nuances de como preparar, carregar, esquentar e comer as marmitas.
              Lembro-me embarcando nos lotadíssimos ônibus na Cidade A.E. Carvalho para ir trabalhar no centro da cidade e sempre lá estava eu com minha inseparável marmita de alumínio e quantas vezes ficava muito envergonhado quando alguma linda menina pedia se podia segurar a tal marmita e eu sempre agradecia e dizia que não era necessário pois ia descer logo, pois morria de vergonha da menina colocar a minha marmita no  colo e as lindas pernas da menina ficassem toda gelada, pois a marmita estava bem gelada por passar a noite dentro na nossa geladeira. Imagine que num determinado dia dei minha marmita para uma menina conhecida segurar e ela depositou a mesma nas suas pernas e teve a indelicadeza de perguntar o que tinha naquele embrulho e eu quase morri de vergonha diante de risadinhas abafadas e cara de desdém do pessoal que estava ao nosso redor, a partir deste dia nunca mais deixei ninguém carregar minha gostosa e gelada marmita e mantinha-a sempre perto do meu corpo com a devida prudência em não esbarrar em ninguém.
              Certa época trabalhava numa Faculdade e levava marmita e quase todos os dias e tinha uns “amigos” que eram muito “sacanas” e adoravam uma patifaria e brincadeiras que às vezes irritavam e foi num determinado dia que chegando ao meu serviço deixei a marmita numa geladeira e depois de esquentada depositei-a na mesa e abri a mesma e levei um grande susto: Não havia a tal da mistura, tinham roubado a mesma. Imediatamente tampei a mesma e fui reclamar com nosso gerente administrativo sobre o sumiço da minha mistura e ele envolvido em grandes tarefas da Faculdade pediu para eu aguardar pacientemente na sala de espera que iria atender-me. Passados eternos minutos e meu estômago já estava roncando tomei uma decisão radical: Fui a geladeira, abri-a e lá estavam quatro marmitas repousando na geladeira a espera de seus donos. Abri as quatro marmitas, retirei as misturas de todas e coloquei na minha marmita e comi prazerosamente sabendo perfeitamente que todos os funcionários marmiteiros seriam chamados para conversar com nosso gerente e foi muito engraçado ver as caras dos funcionários reunidos e levando uma tremenda bronca do gerente pelo sumiço das misturas. A partir deste dia nunca mais sumiu nenhuma mistura e as marmitas ficavam em paz aguardando seus donos.
             Lembro de vários episódios envolvendo meu amor por marmitas e a grande gozação era quando eu levava ovo na marmita e sempre um engraçadinho dizia que eu adorava “zoiudo” e tinha uma criação de galinhas em casa, inicialmente ficava um pouco irritado, mas com o passar o tempo levava tudo na esportiva e entrava no clima de “tiração de sarro” e tudo seguia bem.
              Hoje são raras as pessoas que ainda levam as tradicionais marmitas de alumínio, pois existem os “top-ware” da vida e depois que inventaram o tal ticket alimentação a nossa querida marmita tende a cair no esquecimento de todos, mas ainda continuo levando minhas marmitas preparadas com muito esmero pela minha filha. E ainda falam que levar marmita é coisa de pobre, pobre nada o importante é mantermos nossos “buchos” cheios e que se dane os ricos ou aqueles que nunca levaram uma marmita gelada para o serviço, pois não terão uma história engraçada como esta! Bela recordação! Marmita!

1 de mar. de 2012

O PRESENTE

              Todas as tardes quando eu chegava do estafante serviço  tinha um hábito de desintoxicar a mente. Após um demorado banho, vestia um velho calção de banho e ficava várias horas na varanda lendo um clássico da literatura, bebericando um bom copo vinho gelado e  apreciando a bela paisagem da periferia.   Eu morava num sobrado que ficava na parte mais alta do bairro e da minha varanda tinha uma visão panorâmica espetacular.  O clima era perfeito, uma confortável cadeira de descanso colocada estrategicamente para observar todos os ângulos e cantos da bela paisagem de várias casas sem o reboco, pois o bairro ainda estava sendo formado e também tinha uma visão maravilhosa do Metrô. Uma mesinha de centro, algumas samambaias penduradas e um canarinho que cantava todo o tempo.
           Foi desta maravilhosa varanda que comecei a esboçar minhas primeiras pífias crônicas. Escrevia as crônicas num caderno e após escritas as mesmas eram guardas a sete chaves para ninguém lê-las, pois tinha receio que observassem meus erros de português que naquela época eram muitos.
            Nossa vizinha era uma senhora muito pobrezinha e morava numa casa muito pequena e criava uma criancinha de três anos de idade  e do alto da minha varanda observava todos os movimentos da pequena criança correndo pra cá, correndo pra lá, sempre sozinha, às vezes parava e começava fazer pequenos buracos no chão de terra e repentinamente levantava-se e saía correndo atrás de uma galinha e era muito divertido o diálogo com a galinha que ela carinhosamente chamava de có-có.
             Minha vida estava muito tranqüila, tinha um bom emprego, uma ótima casa pra morar, boa comida, uma maravilhosa família e aquela confortável varanda para todos os meus devaneios  mentais vespertinos.
             Várias vezes saia da varanda com um peso enorme no coração e ficava imaginando: Enquanto estamos vivendo maravilhosamente bem existia aquela garotinha que talvez estivesse passando fome e resolvi falar com minha esposa para pesquisar como vivia aquela garotinha, quem era e se a mesma estava precisando de alguma “coisa” e prontifiquei-me a ajudar naquilo que fosse necessário.
             No outro dia quando estava na varanda, a porta abriu-se vagarosamente e minha esposa apareceu segurando a mão da menininha e apresentou-me: Aqui está sua filha Luiz! Levantei-me um pouco assustado, caminhei vagarosamente até a linda criança e  dei um beijinho na criança e comecei a conversar com a mesma até que minha esposa disse:
- Esta é a Amanda, o pai está pelo mundo e a mãe mora muito distante daqui e ela é criada pela avó com todas as dificuldades  de uma pequena renda deixada pelo marido recentemente falecido.
         Amanda era linda, franzina, cabelos todo cacheadinho moreninha e uns olhos alegres, cheio de esperança que a vida um dia sorriria para ela.
Meus olhos lacrimejaram, corri até o armário e peguei uma caixa de chocolates e dei a ela que ficou muito feliz. A partir daquele dia quase todos os dias via Amanda e meu carinho pela aquela menininha foi crescendo imensamente, pois além de ser muito bonitinha, era educada e chamava-me carinhosamente de Pai.
          Começamos a ajudar Amanda, comprando roupas, enviando cestas básicas para sua avó, lindas sandálias e passados alguns meses Amanda já fazia parte da nossa família e ficava várias horas correndo pela sala, cozinha e brincando de vídeo-game e às vezes colocava a cabecinha na porta da varanda e dizia carinhosamente: Oooooi Papai! Passava a mão na sua cabeça e ela saia correndo dizendo para minha esposa que eu queria pegá-la por ter atrapalhado minhas leituras.
           Às vezes brincava com ela dizendo se ela não parasse de correr pela casa toda iria levá-la até o metrô Sé e então rodaria a mesma inúmeras vezes e largaria ela lá. Ela sorria angelicalmente e dizia: Mas..papai vamos agora! Vai ser muito legal a gente brincar de roda-roda no metrô e então ela sorria e saia correndo novamente pela casa toda e ia contar pra esposa que iríamos brincar de roda-roda no metrô Sé! Ríamos muito daquele momento.
           Após um farto jantar perguntei a minha patroa se não seria possível adotar aquela menininha e ela vir morar conosco e ela ficou de pensar e falar com a avó para ver se era possível.
           O mês de dezembro começara e a lista de presentes natalinos já estava sendo montada e nunca nos esquecíamos da querida Amanda. Após um maravilhoso natal repleto de presentes e uma mesa divina com comidas de todas as espécies aproximava-se meu aniversário que era dia 27 de dezembro e todos estavam programando dar-me um maravilho presente e então a ansiedade fazia-se presente constantemente.
           No dia do meu aniversário minha esposa ligou-me e pediu para eu ir direto pra casa, pois iríamos sair para comemorar meu aniversário e assim foi feito.
           Cheguei em casa e fiquei um pouco assustado, pois todas as luzes  estavam apagadas e quando abri a porta da sala, acendeu-se a luz e quase todos os meus amigos começaram a cantar Parabéns para mim. Um lindo bolo disposto numa elegante mesa da sala, várias taças de cristal dispostas sobre a mesa e um vinho importado completava o maravilhoso cenário. Foi quando minha esposa pediu para vendar meus olhos que ela ia trazer meu presente e vendou meus olhos e logo em seguida ela pediu para eu abrir e ver o lindo presente que eu tinha ganhado: Abri os olhos e não vi absolutamente nada e a esposa falou pra mim, olha pra baixo e veja seu lindo presente! Quando avistei Amanda com os bracinhos esticados querendo um abraço e dizendo: Sou eu seu presente Papai! Feliz Aniversário! Quase tive um enfarto de tanta emoção, abracei Amanda e dei um carinhoso beijo no seu rostinho. Tínhamos conseguido que Amanda viesse morar conosco, aquele era meu presente: Uma filha! Foi criada com muito carinho enquanto esteve conosco e passados algum tempo voltou para casa da avó. Presente maravilhoso, devidamente guardado a sete chaves na minha memória e agora todos sabemos.

29 de fev. de 2012

FÉRIAS

         Após trabalhar trezentos e sessenta e cinco dias em uma pequena empresa com o chefe mais chato do mundo, ter que bater o “bendito” ponto, cartão, crachá e ultimamente passarmos apenas o dedo e nossa impressão digital delatar toda a nossa assiduidade, os ônibus lotados, metrô sob um calor infernal, trens parando constantemente, finalmente estamos de férias!
          Acordamos no primeiro dia de férias meio assustados sem saber o que fazer com os trinta dias conseguidos com muito mérito e ficamos vagando entre a sala e a cozinha. Abre a geladeira, assiste televisão, começa a ler um livro e não passamos da terceira página, a inquietação atormenta nosso espírito e então vamos ao quintal alimentar os pássaros e não sabemos onde está o alpiste e acordamos a “patroa” e então ela acorda meio brava dizendo que está na segunda gaveta do armário e volta a dormir, tentamos inutilmente regar aquela flor que tanto amamos e está tão linda, mas não sabemos onde está o regador e novamente a esposa é solicitada para dizer onde está o tal regador. Barulho de água na chaleira e inventamos depois de tanto tempo  fazer um café e levar pra esposa na cama, mas não sabemos onde está o pó de café e novamente acordamos a linda dona do lar. Até que num determinado instante ela fica muito zangada, acorda dirige-se até a cozinha e mostra onde está tudo aquilo que queremos e então dizemos:
- Desculpe-me querida, estou de férias! E ela com a cara de leão de circo diz:
- Pois seria muito melhor se você estivesse trabalhando, pois só assim não seria acordada a esta hora!
- Mas querida já são nove horas!
- E aí, não sabe que meu horário de acordar é dez horas!
E então saia vagando pelo quintal tentando encontrar o verdadeiro significado de “Férias” e quando pensava que tudo estava perdido e eu estava predestinado a passar as minhas férias sendo humilhado, subitamente dizia:
- Arrume as malas, vamos viajar para o Litoral Norte e não se esqueça de levar aquele biquíni branco ao qual você fica muito gostosa!
         A minha amada sorria e derretia-se toda e corria fazer as malas para partirmos para nossas merecidas férias. Nossa? Claro que não, apenas a minha, pois a patroa não fazia nada o ano inteiro e ainda usufruía daquele maravilhoso período.
        Todas as nossas malas eram colocadas no carro e era então que eu observava que estava faltando o principal e logo gritava:
- Mas onde está a Barraca de Camping, querida! E ela falava nervosamente:
- Mas nós vamos acampar Luiz? E minha resposta era:
- Sim, vamos acampar, há alguma objeção?
Humildemente ela ia até o grande porão e retirava a enorme Barraca de Camping e colocava no carro com minha ajuda, é claro.
Entre eu arrumar todas as “tralhas” no carro, beber algumas poucas cervejas restantes na geladeira demorava poucos minutos e todos estávamos preparados para pegar a estrada.
        Novamente nossos conflitos entravam em erupção, pois ela adorava ouvir pagode e eu admirava Música Popular Brasileira e depois de vários minutos entrávamos num consenso e saíamos ouvindo o maravilhoso Chico Buarque de Holanda que logo na descida da serra era substituído por grandes grupos de pagode. Aceitava humildemente e colocava meu protetor auricular e assim os pagodeiros desciam cantando e eu dormindo sob o efeito de algumas cervejas ingeridas antes da partida e pouco ouvia as vozes estridentes dos “maravilhosos” cantores da minha amada.
         Quantas vezes fui acordado durante a viagem e algumas perguntas ecoavam sobre o tal grupo:
- São maravilhosos, não é Luiz? Referindo ao som que estava “rolando” no CD e eu dizia rapidamente entre uma babada e outra:
- Realmente são excelentes! Se você encontrar músicos melhores avise-me! E virava-me para outro lado e continuava a dormir.
         E quando meus sonhos pareciam tornar-se realidade eu era acordado com o carro na areia e sendo chacoalhado para montarmos a barrava de Camping. E então abria os olhos e via a chuva correndo pelos vidros do carro e pedia para parar numa pousada mais próxima e minha patroa chacoalhava e dizia com toda as forças do seu coração:,
- Acorda FDP, chegamos e é necessário montarmos a Barraca! Está chovendo!
Abria a porta vagarosamente e meu corpo quente insistia para que eu ficasse mais alguns minutos dentro do carro, mas não havia acordo, todos me puxavam para fora do veículo e eu saia cambaleando para montar a Barraca.
           Nunca, jamais tinha montado uma barraca de Camping em toda a minha vida e existia a grande necessidade de montarmos rapidamente, pois a chuva insistia em não querer dar uma trégua.
Rapidamente saia à procura de algumas pessoas que pudessem ajudar-me naquela grande empreitada e sempre conseguia depois de percorrer várias barracas algum garoto que sempre dizia que adorava montar Barracas de Camping e assim o garoto montava quase que tudo sozinho a nossa Barraca.
           Agradecíamos ao garoto e começávamos a colocar nossos colchonetes para dentro da barraca e logo após os mantimentos, fogão e tudo aquilo que existia dentro do carro.
            Quando tudo parecia tranqüilo,e todo o pessoal estava dormindo tinha uma grande vontade de beber algumas cervejas bem geladas e saia à procura da tal cerveja e a encontrava num distante quiosque com pessoas cantando e outras dançando e encostava meu umbigo no balcão e pedia uma cerveja.
Com uma voz barítono aparecia uma linda garota e perguntava-me educadamente o que eu queria e dizia a ela que queria uma cerveja muito gelada para beber no balcão e prontamente era atendido.
Após várias cervejas bebidas começava a ensaiar os meus primeiros passos de dança imbuídos sobre o efeito do álcool e assim continuava até que inesperadamente aparecia minha esposa com um enorme facão dizendo que iria cortar meu “bilau”. Rapidamente despedia-me de todos e seguia em passos trôpegos acompanhando minha amada. Que vergonha! Mas não conseguia esquecer minha última parceira de dança, uma moreninha maravilhosa que dançava alegremente por todo o quiosque.
          Chegávamos à Barraca e meu colchonete era apresentado, jogava-me pesadamente sobre o mesmo e adormecia com os passos da linda garota dançando na minha mente. Escutava um raivoso Boa noite e durma com Deus da minha patroa e adormecia sonhando com as minhas férias.
           No outro dia o Sol fazia-se presente, levantava-me sorrateiramente e sentava-me na areia, em frente a barraca de camping e ficava vários minutos refletindo sobre o acontecido  no dia anterior e prometia a mim mesmo que a partir daquele dia não faria mais patifarias.  Ficamos um mês acampados na Praia da Mocóca em Caraguatatuba e aprendi que nossos impulsos e emoções nos levam a cometer alguns absurdos como o ocorrido. Foi uma das melhores férias da minha vida! Quantas patifarias! Bela recordação!

28 de fev. de 2012

TAXI

          Somente a maior cidade da América Latina, São Paulo poderia proporcionar-me a satisfação de locomover-me diariamente durante um período de dois anos pelas “esburacadas” e lindas ruas da Metrópole.
           Logo no primeiro dia do meu mais novo emprego fui informado que iria fazer inspeções externas de equipamentos de informática e estaria a minha disposição uma Cooperativa de Taxi que me levaria para todos os lugares onde se fizesse necessário. Fui logo indagando ao Gerente da Empresa:
- Mas isto realmente é verdade ou é apenas uma brincadeira?
- É meu querido, nossa empresa fornece taxi para todos os funcionários que façam serviços externos indiferente da posição hierárquica.
- Como devo proceder para chamar um taxi?
- Fácil, você ficará em poder de um boleto e assim que você chegar ao seu destino o motorista dirá a você qual é o valor da corrida, você preencherá o boleto com a quantia e tudo estará certo e posteriormente a empresa acertará com a cooperativa.
           Pensei: Nossa que maravilha! Vou poder andar de taxi na minha querida Sampa! Em pensar que algum dia atrás andava a pé, de ônibus lotadíssimos, metrôs entupidíssimos de almas e trens apertadíssimos. Mais um grandioso presente inesperado!
           E assim comecei minha nova jornada nesta empresa andando de taxi para todos os lugares onde existia inspeção para ser feita.
           Os lugares eram os mais variados: Região do Aeroporto de Congonhas, Alphaville , Sorocaba, Campinas e vários lugares que eventualmente apareciam.
            Então ia para a firma onde a inspeção seria feita e após terminar meu trabalho, ligava e lá estava o taxi a minha disposição para levar até minha residência ou qualquer outro lugar que eu indicasse.
             Existia até uma música na época que não me recordo da cantora que dizia: Vou de taxi! (Acho que era a Eliana). E assim que chamávamos um taxi imediatamente um colega de serviço começava a cantar a tal música zombando do grande privilégio existente para nós inspetores externos.
             Recordo-me quando estava inspecionando duzentos teclados numa indústria e fazia-se necessário algumas horas extras, então liguei para o meu Gerente dizendo que terminaria o serviço somente de madrugada e haveria a necessidade de eu ir para minha cidade naquele dia e ele não hesitou e pediu gentilmente que assim que terminasse o serviço chamasse um taxi e pedisse para o mesmo conduzir-me até o meu destino. Terminei o serviço às 2 horas da manhã, chamei um taxi de luxo que me conduziu até a cidade de Jacareí-Sp, distante uns 100 quilômetros da onde eu estava. Achei sensacional e pensava: caramba, se toda a empresa fosse assim, seria uma maravilha!
        Acabei fazendo várias amizades com motoristas de taxis e existia um motorista que ficamos tanto “amigos” que constantemente ele emprestava sua casa em Caraguatatuba para eu passar minhas férias, ou finais de semana.
        Um acontecimento inusitado aconteceu numa véspera de Natal quando entramos de taxi no mar de carros do estacionamento de um grande shopping e não anotei o local onde deixei o motorista esperando-me e fui comprar um disco e quando retornei não conseguia encontrar novamente o taxi, então tive que esperar quase todos os carros irem embora para localizar o taxi, e o taxímetro rodando, rodando e quando apresentei o Boleto para o meu Gerente ele ainda brincou dizendo por onde eu andara por apresentar um valor muito acima da média? Talvez eu tivesse ido Rio de Janeiro ou Curitiba!
Contei o ocorrido a ele e rimos muito da minha inocência.
            Mas de tanto andar de taxi, acabei não querendo andar mais em outro meio de transporte e aí nos finais de semana quando havia necessidade de locomover-me pegava um taxi particular e então meu bolso reclamava, mas mesmo assim foram necessários vários meses após eu desligar-me da empresa onde eu trabalhava para voltar a andar de ônibus, metrô ou trem e dizia com uma pontinha de saudade: Poxa vida, eu era rico, riquíssimo e não sabia. Que tristeza pegar estas conduções apertadíssimas, mas consegui sobreviver e hoje só pego taxi quando há dinheiro disponível, ou seja, sobrando, então concluindo: Não ando mais de taxi! Que saudades! Qualquer dia destes vou andar de taxi para “matar” a saudade daqueles lindos dias que existia sempre um taxi a minha disposição. Tempos bons não voltam mais! Saudade!

27 de fev. de 2012

FEIRA DAS FLORES DO CEAGESP

          Só quem já esteve no CEAGESP pode ajudar-me a definir a imensidão que é aquele local, pois na minha modesta opinião acho que o CEAGESP é a “Cara” de São Paulo, primeiro pelo tamanho, realmente é enorme, segundo pela quantidade de pessoas que circulam por lá comercializando seus produtos e por último pela beleza que é a Feira das Flores que acontecia e deve acontecer até hoje: as Terças e sextas-feiras.
         Como tinha a liberdade de ir para qualquer lugar comercializar meus cartões de visita, achei que a Feira das Flores seria um ótimo lugar para vender os cartões, pois a mesma acontecia das 3 da madrugada até as 10 horas da manhã e a concorrência de vendedores de cartões seria bem menor.
         Após comunicar ao dono da gráfica onde eu ia vender meus cartões ele ficou um pouco céptico, esboçou um sorriso de dúvida quanto à aceitabilidade e consentiu a autorização e lá fui eu pra casa dormir mais cedo, pois outro dia teria que acordar às 4 horas da manhã para colocar o pé na estrada, pegar um ônibus e em seguida um trem que me conduziria até o Paraíso das Flores chamado: A Feira das Flores do CEAGESP.
          Logo quando cheguei à estação CEAGESP, lá do alto vi milhares de caminhões estacionados no imenso pátio entre inúmeras pessoas circulando entre vários boxes. Admito que fiquei um pouco assustado com o dinamismo e o agradabilíssimo cheiro das Flores que exalavam das milhares de flores existentes no local.
          Desci as escadas e entrei por um portão lateral e fui oferecendo e vendendo meus cartões de visita para todos os comerciantes de flores.  Após negociar meus cartões de visita tinha um hábito maravilhoso que era de ir até uma lanchonete na entrada principal, pedir uma cerveja e ficar contabilizando os meus pedidos e depois ir embora para passar o serviço para a gráfica.
           No primeiro dia fiquei muito surpreso, pois estava concentrado passando meus pedidos de cartão a limpo e em questão de alguns minutos ouvi vários caminhões entrando e saindo e a feira das flores sendo desmontada e dando lugar para as batatas, milhos, pimentas, hortaliças. Mas a rapidez é impressionante e achava que o CEAGESP tinha realmente a “Cara” de São Paulo, pela agilidade, a quantidade e variedade de produtos, milhares de pessoas circulando entre caminhões, boxes. Tudo aquilo deixava eu apaixonado pelo local e tinha planos de ficar muito tempo por lá. E após conseguir uma boa cartela de clientes para o dono da gráfica comecei a passar nos restantes dos outros boxes para oferecer meus cartões.
             Conheci pessoas maravilhosas no CEAGESP e entre as pessoas tive o imenso prazer em conhecer um Japonês chamado Akira que cultivava e vendia todos os tipos de pimentas que um ser humano pode imaginar e acabei ficando freguês e todas as sextas-feiras comprava vários vidros de deliciosas pimentas para comer com meu prato predileto durante a semana.
             Há um enorme relógio no portão principal que é uma referência para todos que por lá circulam e sempre quando estava perdido no meio de tantos boxes, orientava-me por aquele relógio.
              Acredito que devo ter passado uns quatro meses dentro do CEAGESP e fiz uma excelente Carteira de clientes para a gráfica e em seguida fui vender os meus cartões de visita em outro lugar.
            Deixei de vender os cartões e fui trabalhar com minha irmã que estava montando uma Revista e tive a Felicidade de voltar novamente ao CEAGESP, a Feira das Flores com meu irmão Robson.
              O encanto foi o mesmo, o entusiasmo e o amor pelos locais já conhecidos eram passados para meu querido irmão que também ficou muito emocionado com a Feira das Flores.
             Os espaços publicitários eram oferecidos e a aceitabilidade não estava sendo muito boa porque estávamos vendendo apenas “O Boneco” da revista, estávamos tentando conseguir os primeiros clientes para patrocinar a revista. “Não” seguidos de “não” ouvíamos constantemente e até que num determinado dia meu irmão ficou um pouco aborrecido pela recusa dos espaços publicitários e resolveu  comprar uma planta para enfeitar sua casa e lá ficamos procurando a tal da planta por vários minutos até que ele conseguiu comprar uma linda planta que apelidamos carinhosamente de “TOCO”, colocamos dentro do carro e fomos comemorar a compra do Toco. Ridículo ir até o CEAGESP vender espaço publicitário e acabar comprando um toco! Mas tudo era festa e acabamos comemorando a compra do tal Toco numa lanchonete conhecida, com várias cervejas e porções degustadas sobre vários sorrisos de Felicidade em ter comprado o Tal do Toco e ter conhecido o lugar mais encantador do mundo: A Feira das Flores do CEAGESP. Bela recordação!

MEU PRIMEIRO CELULAR

          Há a necessidade de estarmos “antenados” com as novas Tecnologias e quando eu pensei que já tinham inventado quase tudo nesta vida surge este maravilhoso aparelhinho chamado celular.
               Quando os primeiros equipamentos apareceram por aqui em 1.997 eu tinha um velho “BIP” que utilizava para manter contatos com meus clientes de Plano de Saúde. Mas meu verdadeiro plano era sair dos “Planos de Saúde” e migrar para outra atividade qualquer e foi nesta época que surgiu a oportunidade de vender Cartões de Visita.
                Os clientes “bipavam”,eu  anotava o número e corria até um orelhão para retornar o chamado e acertar uma visita. Era muito triste estar bebendo uma cerveja bem gelada numa galeria qualquer do centro de Sampa, receber um chamado via “BIP” e ter que sair correndo para não perder o cliente e deixar o copo quase cheio sobre o balcão da lanchonete. Aquilo me deixava muito triste e eu fazia planos para adquirir um aparelho celular o mais breve possível.
                 Comecei a vender cartões de visitas para o Luis, dono de uma gráfica digital que tinha um escritório na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo, bem em frente a TELESP, o que aguçava ainda mais  minha vontade de ter o tal do celular. Mas nunca sobrava dinheiro suficiente para comprar o tal do aparelho, visto que o equipamento custava muito caro. E lá eu ia seguindo com meu velho aparelhinho BIP e sempre sonhando em fazer uma boa venda de cartões para adquirir um celular, até que num determinado dia a sorte resolveu acompanhar-me e sai de casa de madrugada para oferecer meus cartões de visitas para os camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março, na antiga e surpreendente Feirinha da Madrugada.
            Lá pelas dez horas da manhã de um determinado dia já tinha vendido vários cartões e ia embora quando fui abordado por um camelô pedindo se eu poderia fazer apenas cem cartões de visita para ele, disse educadamente que só vendia múltiplos de mil, ou seja: mil, dois mil e assim por diante e ele disse que os produtos que ele comercializava eram poucos e não havia clientes suficientes para poder fazer um pedido de mil cartões. Foi então que fiz uma brincadeira com ele e disse:
- Olha amigo, só faço cem cartões pra você se você apresentar-me um próspero comerciante que faça dez mil cartões comigo.
Ele riu humildemente, colocou a mão no queixo e ficou pensativo até que inesperadamente disse:
- Pois é senhor vendedor de cartões, tenho um primo que é muito rico e vou dar o endereço dele para o senhor fazer uma visita, quem sabe ele faça alguns cartões com o senhor! Mas preciso de cem cartões!
Passei a mão no meu bloquinho de pedidos e imediatamente anotei o pedido de cem cartões para o humilde camelô. Sabia que não poderia apresentar apenas um pedido de cem cartões e tinha resolvido que iria fazer mil cartões e arcaria com o resto do custo. Coloquei o endereço do primo rico no bolso e segui meu caminho e quando estava dentro da estação São Bento do Metrô, resolvi voltar e ir até o tal do primo rico ver se conseguia mais um significante pedido de cartões de visita.
            Quando cheguei em frente ao endereço, fiquei muito surpreso, pois eu estava em frente a um shopping, peguei o elevador e apresentei-me a secretária e ela pediu que eu aguardasse alguns minutos que ela iria anunciar-me ao próspero comerciante.
             Entrei e apresentei-me ao “Primo rico” do comerciante da rua vinte e cinco de Março e ele cordialmente perguntou-me:
- Quem enviou você até aqui? E eu contei toda a história dos cartões e que ele tinha um primo que vendia alguns carrinhos de plásticos e foi exatamente aquele primo que pediu para eu ir falar com ele.
O comerciante sorriu e levantou-se da cadeira e disse:
- Onde está este querido primo que não o vejo faz anos! Dei o endereço a ele e o comerciante encomendou quarenta mil cartões para uma nova loja que ele estava inaugurando sobre artigos exotéricos.
          Como o Luis, dono da gráfica não fazia aquele tipo de cartões encomendados, procurei um amigo que tinha uma gráfica com várias máquinas no Tatuapé e ele fez os cartões.
          O dono da gráfica do Tatuapé entregou os cartões ao rico comerciante e pediu para eu passar na gráfica para receber minha comissão e ele foi logo dizendo:
- Muito obrigado pelo pedido, quanto lhe devo?
Eu zombando, brinquei dizendo que precisava de dinheiro suficiente para comprar um bom celular, pois estava cansado de tanto usar meu simples “BIP”, ele sorriu e deu uma quantia que dava pra comprar dois celulares. E lá fui eu para a região da Rua Santa Efigênia comprar meu primeiro celular. Era enorme, parecia um tijolo, pesado, mas... funcionava!
            Sai da loja todo encantado com meu celular e liguei pra todos os meus contatos e acabei com todo meu crédito. A partir deste dia andava com meu pesado celular preso a minha cinta e sempre que precisava telefonar usava-o e ficava agradecendo aquele humilde camelô que tinha proporcionado tal conforto.
            Depois muitos outros celulares eu tive, mas este conseguido com uma brincadeira serviu-me de lição: Nunca duvide de uma pessoa por sua insignificante posição social, pois ela pode surpreender você a qualquer momento, assim como aconteceu comigo e a partir deste dia passei a não duvidar de mais ninguém nesta vida. E viva o Celular!